26 fevereiro 2004

Big Fish tem definitivamente a seu favor o fato de ser o filme que sucede o grande erro que foi Planeta dos Macacos (Planet of the apes, 2001) na carreira fílmica de Tim Burton. Parece pouco? Suceder, e com sucesso, tão terrível empreitada ao menos traz segurança para os que curtem a obra do diretor, de que Burton tomou seu prumo novamente.

Seu filme novo, no entanto, não é uma obra-prima. Talvez por não ser uma idéia original sua (o roteiro é baseado num romance de Daniel Wallace), consegue não mais do que ser acertadinho. Convenhamos que, num lamaçal de produções totalmente dispensáveis que assolam de maneira geral a indústria, isto é um grande ponto a favor. Sim, por que ainda estão lá aquela mágica de Burton que consegue dar cores extremas para os lugares mágicos, sucedendo ou antecedendo seus habituais momentos sombrios. Seu surrealismo, no entanto, não é exacerbado: na medida da fantasia, dá corda o bastante para as tramas aventurescas de Edward Bloom (Albert Finney, quando idoso e Ewan McGregor na juventude, como o protagonista das histórias propriamente ditas).

O bom, e que é esclarecido desde o começo, é que é um filme sem grandes pretensões. O traço extremamente autoral de Tim Burton não aparece aqui com sua maior identidade. Temos anões, gêmeas siamesas, gigantes e lobisomens, entre outras tramas da ordem lírica-fantasiosa, mas é uma história que, apesar de bem contada [e, por isto, certinha], poderia assim ter sido realizada pela mão de qualquer diretor eficiente. Logo, sem ter o tchã-na-nã que garanta a originalidade extrema que sempre norteou as obras de Burton, não prima por caminhos além dos mais facilmente imaginados, resultando, sim, em uma obra bacana, bonitinha, mas não estupenda.

Como trama, são as histórias repletas de invenção(?) de Edward Bloom que afastam seu filho Will (Billy Crudup) de uma identificação e uma simpatia maior pelo pai. Como jornalista, cansou das fábulas que, a todo momento, seu pai conta. No entanto, quando este se encontra à beira da morte, um encontro se mostra inevitável, bem como a necessidade de tirar a prova estas histórias. O que acontece apartir daí é que é previsível. Porque as tramas, protagonizadas pelo ótimo Ewan McGregor como o então jovem, sedutor, simpático e corajoso Edward são muito gostosas de assistir. Engraçadas, fascinantes, com aquele não-realismo que proporciona o famoso sorriso de canto de boca e até o encantamento dos filmes mágicos. Tem o Danny DeVito como canja, fazendo o papel de um dono de circo; o sempre maravilhoso Steve Buscemi como um poeta meio atordoado; a cidade perfeita dos que só andam de pés descalços, e as metáforas passeando por ali.

A metáfora do título, aplicando a Edward Bloom o próprio caráter de peixe grande demais para a pequenez de sua cidade. Está sempre à procura de mais e mais. O peixe gigante que só se deixava fascinar por ouro e não mais nenhuma isca é o próprio Bloom, nas suas aventuras em guerras, pântanos e até vales floridos. Por que pelo amor, também, ele faz mais e mais, até conquistar sua grande paixão, Sandra (Jessica Lange, quando mais velha e Alison Lohman quando jovem).

E a metáfora da eterna incomunicabilidade entre pais e filhos. O pai que não fala a linguagem do filho ou o filho que não faz questão de entender o pai, da meneira que ele for? O final tenta dar esta resposta. Pena que tudo caminhe para onde sabemos que vai dar. O lance é que, como disse, são pontos que não estragam o filme: por que ele é certinho, redondinho, funcionando com precisão; somente não ousa, não vai além das possibilidades. Ainda assim, no entanto, cinema acima da média.