03 maio 2004

Benditas estações da nova literatura.

Os tempos na literatura têm sido de debate sobre quem são os herdeiros da “maldição”. Amparados por referências do chamado gênero maldito, representado por figuras tais como John Fante, Charles Bukowski, Jack Kerouac, Alan Ginsberg, entre outros, jornalistas como José Castello têm tentado fazer um mapa atualizado sobre quem são os escritores da dita nova geração que têm se prestado a perpetuar tal espécime de “categoria literária”, se assim se pode chamá-la.

A verdade, é que, a despeito de uma eventual e errônea rotulação que tais jornalistas estejam dispostos a empregar para os escritos que têm se mostrado mais em evidência nos últimos anos e com os últimos lançamentos de escritores estreantes, também não é de estranhar que haja, realmente, a constatação de um tipo de literatura atual que, se não totalmente fundamentada nos alicerces da geração dos malditos, têm apresentado elementos que os equiparem em algum ponto a esta literatura evidentemente provocativa de então. Lógico que a literatura como provocação é uma atitude louvável quando não calcada em experimentações já desgastadas e em formas fáceis. O apelo para o estranhamento, como se buscou outrora, deve buscar ao menos o novo para se fazer original e não caricatura de um estilo que, mais do que discriminado como foi na sua primeira geração, hoje tem se convertido em status, grife identificadora.

É inevitável fazer a constatação que, no ano da morte de uma escritora tão controversa e incluída no rol destas figuras amaldiçoadas, como Hilda Hilst, muito se irá debater a respeito desta vinculação dos escritos atuais – de uma maneira por vezes repetitiva e descaradamente oportunista – às características de obras como as desta escritora. José Castello ousou dar nomes ao bois, no seu artigo publicado no site No Mínimo, e eu já não iria tão longe, até por achar que isto seria uma atitude extremamente parcial e preconceituosa com uma primeira imagem que tais escritores referidos possam passar. Analisando tais obras, se perceberá, em algum deles, a distância deste rótulo que o colunista lhes assegura.

Em meio à quantidade de escritores que se tem jogado em um mesmo saco, devido talvez a temáticas que se julguem semelhantes, é até de se estranhar – como corpo estranho – na subida à tona da obra de um escritor como João Paulo Vaz. Distante muito de poder ser igualado a obras que buscam na diferenciação pelo estranhamento a sua linguagem mais contumaz, Vaz apresenta no seu recente livro de estréia Sete Estações, lançado pela Coleção Rocinante da Editora 7 Letras, um compromisso, senão com a literatura na sua forma mais tradicional, ao menos uma visão muito mais otimista da vida e suas agruras, sem ceder espaço a elucubrações atormentadas e decomposições formais – recurso muito em voga nos últimos tempos.

Pelo contrário, a literatura de João Paulo é límpida e adepta da tradição da linearidade. Em momento algum recorre a idas e vindas constantes, alteração desenfreada entre as figuras narrativas ou experimentações na maioria das vezes mais confusas do que eficientes. Quando é mais ousado, tentando romper com a formalidade, é por que pretendeu emular um tipo de “fenômeno” já constatável como estabelecimento de relação social, e que talvez merecesse um olhar mais literário. No entanto, o conto “Gatalouca e Mineirão”, acaba por ser meio previsível no seu relato de um casal que se conhece através de um chat, invertendo seus papéis sexuais e reinvertendo-os em uma trama por demais banal.

Os exercícios de pontos de vistas propostos por João Paulo, no entanto, já apresentam resultados mais interessantes. Como no conto “Planos”, a possibilidade de realização de feitos, à mercê dos seus protagonistas acaba apontando um dos pontos fortes da literatura de João Paulo Vaz: a verossimilhança. Desde os dois primeiros contos, “Babi” e “Sessão da Tarde”, que, a princípio, pela temática ligada ao thriller policial, poderiam remeter a ecos de Rubem Fonseca e Marçal Aquino, o autor consegue reviravoltas ágeis e extremamente humanas. Em “Sessão da Tarde”, o que pareceria mais “certo” e fiel à sede de vingança de um marido traído, acaba rompendo pela humanização e mais provável possibilidade. Por ser muito semelhante ao que - é quase certo - aconteceria na vida real, é que acaba surpreendendo. Não perpetuando a eterna tradição da trama mirabolante, se salva ao ceder lugar ao verdadeiro e, por que não, comovente.

Como João Paulo escolhe seguir por este caminho mais aliado ao táctil, acaba acertando em praticamente todo o resto do livro. “Caminho da Salvação” tem a linguagem mais crua, própria ao marginal. E ao alinhar-se com os passos típicos de um “encontro na fé”, consegue narrar com precisão o caminho do recém converso e suas contradições com seus problemas próprios.

O livro de João Paulo não é monotemático: o microconto “O avô” é um achado. Na medida da fantasia, embarca em uma quase metafísica que encontra mais uma vez no ponto de vista seu componente mais importante. Tão importante quanto a facilidade com que o autor se coloca no lugar de um garoto exageradamente mimado e introduzido ao sexo não da maneira mais ortodoxa possível em “As tias”.

A verdade é que, mesmo sendo o livro de estréia de João Paulo Vaz, um mestre em ciência da computação, fica óbvio o domínio da escrita pela linguagem segura do autor. Além de participação na revista “Ficções”, também da Editora 7 Letras, numa rápida busca pela Internet é possível constatar o nome de João Paulo em participações e como ganhador de diversos concursos de contos, tendo, inclusive recebido menção honrosa no importante concurso Guimarães Rosa com o conto “Sexmaster-5”.

O fato de já ter tido outras experimentações literárias antes desta estréia na Coleção Rocinante, foi o que possibilitou a João Paulo esta ótimo livro. Que, apesar de não prezar por uma busca na experimentação, acaba descobrindo estilo próprio em narrativas que, se no início se mostram duras, quase policiais, surpreendem com seus finais humanos, repletos de lirismo. Reviravoltas em que o apelo emocional de João Paulo Vaz se faz mais presente do que uma possível crueldade que pudesse ser o caminho mais inevitável. São momentos em que os contos parecem assumir poder quase autocontrolador: fogem à sina de serem por demais crus, secos, como poderiam se nas mãos de um escritor menos hábil e sem controle de seus objetivos. João Paulo Vaz parece saber onde quer chegar e começa a trilhar o caminho muito bem.

Texto publicado originalmente no Paralelos.