09 fevereiro 2004

REVELAÇÕES

Desde já, é preciso ser relevante para com o título tipicamente comercial que Human Stain conseguiu na sua tradução aqui no Brasil: Revelações. Hmmm? Intrigante, não? Que segredo ou que mistério incrível terá o personagem de Anthony Hopkins que garanta a sua ida até o cinema para desvendá-lo? A trama do diretor Robert Benton baseada no livro de Philip Roth, é bastante interessante. Pena que em momento algum do filme ela deslanche da maneira como deveria. Penso que foi uma boa idéia não ter lido o livro primeiro para não me decepcionar ainda mais.

A história é a seguinte: Anthony Hopkins é Coleman Silk, um respeitado professor universitário judeu de literatura clássica, acusado de racismo durante uma aula, quando refere-se a dois alunos que nunca viu (pois eles nunca apareceram em sua classe) como "spooks". Na língua inglesa, no entanto, a palavra tem dois sentidos: o primeiro, empregado pelo professor, é sinônimo de "espectros, fantasmas", o outro é um termo pejorativo e racista para negro. Para o azar do professor os dois alunos são negros. Furioso com a acusação de racismo, Coleman pede demissão da universidade, chega em casa esbravejando, querendo processá-los e, no meio da notícia para sua mulher, esta tem um ataque cardíaco, morrendo em seguida.

Tendo perdido o emprego e a esposa, Coleman acaba fazendo amizade com escritor recluso Nathan Zuckerman (o ator Gary Sinise, no papel do alter-ego de Roth, e que já apareceu várias vezes ao longo de sua obra), pedindo que este escreva sobre sua história.

Às voltas com a busca da estabilidade para sua vida, Coleman se envolve com Faunia Farley (Nicole Kidman), servente da universidade onde Coleman trabalhava e ordenhadora em uma fazenda, onde mora. O romance, serve como porta para as questões que acabam sendo levantadas ao longo do filme, tanto quanto à diferença de idade dos dois, como a disparidade de suas posições sociais. O tempo todo, no entanto, o que se tem são considerações disfarçadas e rasas sobre a questão do politicamente correto e da hipocrisia do puritanismo religioso, já que alguns momentos há um paralelo entre a história do professor e o caso Bill Clinton-Monica Lewinski. No filme, este paralelo se dá de uma maneira extremamente superficial, somente sendo representado por esparsos diálogos de anônimos pelo pátio da universidade, e em uma conversa entre Coleman e Nathan. Este paralelo mostra que a dita "marca humana" pode ser tanto o esperma que o presidente deixou no vestido da estagiária quanto a forma intolerante com que o caso de Coleman foi tratado, no meio universitário, por professores que ele apoiou e contratou ao longo de sua então carreira como reitor.

E você pode perguntar: o que foi revelado até agora? É a partir do seu envolvimento com a servente, rechaçado por aqueles que fazem parte do círculo superior de Coleman, que o mesmo começa a repensar os conceitos que tinha como certos até então. E por mais atribulada que sua relação seja, já que a personagem de Nicole é reclusa e impenetrável em suas questões emocionais, e tendo inclusive que enfrentar o ex-marido psicótico dela, veterano do Vietnã, representado pelo ator Ed Harris, esta relação se mostra o mote perfeito para Coleman exorcizar questões nunca resolvidas de seu passado, as ditas revelações que se mostram intimamente ligadas ao seu dilema atual.

Passagens mostrando o passado de Coleman vão descascando as camadas que se encobrem sobre o seu mistério. No entanto, por mais que a história comece a ser esclarecida, a sensação é de que sempre alguma "revelação" ainda mais aterradora será desvendada a qualquer momento. Será o pré-condicionamento dado pelo título? Ou será que o fato de colocar para contracenar dois atores ganhadores do Oscar - portanto, de quem sempre esperamos interpretações fenomenais - é o estímulo que nos faz ficar apreensivos, a espera de algo que realmente surpreenda? Por esta expectativa extrema causada, é que Revelações se mostra um filme extremamente morno. Nem Hopkins nem Nicole Kidman parecem estar muito à vontade em seus papéis. E a forma narrativa encontrada pelo diretor não encontra uma possibilidade nem de muito reconhecimento, nem de empatia pelos seus protagonistas. É somente uma história, ainda que muito bem contada, mas pela qual não se consegue ligação emocional em momento algum. A dificuldade de realização de um filme se mostra, então, além da objetidade do envolvimento de ótimos atores e diretor. E se é o campo subjetivo que agrega elementos além dos técnicos que vão garantir um grande filme, este, infelizmente, não se mostra compensado.