15 março 2004

Livro de contos é como cavalo arredio. A coisa foge do controle se tu não toma as rédeas, com decisão. Parece que sempre há espaço para a inclusão de algum novo conto, e a coisa vai inchando e quando vê, vira uma coletânea disforme e sem dizer ao que vem.

Quando comecei a escrever, me dei conta de que precisava, ao menos, de uma temática controladora, para não começar a vaguear no universo infinito e descontrolado da temática múltipla. Para mim, foi o que melhor acabou delineando meus objetivos, estabelecendo meus parâmetros e gerando o produto que, afinal, encontrou seu fim.

A Sordidez das Pequenas Coisas é o nome da criança. Teve contos publicados por diversas casas deste espaço internético e, em breve, encontrará a sua própria casa editorial para surgir no tão adorado formato táctil.

Por enquanto, presentinho, um dos contículos presentes.

QUASE LITERATURA

os grotos

Os homens sentavam-se durante horas intermináveis nos degraus da varanda, enquanto as mulheres, dentro das casas de madeira tosca, cozinhavam alguma espécie de carne extremamente gordurosa, cuja fumaça subia deixando espessa camada de fuligem na parede já apodrecida. As crianças corriam em volta, fazendo uma algazarra dos diabos, e os olhares pesados e empapuçados e suarentos por sobre as pálpebras de suas mães, não esboçavam a menor censura.

Quando a cerveja dos homens acabava, eles apenas ficavam a contemplar algum lugar distante, longe o bastante para não lhes animar a caminhar até lá, e não gritavam insanamente para dentro de casa para as mulheres trazerem mais um conjunto de seis latas de cerveja gelada ou uma garrafa long neck ou qualquer outro vasilhame que contivesse cerveja. Eles ficavam, apenas, mudos e contemplativos, porque sabiam que as mulheres estavam cozinhando somente algum tipo de carne gordurosa que iria compor o jantar, junto com os restos de arroz do domingo que havia passado.

Então, os homens também não se davam ao trabalho de entrar e buscar eles próprios, talvez porque a algazarra das crianças os deixasse cansados em demasia, talvez porque apenas quisessem ficar ali, sentados, ou na realidade, nem fizessem questão de beber tanta cerveja assim, e apenas o fizessem por alguma espécie de convenção existente deste sempre e que deveria simplesmente perdurar para todo o sempre, amém.

...
insone

Camila não sabia ao certo porque se encontrava na estação rodoviária àquela hora da madrugada, esperando o ônibus para um lugar que não tinha muita certeza se estava realmente querendo ir. Foda-se, pensou Camila, antes de pedir uma água mineral para o ambulante que tartamudeava ali por perto, encostado na parede desde que ela se lembrava de estar ali. Lembrou-se de um colega da faculdade, que achava o ato de comprar água mineral uma das maiores demonstrações de poderio burguês. Na época ela achava mais ou menos isto, também, quando via as patrícias entrar aula adentro com suas garrafinhas de charrua sugadas em canudinhos plásticos. Se é para comprar uma bebida, compra refri, porra! Água tem no bebedouro, falava Fabrício para Camila. Falava tão alto, no entanto, que invariavelmente as patrícias se viravam fazendo um sinal obsceno seguido sempre da mesma frase: Vai-te à merda, riponga! Fabrício era o riponga. Não queria lembrar de Fabrício àquela hora, Fabrício não tinha nada que ver com o motivo pelo qual estava ali. Fabrício era um passado tão distante quanto as aulas de Comunicação Comparada e aquelas garrafinhas plásticas de charrua. O ambulante lhe alcançou uma garrafa de charrua e disse que não tinha mais canudo. Melhor, pensou Camila, um detalhe apenas para me diferenciar das patrícias. Camila não tinha certeza de que horas eram quando o ônibus chegou no seu box, mas os pés doendo lhe trouxeram o arrependimento de ter calçado as alpargatas velhas do pai.

...


quase memória

Tu não sabias porque as outras crianças não te deixavam brincar com elas no pátio dos apartamentos. Tu eras meio estranha e um pouco gorda em comparação às outras gurias com suas tetinhas ouriçadas e seus calçõezinhos de lycra coladinho no rego, mas estes tu não podias usar - porque tu eras um pouco gorda e sabias que não ficaria algo muito bonito de se ver. No mais, tu tinhas quase certeza de que não gostaria de sentir aquele tecido gelado enfiadinho por entre as tuas coxinhas roliças, e achava melhor, então, usar aquela bermuda de algodão folgado que te deixava maior do que tu eras.

Também, isto não tinha lá muita importância no resumo geral das coisas, porque tu acabas mesmo passando o dia olhando as crianças da janela do teu apartamento ao rés-do-chão, já que elas não te chamavam para participar do esconde-esconde, então, quase ninguém te via com aquela bermuda larga de algodão. Se te visse, tu já achavas que não tinha muito problema, porque há tempos já desistira da idéia de encontrar em si própria um pouco de graça, ou de parecer interessante de algum tipo de maneira estética. Eu acho que tu nem tinhas muita noção do conceito de estética. É, esquece, tu eras extremamente novinha naquele tempo e, provavelmente, crianças novinhas e normais na concepção social da palavra, não se ligam muito em preciosismos vocabulares. Se bem que eu esqueci que, naquela época, tu eras meio estranha. Eu, por exemplo, não entendia porque tu gostavas de judiar com o gato do teu irmão menor. Não sei se tu tinhas raiva do bichano, de verdade, ou se usava o pobre para se vingar do fato das atenções terem se voltado todas para teu mano e, então, tu te achar completamente abandonada.

Ninguém ligava que tu ficasse horas na frente da televisão assistindo aqueles filmes onde os homens sempre queriam estar por cima das mulheres, se esfregando que nem o guri daquele apartamento do lado do teu ficava se esfregando na tua vizinha Lurdes. Tu não sabias o que havia de interessante em ficar se esfregando. Tu não sabias muita coisa naquela época, para falar a verdade. Agora não sei se tu aprendeste um pouquinho mais.

Também, eu não tenho nada que ver com isto.

...

boteco

Os gurizinhos sujos brincam um pouco mais lá adiante, enquanto a corja aqui se refestela na porta do barraco esperando a cerveja quente que aquela botequeira safada não traz. Não temos muito o que fazer, então não fazemos. Coisas de que tipo? quando não se tem certeza do que se quer. Os guris empinam a pipa à maneira deles, mais ou menos acertada, não somos ninguém para tentar ensinar que puxando daquele jeito vai acabar enganchando na rede de alta tensão. Morrendo um é só mais um. Morrendo dois, a gente sabe o que é que é. E é o que for. Se for a cerveja preta eu não quero porque acho profunda e irritantemente doce, e ademais, cerveja preta é pra mulher que quer ter leite. Eu não quero ter leite. Não me agrada leite saindo das tetas. Nunca entendi por que homem tem que ter teta. Uma vez no calor, saiu um caldinho, a tetinha estava meio ouriçada. Quando tou com tesão a teta fica assim, também. Não gosto que chupem a minha teta, porém. Se a mulher quer chupar alguma coisa, que chupe meu caralho e deixe minhas tetas em paz. Chamar aquela mulher de botequeira me lembra das boqueteiras. Pra que falar de sacanagem, quando tudo o que se espera é a merda da cerveja quente. Foda que é a única que se tem por aqui, e que aquela safada demora pra trazer.