25 fevereiro 2004

Madrugada insone de segunda-feira, eis os meus sentidos surpreendidos pela pérola que o SBT ousou colocar como atração do seu Fim de Noite: De Cara Limpa. A película, uma produção nacional da pior qualidade, conseguiu ser constrangedora mesmo para alguém que, como eu, a assistia na madrugada, sozinho. E a pergunta pode não querer calar: mas por que continuar a assistir tal porcaria? Pelo absurdo da coisa. Tendo como atores-sensação Marcos Mion pré-qualquer emissora, ostentando raros e constrangidos poucos pêlos na cara e Bárbara Paz não sei em que fase da vida, no filme em questão, nada fazia sentido. Todas as cenas ocorriam em eventos praticamente díspares um do outro e a falta de conexão era gigantesca. Eis a sinopse encontrada em um site: "Nove jovens de classe média baixa vivem na cidade de São Paulo, buscando superar as adversidades da vida moderna e garantir uma carreira profissional que lhes garanta estabilidade e condições de sobrevivência."

Os nove jovens em questão se revezavam nas cenas das mais baixas qualidades de atuação, beirando o grotesco, muito além do risível. Escatologia era pouco: um dos jovens se comprazia dos prazeres de uma "boa cagada" e a câmera [o filme, filmado em S-VHS] não hesitava em registrar o resultante "cagalhão" que o jovem depositava no vaso depois de gritos e suores.

Houve uma óbvia tentativa de alinhavar tal produção a qualquer filminho norte-americano que retrate a vida, geralmente no campus, de jovens sem muito rumo. No entanto, descambando para os apelos mais distorcidos e tôscos que eu já vi, o que me fazia continuar a assistir à tal bizarrice, era, sinceramente, a vontade de descobrir aonde aquilo iria parar. E foi longe.

Um dos personagens era um estagiário de um jornal, a procura de informações para a produção de uma matéria sobre sexo bizarro. Não se conformou com sua busca na internet e em revistas pornográficas, e logo sua pesquisa foi à campo, nos proporcionando sua imersão na mais cândida putaria. Entre suas aventuras, os bastidores de um filme pornográfico de gang-bang, onde reais performers da indústria atuavam em cenas reais de penetração. Não bastando, o pretenso jornalista ainda protagonizou provavelmente a primeira cena de coprofagia da televisão aberta brasileira: com o rabo virado para a câmera, deu uma derradeira cagada na boca de uma boneca inflável.

O resto do filme se contentava em mostrar os discursos pretensamente políticos de um Marcos Mion constrangedor no papel de um revoltado com o "sistema" e o grupo em outras peripécias da mesma ordem de não-importância. Mais de brinde, uma velha metida a modernete, que se limita a gritar palavrões e manter uma postura "jovial" para "fascinar" com sua "juventude revoltada" [aspas, muitas aspas]. Como chave de ouro, o investigador do bestialismo pornô ainda é currado em uma sauna gay por se meter onde não devia.

Em tempo, a produção é de 2000, e o diretor, um gaúcho, Sérgio Lerrer. O filme tem o pioneirismo de ser o primeiro filme brasileiro de dramaturgia feito em câmeras digitais, com o material sendo transposto posteriormente para película.