12 março 2004

mais portnoy

É notório como grande parte dos clássicos da literatura norte-americana são calcados na figura do personagem único, homem, contestatório e em crise ou em revolta pela sua própria condição. Seja ela familiar, nacional, racial, entre outros pontos que costumam ser o mote principal destes livros. É possível se dar conta claramente de tal constatação com livros muito conhecidos como O Apanhador no Campo de Centeio e seu Holden Caufield desiludido com a condição humana de uma maneira geral, um crítico do sinismo e hipocrisia dos homens. Mais tarde, também encontrei tais características, ainda que em quantidade bem menor, e de uma maneira mais saudavelmente tratada no Arturo Bandini de John Fante do Pergunte ao Pó. Isto vai ocorrer muito mais claramente, no entanto, em Espere a Primavera, Bandini, em que o então adolescente Arturo irrompe em desgosto pela condição ítalo-americana pulsante que o diferencia de seus colegas na escola e o torna pretendente ainda menos desejado por meninas como a Rosa.

Voltamos a tal temática claramente em Complexo de Portnoy. Mais do que um personagem que escandalizou críticos à época de seu lançamento, a despeito de seu comportamento devasso e sexulamente perverso, o Alexander Portnoy de Philip Roth é um sujeito em ódio constante por sua condição de judeu. Mas, da mesma maneira que Fante, Roth é extremamente astuto em tratar tais ataques com uma leveza tal e com um humor gigantesco, que é impossível querer considerar qualquer tipo de rompante de Portnoy contra sua própria raça como ataques indiretos de Roth, ele próprio um judeu. No seu primeiro livro, Goodbye, Columbus, já é possível observar tal mergulho nas características judaicas de maneira igualmente veemente. Longe da mordacidade de Portnoy, no entanto, os personagens dos diversos e longos contos deste livro são figuras que acabam tendo seu destino traçado - em suas próprias ações ou como vítimas de reações de outrem - por sua condição judaica. Muitas vezes com um sentimento de inferioridade, uma contestação como a que Portnoy faz a todo momento, achando que os judeus se colocam como vítimas eternas por seu passado.

Costurando ataques que, se seriamente fossem tratados, resultariam em violentas críticas à séria de normas, preceitos, festas, princípios e características judaicas, Philip Roth consegue um personagem que se digladia com seu nariz "tipicamente judeu" e sua cabeleira "afro-judaica", entre outros pontos pessoais que o personagem usa contra si mesmo. Na sua fase adulta, já longe das longas sessões masturbatórias em que - com Roth destilando a sua própria mordaz perversidade - utilizava, por exemplo, o sutiã ou a calcinha de sua irmã para alcançar longas golfadas de esperma ao teto, o que move então o personagem é a busca da "pomba" de qualquer shikse que se ofereça para o sexo. Shikse é como chama as mulheres goy - uma não-judia. Sua predileção sexual se direciona principalmente para elas. Mesmo contestando a condição dos goyim de cristãos, na sua fé por um Jesus que ele considera patético ("toda a sua religião é em cima de um judeu") e mortifica nos quadros afetados nas casas que freqüenta, ele parece tentado a, segundo suas próprias palavras, "seduzir uma garota de cada um dos quarenta e oito Estados" americanos, tal é a profusão de parceiras em sua vida, e a facilidade com que se livra delas. Não conseguindo se fixar de maneira emocional com nenhuma, usa-as em diversidade de acordo com suas peculiaridades sexuais. E é com a descrição de algumas destas peculiaridades que podemos entender as críticas que o autor teve com então lançamento deste livro, em 1967. Enquanto em algumas encontra a que sabe chupar, nas outras, é o tamanho dos seios que lhe seduz; a bunda avantajada de outra pode ser também o detalhe que o fará se separar da devassa que topa de tudo.

É com uma temática que - à primeira vista (e lógico, sob a interpretação de um leitor por demais ingênuo e primário...) - poderia remeter unicamente para as aventuras sexuais de um judeu fascinado pelas shikses diversas, que elege quase como deusas do sexo, (talvez pela impureza delas de goy, já que, por mais contestador de sua própria condição judaica que seja, fica óbvia uma admiração por sua tradição. Da sua maneira, possuindo-as sexualmente, e com elas fazendo - e, quando não, lamentando - as mais perversas práticas sexuais, é como se apropriasse-se delas, de sua condição que inveja. Uma galhofa do autor, lógico.), que Roth conseguiu, de maneira magistral, praticamente um tratado definitivo das aflições que, volta e meia, reúnem em piadas de judeus tais características, se insurgem na vida de alguém nascido em uma família judaica. Seja através do desespero do personagem pelo extremo zelo de seus pais, principalmente de sua mãe, que volta e meia o coloca em situações constrangedoras, ou a pretensa superioridade que deles emanam, a criticar a todo momento qualquer não-judeu que se aproxime de suas relações. Tudo isto contado com um cinismo, uma perversão e uma inteligência aguda pelo narrador - externamente um fútil bem empregado a perder-se nas devassidões sexuais, mas que, sem grande esforço, revela o atordoado Portnoy em contínuas sessões de análise - é a um psicólogo ou analista que conta sua trajetória desde a infância - a tentar entender sua própria condição e os motivos pelos quais se sente quase um desgraçado a penetrar no mundo e peculiaridades goyische. Alexander Portnoy é corrosivo, cáustico, perverso. Não a toa a característica dos seus "distúrbios":

[Complexo de Portnoy. [De Alexander Portnoy (1933- )]. Distúrbio em que fortes impulsos éticos e altruístas se apresentam em perpétua luta com extremados anseios sexuais, frequentemente de natureza perversa. Segundo Spielvogel, "são abundantes os atos de exibicionismo, voyeurismo, fetichismo, auto-erotismo e coito oral; em consequência da 'moralidade' do paciente, entretanto, nem a fantasia nem o ato resultam em genuína satisfação sexual, mas antes em avassaladores sentimentos de culpa e temor de punição, especialmente sob a forma de castração'. (Spielvogel, O. "O pênis perplexo", Internationale Zeitschrift Für Psychoanalyse, vol. XXIV, p. 909.) Acredita Spielvogel que muitos dos sintomas podem remontar aos vínculos adquiridos na relação materno-filial.]