23 janeiro 2004

Assitindo ontem ao jornal da Globo, fiquei sabendo que o número de brasileiros com acesso à Internet [contando tanto acesso em casa quanto no local de trabalho] é de cerca de 12% da população. Em diversas capitais, têm sido criadas algumas ações de inserção digital, com espaços de acesso à Internet a preços populares. Fora toda a série de considerações que me passou pela cabeça no momento em que mais este disparate social assumiu a forma de números - que era uma minoria constrangedora, eu já sabia; no entanto, o conhecimento de uma porcentagem levantada por estudo é mais veemente - achei que seria apropriado postar aqui um texto que eu tinha publicado anteriormente [aliás foi o meu primeiro texto quando estreei naquela casa como colunista] no Digestivo Cultural, em junho do ano passado.


A pobreza cultural nossa de cada dia


Vivemos em um terrível mundo de disparidades, em que as extremidades realmente saltam aos olhos pelas diferenças de universos em que estão inseridas e isto não é mais novidade para ninguém. Ainda assim, por vezes, eu permito me chocar quando me dou ao trabalho de pensar, onde, meu Deus, vamos acabar todos. Passando por cima de todas as admoestações políticas, que não servem para este espaço (e nem tenho cacife para tentar engendrar algum tipo de consideração do gênero), o mundo há tempos está insurgido por lutas que pedem igualdade de condições para todos e condições menos horripilantes de miséria a que metade do mundo está condenada. A OIT – Organização Internacional do Trabalho, braço da Organização das Nações Unidas, acaba de revelar a informação de que cerca de três bilhões de pessoas – logo, a metade da população do planeta – vive na pobreza com uma renda de menos de US$ 2 por dia. São quase todas pessoas que moram em países em desenvolvimento. Não, não me estenderei ainda mais por dados que possam ressaltar todo o caráter político por trás de informações como esta, pelos motivos que enunciei acima. O que me vale de mote é quando dados como estes se apresentam a mim de maneira tão crua e assustadora, mas que, na realidade, servem também como indicadores da miséria nossa de cada dia a que estamos mergulhados e que cada vez mais se reflete a partir destas constatações.

Sem qualquer sentimento de culpa pelo profundo mal-estar do mundo, é profundamente irônico ler estas informações quando navego pelos sites a procura de novidades no universo cultural. Não porque me deixe relevar por grandiosos sentimentos de piedade para com o próximo – ainda que isto exista em mim. Mas é que junto com estes fatos, vai se somando a tal miséria nossa de cada dia que aparece em porcentagens e em fatos menos assustadores do que a imagem de uma criança desnutrida a rastejar pelo chão árido de algum país distante ou em alguma viela muito próxima. A tal miséria nossa de cada dia se revela em cada passada de olhos pelos canais de televisão. Na medida em que cada vez mais nos afundamos nas mazelas apresentadas por toda esta gama de programas que infestam as tardes malditas da tv aberta, mais se torna palpável aos mais atentos, a sordidez das pobres vidinhas que se dobram aos apelos destes programetes. Para alguns ainda é possível manter um distanciamento através, por exemplo, de algum canal de tv por assinatura – o que é o meu caso. Quando pessoas como eu têm a opção de se afastar da cada vez mais detestável grade de programas que os canais abertos oferecem, parece que nem tudo está perdido. Mas, longe de querer me igualar aos mais extremados e contundentes críticos, que acusam a televisão de todos os males do mundo, as coisas têm se encaixado com tal perfeição que parece que caminhamos com cada vez mas rapidez para um período de obscuridade cultural assustador.

Leio em algum lugar por aí que João Gordo – o apresentador metaleiro da emissora MTV – protagonizará um programa nos moldes do The Osbournes, também veiculado pela mesma emissora, em que a intimidade da família de um figurão do rock, Ozzy Osbourne, era vigiada na sua modorra cotidiana, com as poucas e insignificantes tensões que a filmagem da vida de uma família pode proporcionar, por mais famosa que sejam os elementos desta. João Gordo vai ter a sua vida e da sua mulher vigiada, enquanto faz as suas coisas de sempre, dentro do seu apartamento, para deleite da quantidade de espectadores que se dispuserem a assisti-lo. E eu me pergunto: pra quê isso? Uma vez descobertos, os tais reality shows se multiplicam nos mais diversos formatos e nas mais diferentes emissoras. Todos querem provar o gostinho da audiência elevada pela observação cotidiana do "nada" de alguém.

A noção assustadora de que, ao final de uma semana de trabalho (quando o tem), um membro de uma classe menos favorecida financeiramente tenha de ficar restrito no seu fim de semana aos maçantes programas de auditório em que se intercalam as maiores atrações populares em sua forma repetitiva e idiotizante de música, é quase como imaginar alguém condenado a viver em um buraco escuro e úmido, alimentando-se das pequenas porções de ração que alguém lhe joga à boca. Estas sensações musicais a que estes miseráveis culturais ficam restritos, tão gentilmente oferecidas para seu deleite, são a ração jogada à boca do condenado, grato por que, afinal, ao menos pode alimentar-se. Sem opões, é verdade. Imaginar que a ascensão destes grupos e cantores fabricados como produto midiático se deu pelo reconhecimento que as camadas populares lhes deram pelo ótimo divertimento oferecido, é enganar-se na ignorância. Ainda que estes fazedores de música sejam algumas vezes tão vítimas quanto os consumidores – uma vez que também estão cercados por sua própria e irrecuperável ignorância que os força a crer na qualidade e na necessidade de seu trabalho – é desesperador pensar que se possa reconhecer a validade de seu trabalho como forma de entretenimento para o mais miserável dos homens.

O que me obriga a destacar a tamanha diferença de nuances que os mundos polarizados dos mais e menos favorecidos apresentam, é quando penso o quão estranho é a possibilidade de pertencer ao primeiro grupo e ter todos os privilégios e sensações e opções e conhecimentos diversos que tal condição me oferece, e, ainda assim, ser quase obrigado a permanecer na conivência de quem tem que aceitar que a vida é assim mesmo (sempre existirão os esfarrapados, e a eles ofereçamos as sobras – inclusive e principalmente as culturais). Mesmo que o debate seja maior e se estenda e deva se estender principalmente ao processo inicial (sobre a forma de colocar alguma comida na boca de tantos famintos), a miséria pequena de cada dia também assusta e mostra suas garras com mais intensidade que os incautos podem perceber. E são cada vez maiores as chances de, realmente, não percebermos, mergulhados que estamos em um território de mesmice, num conformismo doido, aceitando tudo como a realidade incontornável que deve ser. Não se importar que sejam cada vez maiores os grupos musicais de encomenda a paparem prêmios em festivais de grandes emissoras, que cada vez mais tenhamos que estar passíveis frente ao emburrecimento de todo uma população na frente das idiotizantes telenovelas com suas tramas banais e absurdas, que achemos engraçado sujeitos se espancando em quadros televisivos com suas peculiares “pegadinhas”, que os livros sejam bens de consumo inalcançáveis ao mais humilde e desejoso trabalhador braçal, e que cinema e teatro sejam praticamente uma piada para estes mesmos... Tudo isto forma uma armadilha perfeita para o nosso embrutecimento e aceitação do quadro como, realmente, imutável.

Parece que tais observações em nada se assemelham às do primeiro parágrafo deste texto, mas é esta miséria cotidiana que se soma à miséria dos famintos e contribui para que a civilização mergulhe cada vez mais em um manancial de barbaridades e futilidades que já não têm mais volta. Por que, se tem volta, eu não tenho a mínima idéia de qual é.