29 março 2004

Na Captura dos Friedmans

Desconcertante, ainda que seja um termo por demais vago e lugar-comum é a melhor expressão que acho para definir o documentário Na Captura dos Friedmans (Capturing the Friedmans). Ao optar por uma busca de isenção na apresentação da história desta estranha família, o diretor norte-americano Andrew Jarecki nos joga na cara uma produção perturbadora desde as primeiras cenas, que garantem tamanho desconforto que só nos resta esperar ansiosamente que o final jogue um pouco de luz sobre as contradições que são apresentadas.

Quando Jarecki pretendia rodar um documentário sobre os palhaços de Nova Iorque, conheceu Silly Billy (David Friedman), um artista das ruas que, ao contar ao diretor a respeito da peculiar história de sua família, acabou por presenteá-lo com uma trama sórdida cujos desdobramentos decretaram o fim da sua considerada normalidade.

Normal, mesmo repleto de toda a sua relatividade de significados, é um termo que de maneira alguma pode ser empregado aos Friedmans. Porque, ao contribuir com o diretor para a realização de um documentário sobre o escândalo que envolveu sua família, David lhe beneficiou com mais de 50 horas de material filmado por eles próprios, na sua estranha compulsão por filmes caseiros filmados em Super-8 e, mais tarde, em vídeo.

Através das imagens da própria família, de cara conhecemos Arnold Friedman, professor de computação e piano respeitado na pequena cidade de Great Neck, em Long Island. Premiado por suas contribuições no ensino da informática, é o patriarca da família ainda composta por sua esposa, Elaine e pelos filhos Jesse e Seth. Quando Arnold é investigado por receber da Holanda revistas de pedofilia, é que começa todo o escândalo sexual que aos poucos vai desintegrando a família, e fazendo ruir toda a aura de normalidade que os envolvia até então. Ao ser preso em regime preventivo, começa uma investigação de enormes contornos, envolvendo policiais que se baseiam somente em suposições e uma série extremamente desencontrada de depoimentos que, conforme o documentário vai nos mostrando, podem tanto ser frutos de uma histeria coletiva que se apodera da pequena comunidade, quanto de um grande esquema de coação da própria polícia para acusar Arnold e seu filho Jesse de seguidos abusos sexuais infantis, pedofilia e sodomia.

Como as acusações de abuso sexual, por parte dos pais das crianças que freqüentavam os cursos de computação ministrados por Arnold e seu filho Jesse no porão da casa começam simultaneamente a divulgação do escândalo de receptação de material pornográfico ilegal que envolve Arnold, e nenhum tipo de denúncia houve anterior a este momento, parece que estamos diante de um grande “esquema” armado com perfeição pelas autoridades locais, reforçado por profissionais de delegacias de crimes sexuais, irredutíveis nas suas acusações que não contaram em nenhum momento com provas físicas. Com uma primeira apresentação dos fatos propositalmente dúbia, a nossa primeira intenção parece ser crer na inocência daqueles que se mostram tão ternos nas imagens típicas das boas famílias suburbanas e seus filmes caseiros. Ao apresentar o depoimento de alguns pais que questionaram as táticas de investigação feitas pela polícia, bem como as memórias confusas de alguns ex-alunos que teriam sido molestados, o diretor opta por um começo que nos faz crer que toma o lado dos Friedman. No entanto, é quando as coisas estão apenas começando.

As cenas a seguir, registradas com a câmera de vídeo de David, mostra a gradativa deterioração da família a partir das acusações. Quando Elaine, a mãe, se mostra cada vez menos crente na inocência que Arnold continua a afirmar, os ânimos de todos os filhos se voltam contra ela, as discussões noite adentro são cada vez mais freqüentes e registradas com um preciosismo visual e uma sistemática que chegam a ser assustadoras, tal é a obsessão da família pelas filmagens. A verdade é que Elaine se mostra cada vez mais irritada com a câmera de David, em diversos momentos gritando que não quer ser filmada. Em contrapartida, as brincadeiras débeis que mesmo na noite anterior a sua prisão, Arnold é capaz de fazer, dão a tudo um retrato ainda mais doentio daquela família.

Se em um momento anterior, parecia haver uma certa tendência a nos fazer crer na inocência de Arnold e Jesse, é principalmente quando se começa a revelar a bizarra história da vida do primeiro, que as ínfimas certezas caem de vez por terra. Com um histórico infantil que incluiu experiências homossexuais com garotinhos da sua idade e mesmo sucessivos abusos sexuais do próprio irmão, – na infância, viam a mãe transar com os namorados que recebia no pequeno quarto que compartilhavam – começa a se pintar com claridade o retrato de um Arnold pedófilo, cujo medo de vir a abusar dos próprios filhos o leva a procurar ajuda de uma terapeuta quando adulto.

Os depoimentos seguintes começam a se encaixar como as peças de um quebra-cabeças antes perdidas. As lembranças difusas do irmão de Arnold, Howard, sempre a defendê-lo e a pintar uma linda imagem sua, começam a se tornar ainda mais embaraçadas quando perguntado a respeito dos abusos que sofrera de seu irmão. Afirma não lembrar de absolutamente nada, mas as imagens sugerem a resposta quando um plano se abre e conhecemos o parceiro de Howard, que se tornou homossexual.

As imagens são tantas e registram momentos tão peculiares, que talvez a melhor forma de explicá-las seja, realmente, o fato de que David diz “filmar para não ter que lembrar”.

E é como voyeurs de uma trama por demais fascinante de tão bizarra que continuamos a nos estarrecer com este documentário. Tudo é um jogo tão aberto e escancarado que, no entanto, ao contrário de nos fornecer as respostas mais claras, vai-se pintando um quadro onde culpados e inocentes se confundem e o registro eletrônico de tudo se torna quase uma catarse para o desmoronamento de uma família para o qual o termo “disfuncional” seria um generoso eufemismo.