23 abril 2004

quase memória

Tu não sabias porque as outras crianças não te deixavam brincar com elas no pátio dos apartamentos. Tu eras meio estranha e um pouco gorda em comparação às outras gurias com suas tetinhas ouriçadas e seus calçõezinhos de lycra coladinhos no rego, mas estes tu não podias usar - porque tu eras um pouco gorda e sabias que não ficaria algo muito bonito de se ver. No mais, tu tinhas quase certeza de que não gostaria de sentir aquele tecido gelado enfiadinho por entre as tuas coxinhas roliças, e achava melhor, então, usar aquela bermuda de algodão folgado que te deixava maior do que tu eras.

Também, isto não tinha lá muita importância no resumo geral das coisas, porque tu acabas mesmo passando o dia olhando as crianças da janela do teu apartamento ao rés-do-chão, já que elas não te chamavam para participar do esconde-esconde, então, quase ninguém te via com aquela bermuda larga de algodão. Se te visse, tu já achavas que não tinha muito problema, porque há tempos já desistira da idéia de encontrar em si própria um pouco de graça, ou de parecer interessante de algum tipo de maneira estética. Eu acho que tu nem tinhas muita noção do conceito de estética. É, esquece, tu eras extremamente novinha naquele tempo e, provavelmente, crianças novinhas e normais na concepção social da palavra, não se ligam muito em preciosismos vocabulares. Se bem que eu esqueci que, naquela época, tu eras meio estranha. Eu, por exemplo, não entendia porque tu gostavas de judiar com o gato do teu irmão menor. Não sei se tu tinhas raiva do bichano, de verdade, ou se usava o pobre para se vingar do fato das atenções terem se voltado todas para teu mano e, então, tu te achar completamente abandonada.

Ninguém ligava que tu ficasse horas na frente da televisão assistindo aqueles filmes onde os homens sempre queriam estar por cima das mulheres, se esfregando que nem o guri daquele apartamento do lado do teu ficava se esfregando na tua vizinha Lurdes. Tu não sabias o que havia de interessante em ficar se esfregando. Tu não sabias muita coisa naquela época, para falar a verdade. Agora não sei se tu aprendeste um pouquinho mais.

Também, eu não tenho nada que ver com isto.