26 abril 2004

Finais de semana frio, têm se traduzido - ao menos para mim - como os instantes intimistas mais oportunos para apreciações artísticas igualmente intimistas. É lugar-comum a constatação de que nos dias em que é possível estar abrigado com cobertores e toda a sorte de guloseimas, o que há de melhor para se fazer em casa é deleitar-se com a leitura de um bom livro ou assistir um filme bacana. Para este último, com uma boa companhia, se torna um prazer a mais. Como meus fins de semana têm sido em sua maioria de solitárias contemplações, acabo curtindo-os com todo o espaço e tempo que aos solitários é garantido.

De tal maneira que nestes dois dias de pipoca, cafés e chocolates, dediquei-me às seguintes películas [na praticidade criminosa dos oportunos DivX]:

A Estranha Família de Igby (Igby Goes Down, EUA, 2002) - Filme que passou bem batido aqui pelo Brasil, mas ao qual sempre que comentado, referiam-se às favoráveis críticas ao desempenho do protagonista, o irmão de Macaulay Culkin, Kieran Culkin. Ademais, um elenco muito bacana que conseguiu ser reunido para tal produção. O filme conta a história de um rico e rebelde adolescente nova-iorquino de 17 anos. Às voltas com um pai esquizofrênico (Bill Pullman), um irmão com que não tem muitos laços afetivos (Ryan Philippe) e uma mãe neurótica e obsessiva (Susan Sarandon), Igby - o personagem de Kieran - é um sujeito totalmente perdido. Não sabe o que quer da vida, é expulso de diversos colégios, internado em uma escola militar e por fim vai receber guarida do padrinho Jeff Goldblum, um milionário escroto que tem um caso com a drogadita (e muito bacana, bastante em alta depois que parou de atuar no sitcom Jack & Jill) Amanda Peet. Este último recurso não resolve os problemas de Igby, em constantes [e, por vezes, injustificadas] crises. Acaba se envolvendo com a amante do tio e conhecendo uma menininha judia que passa pela mão de seu irmão, também, Claire Danes.

O interessante é que o tom inteiro é sarcástico, tem um ótima trilha sonora e como ponto alto, começa com a cena mais importante do filme e que vai acabar nos delineando o que vem dali para a frente. Sorte que a perspectiva não é estragada. Foi classificada como comédia, mas seus dramas são muito mais evidentes. Roteiro e direção de Burr Steers.

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American Splendor - Mistura de documentário e comédia muuuito bacana mesmo. Imperdível para os, como eu, fãs dos quadrinhos undergrounds. Quase um complemento histórico para quem já assistiu Crumb. Conta a vida de Harvey Pekar, em um misto de documentário [já que contém intervenções do próprio Harvey e seus amigos e esposa] e dramatização, com Chris Ambrose como Harvey, num desempenho fascinante. Como o personagem retratado aparece a toda hora, é possível fazer comparações constantes da interpretação do ator.

Harvey é um frustrado secretário de arquivo de hospital, com um problema cada vez mais crítico de perda da voz em razão de um coágulo, e um estilo de vida tão largado que não é possível não dar razão à sua segunda esposa quando vemos que ela o deixa justamente por isto. Com um apartamento caótico que abriga uma grande coleção de discos de jazz, conhece Robert Crumb [que aparece no filme, sendo interpretado por James Urbaniak] em uma destas garage sales tão típicas em que os americanos se livram de suas quinquilharias. Vasculhando e pechinchando por antigos vinis, acaba fazendo amizade com este cartunista que estava chegando no momento de se tornar um grande símbolo da contracultura. Após várias tardes passadas com Crumb e quando vê que sua vida está se esvaindo por uma rota cada vez mais medíocre, em que nada vai acontecer se ele não tomar uma decisão, Harvey começa a escrever histórias apartir de suas amargas e pessimistas visões de mundo, incluindo até seus colegas de hospital. Quando Crumb decide ilustrar suas histórias, nasce American Splendor, um álbum de quadrinhos que colhe grande sucesso na contracultura, retirando Harvey do tão detestado ostracismo em que se encontrava. O que não faz, no entanto, com que deixe de continuar batendo ponto no hospital em que trabalha - e no qual continuará por muitos anos.

O que temos em seguida é Harvey com um ídolo desta geração alternativa, que se torna extremamente conhecido nos Estados Unidos, com aparições constantes em shows como o de David Letterman [e no qual acaba protagonizando uma antológica e divertida cena de revolta contra o sistema, ofendendo Letterman e ao seu público e forçando um intervalo comercial às pressas].

Hervey é um pessimista completo - o que acaba complicando ainda mais sua vida quando acometido pelo câncer - mas que, ainda assim, e por insistência de sua mulher, continua dando vazão às suas histórias, inclusive registrando sua luta contra a doença. Concorreu ao Oscar na categoria Roteiro Adaptado e ganhou Prêmio da crítica em Cannes 2003 e do júri em Sundance 2003. Direção de Shari Springer Berman e Robert Pulcini.

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Por último, mas não menos importante, O Amor Custa Caro, comédia [romântica?] dos sempre fantásticos Irmãos Cohen. Para completar, George Clooney [que, desde E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? se revelou um incrível ator de comédias, com um timming e trejeitos cômicos engraçadíssimos] como protagonista ao lado da maravilhosa e cada vez mais linda Catherine Zeta-Jones.

A história é sobre um bem-sucedido advogado de divórcios [Clooney] com um imenso prestígio e que ganha todos os casos em que entra. Quando é procurado por um marido que foi pego em flagrante [Edward Hermann], tem que enfrentar a mulher dele [Catherine] e descobrir algum deslize no passado dela. No julgamento se utiliza de vários estratagemas [testemunhas fundamentais surpresas] e acaba ganhando a causa, conquistando para sempre a promessa de vingança da personagem de Catherine.

Como os próprios deixaram claro, este é o filme mais comercial dos Irmãos Cohen, pela grandiosidade do elenco e pela trama mais facilmente massificável. Mas, apesar disto, o brilhantismo e elegância nas interpretações é algo formidável. A dupla de protagonistas está extremamente bem entrosada e a direção é muito afinada. Como é cada vez mais raro nas grosseiras comédias que têm se sucedido, o que temos aqui é um filme de diálogos memoráveis e sagazes. A ironia em cada uma das falas, o sarcasmo constante que ronda o universo dos grandes ricos e suas estratégias para se dar bem nos divórcios, tudo é muito divertido. Os personagens são todos muito convincentes, inclusive os que fazem as pequenas pontas que rondam o filme, com destaque para o colega de trabalho de Clooney [Paul Adelstein] e para Geoffrey Rush, como um picareta produtor de novelas, hilário.

Clooney e Zeta-Jones são extremamente cientes de seu charme e os usam em boas dosagens, conjugando carisma constante [mesmo a personagem de Zeta-Jones, quase uma viúva-negra, sugadora dos bens de seus maridos e que vai agregando seus sobrenomes em uma cada vez mais longa lista] e perspicácia impressionante no humor de seus personagens. Filme sensacional, digno das grandes comédias de Cary Grant e Rock Hudson, cheia de charme, inteligência nos diálogos e sarcasmo na medida certa.