26 fevereiro 2004

É bem verdade que quanto mais somos expostos a um manancial de barbáries, injustiças, violências, devassidões e coisas semelhantes, menos passamos a nos escandalizar, surpreender e indignar.

É bem verdade, também, que a quantidade absurda de informações [ainda que não queiramos, não nos sejam úteis e blá, blá, blá] acaba produzindo uma onda gigantesca onde todos parecem saber tudo o tempo todo, discutem tudo, já ouviram e viram tudo e toda e qualquer novidade - tanto a mais prosaica febre pop quanto o mais pretensamente ousado produto cultural - não parece mais do que receita gasta e requentada.

Estas constatações fazem com que fique claro o fato de que existe toda uma gama de produtores, empresários, criadores e entusiastas de toda ordem dispostos a nos trazer o que julguem novos, ou nos enveredar no embuste mais verossímil que lhes for possível para apresentar o seu produto como novo.

Mas não caímos nesta há algum tempo.

Um exemplo relevante disto é o produto Maria Rita, já falado aqui em excesso.

No entanto, ou eu não me surpreendo mais, ou penso que tudo é um grande apelo emocional para a conquista dos nossos sentidos. A preparação mais adequada do terreno, para que nos plantem o que julguem ser "o novo", "o supreendente", "o polêmico". Polêmico. É, hoje tem muito disto. Polêmica é uma palavrinha da qual usam e abusam. Ah, que polêmico foi o beijo de Britney Spears em Madonna; que polêmico o peitinho de Janet Jackson exposto para o horror da humanidade. E por aí vamos.

A polêmica da vez agora, bem devem ter percebido, é o novo filme de Mel Gibson. A Paixão de Cristo. Sim, você já leu muitas notícias acerca de todo o "escândalo" envolvendo tal produção. Hmmm, o Papa viu e gostou. Não, o Papa não gostou, ele odiou. Não, o Papa nem viu. Informações desencontradas, notícias diversas, e o filme na roda, comentado à grande.

E tem também a história da velha que morreu de enfarte ao assistir o filme.

Pois é. E a sua curiosidade aumentando, não? Deve mesmo ser um filme polêmico, controverso, violento... O jornal The Los Angeles Times publicou em sua primeira página, na terça-feira, uma resenha avisando que o filme certamente irá dividir as opiniões. Olha só: vai ter gente que vai gostar e gente que não vai gostar.

Ou as coisas estão superestimadas ao extremo, ou eu me expus demais e me tornei um insensível ou um maldito cético.