30 março 2004

Pequenas lições para fazer um bom thriller de suspense

Ah, você quer fazer um filme de terror? Não terror-terror, mas aquele chamado thriller de suspense? Ok. Saca O Chamado? Faz igual. Não acha legal...? Mas para que mudar a ordem das coisas, afinal, todos os filmes atuais deste gênero têm feito a mesma coisa. Pensa como é barato o processo: arranja uma loirinha descabelada com uma cara que possa causar sustinhos. Aí, na sua trama ela vai estar morta e querendo vingança. Pronto. O resto pode ser pura enganação. O argumento tôsco e batido é o que vale. Inventa qualquer bobagem... Sei lá, tipo uma psiquiatra extremamente racional que não crê em fantasmas, inclusive ela pode ridicularizar uma paciente de algum hospital psiquiátrico em que trabalhe, não acreditando nas possessões demoníacas das quais esta diz ser vítima. Pois bem, esta mesma psiquiatra pode ter sua vida completamente transformada quando acorda internada... no mesmo hospital em que trabalha! Fascinante, não? A maneira como ela deve descobrir por que foi parar lá envolverá uma mistura pretensamente gótica de elementos oníricos, muitos delírios que façam com que todos a considerem muito, muito louca e um médico que será o seu antagonista [e será bacana se este médico for um ator antigamente elogiado que já esteve envolvido com drogas!] e não acreditará quando ela diz que não está louca.

O lance é usar muitas cenas no escuro, fotografia azulada para o clima frio, e algumas celas envidraçadas onde, uma vez embaçadas, fantasmagoricamente, surgirão frases macabras escritas por um dedo do além! Ah, tu tá gostando, né? Bom, uma hora a psiquiatra vai ter que saber por que foi parar naquele hospital: pois bem, na noite em que ela acha que atropelou a já citada loirinha à la O Chamado, na verdade ela foi vítima de uma possessão que fez com que dirigisse até sua própria casa e matasse seu próprio marido... a machadadas! Sim, mas por que?, você pergunta com razão. Bom, no final, daquela maneira tôsca para não deixar o seu filme bom demais, você arranja um personagem bizarro que, além de confirmar as descobertas feitas pela psiquiatra de que seu marido era um safado psicopata que estuprava, matava menininhas e além de tudo, filmava, também era seu cúmplice nestas aventuras. E, sim, os dois mataram aquela loirinha macabra que tomou conta do corpo da psiquiatra e fez com que ela cortasse seu marido em pedacinhos. Bacana, não? Não pode esquecer de colocar alguma semi nudez, frases escritas com sangue pela parede da casa e cortes feitos no braço para representar o pedido de ajuda de uma alma atormentada. Sim, a alma precisa da ajuda da psiquiatra, mas não será nada educada nos seus pedidos: o lance é fazer com ela machuque bastante a pobre doutora, inclusive arremessando-a contra a parede.

O final? Bom, como no final se verá que a pobre médica estava possuída por um encosto, sairá livre pelas ruas da cidade - afinal, não foi a culpada pelo assassinato violento de seu marido - e então exibirá um novo corte de cabelo enquanto obsrva um outro fantasminha a vagar pela rua, para levar os espectadores a crer que sua saga de médium camicase continua. Só o seguinte: o lance é não conseguir uma atriz oscarizada para fazer o papel da psiquiatra, senão vão achar que você está copiando a trama de Na Companhia do Medo. O que seria uma grande pena, convenhamos.