05 março 2004

Em 1960, o autor de O Complexo de Portnoy levantou uma questão que, na época, não parecia tão pertinente, mas hoje é fundamental. Quais as chances de a ficção poder continuar competindo com as histórias da vida real? Philip Roth continua: "Está aqui: o escritor norte-americano da metade do século 20 dá um duro danado para tentar entender, depois descrever e, em seguida, tornar crível boa parte da realidade americana".

Segundo Roth "A realidade bestifica, enoja, enfurece e acaba sendo uma espécie de constrangimento à parca imaginação do autor; nossos talentos são superados pela atualidade e a cultura produz quase todo o dia dados de fazer inveja a qualquer romancista".

Comecei a investigar a obra de Philip Roth depois de assistir Revelações, que é baseado no seu livro A Marca Humana. O filme, aliás, conforme postado há algum tempo aqui, não é uma grande realização - tenho, no entanto, que ler o livro para ser ainda mais contumaz nas minhas críticas. Mas a verdade é que a obra de Roth é uma beleza. Comecei com o seu primeiro, Goodbye, Columbus [e ainda o estou lendo, na realidade, falta um conto; mas, não me agüentando de curiosidade, comecei a ler, simultaneamente o tão falado Complexo de Portnoy Sobre o primeiro, descobri, também, que já teve o conto que dá título ao livro, transformado em filme, de 1969.]. O autor gira grandemente em cima da condição do judaísmo, tanto nos contos do seu primeiro livro, quanto no seu romance. Complexo de Portnoy é corrosivo, com seu personagem, Alexander, contestando a todo o momento a sua condição de judeu, bem como a herança materna profundamente rígida e tradicional.

Seu personagem, quase enlouquecido, narra ensandecidamente a trajetória de sua vida, que passou por sessões diárias e praticamente intermináveis e seqüenciais de masturbação, na sua infância/adolescência [o que, na época, horrorizou os críticos - o livro é de 1967, se não me engano], até, já com a condição de homem estabelecido, a contínua necessidade de controle que seus pais tentam exercer sobre ele. Como ainda não terminei [falta mais ou menos a metade do livro], provavelmente vou presenciar todas as reviravoltas que tornaram o livro tão adorado, respeitado e pertencente ao rol das grandes obras mundiais.