17 fevereiro 2004

ME

Acordei com o solavanco que sempre faz quando dobra a esquina da Azenha e me desescorei rápido do cara que dormia do meu lado – sempre acabo dormindo por sobre os ombros das outras pessoas nestas viagens de ônibus durante as madrugadas. Os olhos meio embaçados ainda, achei estranho quando reconheci o cara que catava as moedas nos bolsos da calça para pagar a tarifa para o cobrador: era eu, só que bem mais sujo, roto, os cabelos mais desgrenhados do que de costume, mas não tive dúvida. Era eu mesmo. Segui-o [me?] com o olhar para ver onde eu ia sentar, mas já não tinha mais lugar.

Quando passou [ei?] pelo meu banco, olhou [ei?] no fundo dos meus olhos e deu [ei?] um risinho me reconhecendo, demonstrando intimidade.