15 fevereiro 2004

A possibilidade de, hoje, conseguir a realização de grandes feitos cinematográficos com o mínimo possível de ostensivos recursos – e sejam recursos ostensivos de direção, interpretação, ou grandiosas e desnecessárias explosões ou qualquer outro artifício que, usado em demasia, têm servido para disfarçar a má qualidade das grandes produções a que estamos sendo submetidos – tem sido, quase invariavelmente, um divisor de águas em se considerando as últimas realizações do cinema que têm obtido desempenhos elogiáveis, quando não aclamados à grande e incensados como obras-primas.

Sem entrar no mérito da análise técnica do filme, considero que, para mim, só será possível me referir a Lost in Translation de maneira emocional. A recepção emocional que a obra me proporcionou foi mais forte do que qualquer outra, e catapultou quase que por completo a minha possibilidade de fazer uma análise fria e destituída de paixão pelo filme. Um filme que, certamente, não permite meios-termos nas suas condições de apreciação. O tipo de filme que você ama ou odeia. E que, se não te conquista de primeira, dificilmente o fará durante todo o resto de seu desenvolvimento. Porque, ao contrário da praxe das produções cinematográficas, e, ainda que sendo um filme completamente linear e não inovador nem no gênero nem na sua formalidade, não possui nenhuma reviravolta que, como uma carta na manga, seja o mote para conquistar sua simpatia e rotulá-la, então, como a obra-prima da grande revelação.

O que conquista em Lost in Translation, talvez mais do que lhe seria possível se fosse uma destas produções fragmentadas tão em voga ultimamente, ou em que a ordem dos acontecimentos – por vezes, por demais banais, e daí este artifício – devem ser alteradas para surpreendermos-nos com a “sacada” do grande diretor, é que tudo é tão simples e tão sutil, que, ainda que através do distanciamento que o meu não-profissionalismo permite, parece que nada, realmente, poderia dar errado. E também é difícil definir a que se deve mais este mérito. Se a uma dupla – Bill Murray e Scarlett Johansson – o tempo todo tão bem afinada e tão natural e tão sem exageros interpretativos (e que escolha, que achado esta gracinha de Scarlett Johansson! Vontade de protegê-la o tempo todo); se a uma direção impecável, limpa, sem modismos e tão honesta ou se a uma trama linear, clara e quase lírica, de tão bela.

A identificação se torna fácil, e tudo vai que é um doce, quando não há a necessidade de recursos baratos e pouco verossímeis para situações que não seriam diferentes – e se fossem, não muito distante daquelas – se acontecessem conosco.

Numa história em que a solidão e o desencontro, em contradição ao deslumbrantismo de Tóquio, suas luzes, seus excessos, sua quantidade exacerbada de pessoas e distrações, se mostram quase como corpo estranho e são tão reforçados por estes últimos elementos, não haveria melhor lugar para que tal história fosse tão bem contada. Talvez em alguma outra grande metrópole, assoberbada de pessoas, de néons, de luminosos... Nova Iorque, no entanto, não seria tão grandiosa nas suas pessoas em demasia, na sua grandiosidade visual, no exotismo de uma cultura oriental por demais impregnada do lixo ocidental.

A contraposição que os personagens de Murray e Johansson fazem em relação à cidade, na sua maneira pequena, na sua não-adaptação, nos seus estranhamentos, e todos estes sentimentos sendo as amarras que acabam por envolvê-los, é por demais táctil, verdadeiro. Ela, ainda que casada, tem o marido sempre distante, fotógrafo envolvido com a demasia de trabalho e nunca disponível. E, quando juntos, quase como dois estranhos. Ele, distante física e sentimentalmente de sua mulher e seus filhos. Dois estrangeiros e conterrâneos, unidos por uma solidão que se faz presente mesmo em meio a tantos, em um relacionamento que transcorre de maneira tão sutil e destituída do tradicional e por vezes forçosos romance típico de cinema, que, mais que envolvimento amoroso, o que se tem mais claro naquela relação é a cumplicidade, a necessidade do estar com. Acho que a cena que mais claramente expressa esta afirmativa é quando se deitam lado a lado e, ao adormecer, Bob, o personagem de Bill Murray pousa sua mão suavemente sobre o pé de Charlotte, a personagem de Scarlett Johansson. Quer dizer, não há pressa ou o amor afogueado das grandes paixões de elevador; não há o desespero enlouquecido do rasgar de roupas nem a entrega vazia do sexo de ocasião. Há a mágica e a simplicidade dele cantando More Than This em um caraokê para ela e isto se transformar em um momento especial.

Este filme, segunda grande realização de Sofia Coppola depois de Virgens Suicidas, consegue firmar tal diretora senão como A Melhor Diretora, prêmio ao qual concorre ao Oscar, ao menos como uma profissional capaz de contar boas histórias, sem a utilização de recursos que não sejam singelos e límpidos. Uma trama tão honesta e bela capaz de despertar aquela sensação do nó na garganta.