12 dezembro 2003

O texto abaixo foi publicado originalmente no Simplicíssimo [chegando às caixas de e-mail hoje]. Ainda não assinou? Dá um toque aqui, então. A publicação aqui se faz necessária porque eu não escrevi outro texto a respeito do mesmo filme. Rafael, pois, que me perdoe.


Momentos de graça e romantismo (ou: Os doces instantes de imbecilidades que nos conquistam)

Filmes de amor são os raros e explícitos momentos de imbecilidade a que nos dedicamos sem a maior das vergonhas. Sabemos por antemão o andamento de suas tramas e, no entanto, nos permitimos a auto-enganação indulgente que nos possibilita a graça de alguns minutos de risos e o sentimento de que, afinal, o mundo não está perdido. Não está perdido por que o amor está em toda parte. Isto – a certeza de que o amor este em toda parte – é o que fala um personagem no começo de “Simplesmente Amor”, quando observa as chegadas e partidas em um aeroporto. Por mais que tudo esteja ruim “lá fora”, as pessoas em aeroportos se abraçam ao partir ou ao chegar às pessoas que amam, e isto por que, afinal, há muitas pessoas que se amam! E este não é um prólogo padrão para começo de resenha de filme. Não é, porque, por mais estranho que pareça, tenho a pretensão de tentar tirar lição – para o bem ou para o mal – de tudo o que me cai em mãos ou, como espectador, tenho a possibilidade de apreciar. Então, uma vez tendo me disponibilizado, de caso pensado, a assistir a um filme obviamente romântico – sobre amor, com amor, casais apaixonados, e esta coisa toda, então – tenho, não a ingenuidade, mas talvez o positivismo de sugar bons resultados ou mensagens válidas ou simplesmente saborear os momentos explícitos de imbecilidade a que resolvi me dedicar.

Imbecilidade, eu sei, parece um termo forte demais para se usar quando se comete a inofensiva tarefa de deleitar-se com um filmeco de amor. No entanto, por mais que este termo não nos ataque enquanto estamos rindo com as piadas –“Olha que inteligente, Richard Curtis fez com que o primeiro-ministro inglês pareça um cara mais ameaçador do que o presidente americano!” –, e nos engalfinhando na pipoca e graciosos de mãos dadas com a guria, quase que invariavelmente a sensação – a de imbecilidade... – pinta depois. Nada daqueles chavões de “oh, fui me enfurnar em um grande cinema de shopping comandado por uma multinacional para comer pipoca e refrigerante (de uma multinacional), vendo uma comédia enlatada imposta pelos gigantes imperialistas”. Não, não vamos tão longe assim. A gente só se sente razoavelmente imbecil, por que, por vezes, rir com uma trama fictícia, armada para a ilusão dos nossos sentimentos e se sentir razoavelmente bem e achar que o amor, afinal, existe – ainda que sob a forma pictórica e estereotipada de todos os finais felizes de aniversários e festas de escolas que acabam sendo o epílogo de quase todos estes filmes ingleses (quando não terminam em casamento ou funeral) ... – faz com que nos sintamos, sim, um pouco constrangidos! Mas só um pouco... O outro tanto eu deixo para realmente me sentir feliz ao final da sessão, de mãos dadas com minha guria, saboreando pipoca e refrigerante e me encantando com um filmeco inglês com histórias inverossímeis sobre o amor.

É, aquela história de “o amor está em todas as partes” (''Love is All Around'', a mesma música-tema de ''Quatro Casamentos e um Funeral'', aparece neste filme, também, só que hilariamente modificada para uma canção caça-níquel de Natal, cantada pelo astro de fim de carreira Billy Mack, interpretado por Bill Nighy, nos momentos mais hilariantes do filme.)

Ok, ok, as sensações são estas. E eu sempre me interessei, demasiadamente, pelas sensações despertadas pelas obras sobres os críticos – literários, cinematográficos, etc... Resumo da ópera você consegue em qualquer site ou segundo caderno de jornal, agora, saber o que a pessoa sentiu assistindo um filme ou lendo um livro é outra questão. E os filmes românticos, que não se pretendem mais profundos ou analíticos, têm comumente, a possibilidade de despertar, ao menos em mim, dois tipos de sensação: a de estupidez completa ou a de deleite prazeroso por que uma boa história foi contada.

Os filmes que conseguem me despertar o primeiro sentimento normalmente são aqueles formados por tramas tão estúpidas e forçadas ao extremo, que nem para sessão da tarde servem. Tramas amorosas inverossímeis, reviravoltas burlescas e aventuras tôscas acabam me deixando realmente irritados, quando chego a conclusão – antes que o filme termine, hein! – que mesmo com tudo isto, o casal vai ficar junto no final. É, nós sabemos que no final, quase sempre o casal fica junto – diretor que resolve fazer o contrário, em um ataque de originalidade que pretende para sua obra, invariavelmente colhe a ruína ou pouca receptividade ao seu filme. Temos que reconhecer, somos absolutamente conservadores em se tratando de trama romântica, ao menos no cinema. Ou ao menos em filmes como estes, mais rápidos e dugustáveis com a pressa de um lanche encostado ao balcão. O charme do cinema inglês pede tramas rechonchudas de amor e promessas inacabáveis de final feliz.

