27 janeiro 2004

Marçal Aquino diz que procura na prosa seca de Graciliano Ramos afiar a sua faca. Pela leitura de Famílias Terrivelmente Felizes mostra que tem mantido ela bastante afiada. Apesar de ser, na realidade, uma coletânea de contos publicados em seus livros anteriores [são oito contos retirados de As fomes de setembro; outros oito selecionados de Miss Danúbio, incluindo o texto que deu título a esse livro; e o conto Boi, que integrou a coletânea Decálogo (2000)], o livro contém ainda cinco contos inéditos. Famílias... é uma mostra bastante rica do estilo de prosa de Aquino. Contundentemente visual, seus contos não se prestam a digressões internas, aflições d'alma e outros subterfúgios indiretos. São tramas secas, pontiagudas e visceralmente cruas. Você consegue construir com facilidade imensa as caracterizações que o texto, mesmo não sendo tão rico em detalhes, lhe sugere. Os personagens saltam à realidade com diálogos incrivelmente verossímeis, sem enrolações farsescas e meio-tons. São pessoas comuns, em situações comuns. A agilidade de ação, a riqueza visual que o texto favorece, são extremamente propícios para a adaptação cinematográfica. Os finais, por vezes surpreendentes - o moralismo revelado em Sábado - e algum outro conto com final mais ou menos previsível. O saldo, no entanto, é extremamente positivo.

O autor, também roteirista [Os Matadores, Ação entre Amigos, O Invasor...] lida em seus textos com a linearidade propícia para o cinema. O que pode acabar, também, gerando críticas como a do jornalista José Castello, que o classifica como parte de um pessoal que está "escrevendo com a cabeça na televisão ou no cinema, escrevendo como se estivesse fazendo roteiro de cinema, que é uma literatura de má qualidade. É uma espécie de novo realismo urbano, mas é um realismo muito superficial, em que as coisas aparecem de forma muito chapadas, muito só aparência." [aqui, a entrevista integral]