27 maio 2004

A Margareth. Igual a todas as outras: coque no cabelo, uniforme azul-ciano, base no rosto e o maldito batom rosa-bebê. A Corporação era quem dava a diretriz - o padrão estético, segundo eles, era resultado das mais esmiuçadas pesquisas de tendência para a aceitação do visual das atendentes de Grandes Corporações. Margareth odiava a Corporação, mas a grana era boa e ainda oferecia desconto nas mensalidades da sua faculdade. Ruim era o restaurante da Corporação. Comida pior que de colégio municipal. Não valia o esforço do maldito batom rosa-bebê.

Três anos de corporação e ainda o batom rosa-bebê. O uniforme, design novo, uma faixa branca na lapela. No coque, uma telinha de renda para adornar o penteado. O batom, o mesmo. Começou a organizar uma rebelião. As gurias não ousaram, não queriam arriscar o emprego. Um tom acima!, pediu a Margareth para a moça do avon. De rosa-bebê, passou a usar o rosa-681, código que identificava a cor um pouco mais ousada. Bem pouco. A vó nem notou. O vigilante que ficava zanzando em frente ao seu balcão de atendimento todos os dias, também não. É certo que olhava para a sua boca. Também. Mas não notou. Na hora do lanche, as gurias horrorizadas, dizendo que Margareth iria ser demitida. Margareth nem ligou, chamou elas de bobas. Bem assim. Sabia que estavam com inveja, não tinham coragem de ousar como Margareth. Azar o delas.

No outro mês, o rosa-683. Margareth não era boba. Fechava o batom com a tampinha do rosa-bebê. Na frente da supervisora era como se ainda usasse o antigo. Margareth começou a achar o trabalho mais agradável. Não sabia bem porquê. O batom, talvez. Mais sensual. Notava os homens se demorando mais a perguntar onde ficava o prédio onze. E o vigilante olhava mais para a sua boca, também. As gurias quase nem falavam com ela. Era a ousada, a rebelde. Quase devassa.

Em julho não se agüentou. Achou o rosa-paixão divino e pensou em chutar o balde. Como as gurias já nem lhe dirigiam a palavra e tampouco a supervisora lhe mirava os lábios com precisão, chegou naquela tarde com os beiços em encarnado. O vigilante comentou, as gurias resmungaram algo como “hmpf!” antes de lhe virar a cara e ela achou em excesso o interesse de tanto homem a lhe perguntar onde ficava o prédio onze. No fim do expediente a supervisora disse que queria falar com ela. Ainda arranjou tempo para ligar pra moça do avon e pedir o vermelho-rubro. Achava que ficaria bem com o tailleur vermelho-sangue com que passaria no dia seguinte no departamento de pessoal.