Desde já, saibamos, então, que “Simplesmente Amor” termina com felicidades para todos! Grande surpresa, hein?! Mais surpresa? Todos felizes, em um aeroporto, esperando as pessoas amadas, tal qual no começo. Não, minhas revelações não chegam a estragar nada, até por que não há nada tão surpreendente assim. O que temos neste filme é um pretenso épico amoroso conduzido pela estrela principal dos últimos grandes sucessos de comédias românticas inglesas. Richard Curtis, o diretor deste, é o roteirista de “Quatro Casamentos e um Funeral”, “Um Lugar Chamado Notting Hill” e co-roteirista de “O Diário de Bridget Jones”. Era lógico que, cedo ou tarde, ele fosse querer dirigir o seu próprio filme. Estreou bem, muito bem, pode-se dizer. Com temáticas universais, os apelos sentimentais mostrados em seu filme conseguiram fazer tanto sucesso na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Na Inglaterra, não seria surpresa: nos três filmes – quatro com este último – temos Hugh Grant, o ator mais querido daquele país, fora o fato de todos estes filmes contar com aquele humor tipicamente inglês, cheio de sarcasmos e citações mórbidas, com o sotaque que eles consideram o maior charme do mundo. Nos Estados Unidos, mesmo com o personagem de Billy Bob Thorton fazendo o papel de um presidente americano arrogante meio tarado (uma mistura de Bill Clinton e George W. Bush), o filme também conseguiu uma grande bilheteria, arrecadando cerca de US$ 32 milhões.

Apesar da presença de Hugh Grant no filme – desempenhando o papel de um improvável primeiro-ministro inglês com o mesmo cabelo desalinhado e os mesmos cacoetes e gracejos de “Amor à Segunda Vista”, que se apaixona pela sua assistente de gabinete (a popular e linda atriz inglesa de novelas Martine McCutcheon), um dos principais motivos para o bom desempenho no filme (e, dizem, o preferido das espectadoras...) é a presença do ator Colin Firth. Ele e a atriz portuguesa Lúcia Moniz protagonizam talvez a mais verossímil e encantadora das nove pequenas historietas que se intercalam durante o filme inteiro. Firth é Jamie, um escritor que viaja para o sul da França a fim de terminar seu livro e acaba se apaixonando por Aurélia, a faxineira que diariamente arruma a pequena casa onde está hospedado. Mesmo com a distância das culturas e sem que nenhum dos dois tenha conhecimento sobre a língua do outro – e este é o grande mote atrativo – com a paixão deste casal o diretor tenta passar a máxima que o amor é mesmo universal.

A sucessão de tramas acontece de maneira bastante natural, sendo que não chega a haver aquela relação forçada de telenovela, em que todo o mundo se conhece (isto acontece somente nas duas cenas finais, na festa de fim de ano do colégio e na supracitada cena do aeroporto). Quando isto ocorre, não chega a ter uma função de servir de “anzol” para a justificativa de outro personagem: foi somente a opção argumentativa do autor. Como a personagem de Emma Thompson, irmã do primeiro-ministro e às voltas com a traição do marido (Alan Rickman) com a secretária. Como as histórias são ambientas em uma Londres às vésperas do Natal, tudo parece ainda mais mágico, e compras de final de ano são uma boa justificativa para piadas com presentes e canções natalinas. E é como um engraçado atendente de shopping que surge (em um das suas duas pequenas participações) Rowan Atkinson, o Mr. Bean, amigo pessoal do diretor.

Ademais, temos o recém-viúvo (Liam Neeson), às voltas com o enteado apaixonado (o garoto que fala como adulto Thomas Sangster), e, claro, o personagem de Rodrigo Santoro, como um designer que é objeto de desejo da sua colega de trabalho Laura Linney. Teve quem contasse até o seu número de cenas e falas (segundo a revista Época, doze cenas e dez falas), mas isto é um exagero de revista muito preocupada com o desempenho de um brasileiro no cinema estrangeiro, ou maldade de quem quer contabilizar o seu talento pelo número de aparições na tela. O fato é que o personagem de Santoro é o com menor densidade dramática na trama – na verdade, nada sabemos dele além de que trabalha no mesmo escritório que a personagem de Laura. Sua cena mais importante é quando, finalmente, sozinho no apartamento com Laura, são interrompidos constantemente pelo telefone dela, sempre às voltas com o irmão doente e internado. Depois disto, e daquele clima constrangedor de reencontro no escritório, seus personagens são praticamente esquecidos e fica em aberto que fim tiveram.

O filme conta, ainda, com pontinhas de Denise Richards, Shannon Elizabeth, Claudia Schiffer, tudo em 129 minutos da projeção. São mais de duas horas, com diversas histórias, umas funcionando mais do que as outras, obviamente. Consegue-se um bom saldo no fim: afinal, sair do cinema com um sorriso pela tarde agradável proporcionada pelo filme, sempre é um bom saldo, não é?