18 maio 2004


E sua mãe também

Ok. Tem aquela colunista que reina absoluta como a embaixadora do senso comum. Escreve textos estabelecendo correlações entre chocolate e sexo, o tempo que se leva para curar um amor perdido e outras coisas fofas do gênero. É considerada como gênio da trivialidade, craque do bate-papo de situação, mestre da crônica superficial. Vende bem seus livros, que viram peça de teatro e tal. É cronista respeitada, amada por uma porção de pessoas. Você pode não gostar. Mas garanto que aquela sua tia gosta. É, aquela que adora horóscopo e manda e-mails pesadíssimos para você com slides de anjos, orações enormes, ursinhos e figurinhas que piscam. Aquela sua tia adora. E garanto que sua mãe também.

Pedro Bial vendeu milhões neste verão com um CD com mensagens positivas e textos bonitinhos sobre filtro solar e como você deve dançar sem sentir-se ridículo e amar os seus pais. E usar filtro solar. Você não curte, eu penso. Acha brega, lugar-comum, aquela coisa toda. Mas seu tio curtiu. Sim, aquele tio que tem coleção dos quadrinhos do Tex, que compra os CD’s do Roberto Carlos no final do ano e é fã do Lair Ribeiro. Aquele seu tio adorou. E sua mãe também.

Você não. Você se diferencia procurando por notícias pela Internet, estabelecendo grupos de discussões em comunidades do Orkut, trocando mensagens no ICQ e ouvindo os últimos CD do White Stripes e do Weezer. Acertei, não? Não? Ah, você não gosta do Weezer. Ok. Coldplay, então? Errei de novo. Tudo bem, desisto. “Quem este cara pensa que é para me rotular, assim?!”, você deve estar pensando. Como se você fosse um elemento facilmente identificável em um saco de seres que se alimentam das mesmas referências e que se enquadra em um senso comum que, ainda que não considerado vulgar como os exemplos do primeiro parágrafo, mama dos mesmos ícones pop’s, não é?

Você não curte o Pedro Bial mas até se emociona com algumas músicas do Rei. Mas não conta para os seus amigos porque eles podem considerar você um babaca. Ou pior, conta depois que ele vira um hype nos bailes descolados que você freqüenta regado a cachaça de butiá e sons que, outrora brega, se tornaram cult. Aliás, hoje Vicente Celestino é cult. Como Zé do Caixão. E outras coisas mais, que antes envergonhavam, mas depois viraram sucessos dos descolês. E aí passa a ser bacana.

Você é politicamente engajado e não quer ceder aos produtos apelativos do mercado que fazem uso de uma linguagem mediana para vender e ser agradável ao pessoal dos oito aos oitenta anos; não cai no conto das mensagens bonitinhas para aquecer corações. Você NÃO é politicamente engajado e, no entanto, concorda com tudo acima.

Você quer ouvir o que tem vontade, assistir o que bem entender, ler o que der na telha e até achar bacana textinhos com poemas e mensagens de otimismo e que te mandam dar um abraço na pessoa mais próxima. Mas fica regrado que esta não é a melhor das alternativas para se sentir parte “da gurizada”. Você não quer um cara metido a sabichão de um blog chamado suburbana te dizendo como se comportar e como você ser você mesmo. Mas você chegou até aqui. Você não curte a Britney Spears, mas assiste o clipe dela por que é a maior gostosa. Você considera Paulo Coelho um boçal, mas não achou O Alquimista a pior das literaturas. Você se perde no emaranhado de informações e não sabe mais quem você é.

Você não gosta de rótulos. Você não é mod, não é cyber, não é punk, não é grunge, não é nerd. Você não precisa disto. Não precisa de quem lhe diga o que fazer, do que gostar, qual cerveja tomar. Mas você também não é rebelde. Só quer ter o controle da situação. Escolher. Não se deixar enganar. É o que o todo o mundo quer. É o que a sua tia quer, o que o seu tio quer. É o que você quer. E sua mãe também.

Publicado originalmente no Simplicíssimo de 15.04.2004