17 maio 2004

Neste fim de semana, espaço tanto para o entretenimento do circuito mais comercial, quanto para a procura de alguma obra fora dos grandes cinemas de Porto Alegre.

Começando por este último, fui assistir domingo, no Santander Cultural, ao clássico Nunca aos Domingos [Pote tin Kyriaki]. Filme em preto e branco de 1960, é a principal obra do diretor norte-americano Jules Dassin. A história parece simples como as prosaicas comédias desta década. No entanto, por trás da trama banal, há a busca da exploração da metáfora para a decadência atual da Grécia. É isto o que acha o personagem Homer, personagem do próprio diretor Jules, um "filósofo amador", como ele mesmo se define, que chega à cidade grega de Piraeus e se depara com a alegre prostitua Ilya [a atriz grega Melina Mercouri, esposa do diretor]. Sendo a pessoa mais popular da cidade, Ilya irradia alegria com seus constantes mergulhos no píer, tornando mais agradáveis os dias dos estivadores e marinheiros.

Aos domingos, Ilya mantém um estabelecimento, uma espécie de taberna onde entretém a todos com sua comida, bebida e música. O caráter diferencial de Ilya é que ela só transa com o homem que for do seu agrado. Desagrada-a as diversas tentativas de somas altas para tê-la: se não simpatizar, nega-se a prestar o seu serviço a quem quer que for.

Desta maneira, exalando alegria e liberdade por todos os poros, Ilya se converte em um mistério para Homer, que não consegue conceber o princípio de que ela possa ser feliz tendo a profissão que tem. Assim, imbui-se de uma quase missão, quando estabelece que Ilya é metáfora para a decadência atual da Grécia. Por ser desprovida completamente de interesses intelectuais - nada lhe interessa além da amizade verdadeira que cultivou com os seus diversos e agradecidos clientes, que enchem a sua casa e sua taberna para cantar e dançar com ela -, Homer acha que ela é um contraponto constante à toda a tradição histórica e racional que construiu a Grécia. Desta maneira, se propõe a "curá-la", fazendo com que se dê conta do universo de "perversão" em que se encontra e tenta convencê-la de como ela não é feliz, apenas pensa ser. Isto diz quando Ilya lhe revela que todos os seus prazeres estão atrelados ao físico: comer um bom peixe, dançar as danças típicas gregas, entre outros. Homer acha que o verdadeiro prazer, que a felicidade somente pode estar na racionalização do que lhe faz bem. Ilya é tão ingênua e quase infantil em seus ideais de felicidade, que insiste em subverter todas as tragédias gregas a tramas quase banais, comparadas a novelas mexicanas, em que, ao final, todos felizes "acabam na praia".

O filme todo tem o tom ingênuo de quase pastelão. As brigas que Homer acaba arranjando com os amigos de Ilya, ao tentar tirá-la da vida que leva caem sempre na comicidade. O próprio personagem de Homer é o mais estereotipado possível: um intelectual atrapalhado que tem noções idealizadas da intelectualidade. Fato este refletido no "tratamento" que impõe a Ilya assim que ela se mostra disposta a aceitar que, em duas semanas, ele a "convença" de que a vida que ela pode levar se dedicar-se às coisas do espírito, lhe fará mais feliz do que atualmente é. Desta maneira, cai nos esterótipos primários de encher sua casa com quadros de Picasso, fazer-lhe escutar música clássica no toca-disco, ler os clássicos gregos, entre outras imersões que imagina serem suficientes para fazer Ilya encantar-se pela intelectualidade. Peca por um moralismo excessivo da parte deste personagem, que simplesmente acha que sua vida personifica o "mal". No entanto, ele mesmo não se dá conta do quanto é bobo e sem jeito para as coisas reais da vida. Até mesmo o seu desejo sexual por Ilya acaba soterrado sob a sua decisão de transformá-la.

No final das contas, Homer não percebe que está sendo feito de mero joguete do dito Sem Face [Alexis Solomos], uma espécie de gigolô da cidade, que tendo todas as prostitutas morando em seus conjuntos de apartamentos e trabalhando sob suas ordens, indigna-se que Ilya, com sua independência, influencie as outras prostitutas. Desta maneira, é Sem Face quem financia estas duas semanas de tentativa de transformação de Ilya, para que ela abandone definitivamente a prostituição e não seja exemplo de rebeldia para as outras.

Como toda a obra insiste em converter-se em mero divertimento, o fim continua no mesmo tom de jocosidade, com Ilya se dando conta da armação feita para mantê-la em submissão. Converte-se em justiceira social, ajudando as outras prostitutas a livrarem-se dos altos aluguéis pagos, e retornando à sua feliz vida quando chega um navio repleto de marinheiros para agitar a vida das prostitutas locais. Um ponto a favor de Nunca aos Domingos é sua trilha sonora dinâmica, tocada com instrumentos locais e os constantes números de dança e cantoria.

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Do circuitão, Alguém Tem que Ceder [Something's Gotta Give, 2003, EUA]. Acho que não é ofensivo dizer que se trata de uma comédia romântica para a terceira idade. Mesmo não pertencendo ainda a esta fase da vida, fui conferi-la por que, afinal, Jack Nicholson, seja em que filme for, sempre é um grande prazer de se ver. E Diane Keaton, não me importando se sua indicação para o Oscar de Melhor Atriz foi merecido ou não, também é uma atriz bem bacana. Pela minha opinião, mesmo com um desempenho tremendamente competente, repleto das características que a personagem pedia: algum charme inseguro, transparecer uma intelectualidade de dramaturga super conceituada [e nunca demonstrado], o medo do envolvimento após um longo romance, a indicação não era merecida. Agora, quem se importa com isto? O que importa é o filminho em questão. Que, se disse anteriormente se tratar de um filme para a terceira idade, é pelo caráter absolutamente de não passividade que sugere para quem se encontra nesta idade. Nada de tricôs e bolos de fubá para os netos, velhos sentados em cadeira de balanço esperando o tempo passar. O filme mostra - ainda que da maneira mais idealizada possível - que é possível o romance, o encanto, o sexo, depois dos sessenta.

A trama, rápido e rasteiro: figurão da cena musical, o sessentão Harry Sanborn[Nicholson] somente se envolve com mulheres da faixa dos vinte e poucos anos. Marin [a deliciosa Amanda Peet] é uma delas. Em um fim de semana em que ambos vão para a casa de praia de Erica Barry [Diane Keaton], mãe de Marin, se deparam com a própria lá, acompanhada da irmã, representada pela fabulosa atriz Frances McDormand. Depois de uma pequena discussão sobre quem deveria ficar e quem deveria ir embora, decidem que todos os quatro ficarão entretidos com seus afazeres. Desta maneira, no que deveria ser a primeira transa de Harry com Marin, ele tem um princípio de enfarto e vai parar no hospital da cidade, onde um médico vivido por Keanu Reeves decide que ele deve ficar por perto, e descansando. Desta maneira, continua hospedado na casa de Erica. Como Marin acaba se esquivando dos cuidados para com namorado, e voltando para a cidade, Harry fica tendo por companhia somente Erica, já que sua irmã também se mandou. Deste momento em diante, e, como não fica difícil concluir, os dois acabam se apaixonando, dando vazão à conclusão de que os velhos tem mesmo é que ficar juntos e não se envolver com garotinhas e garotinhos. É claro que para dar uma contrabalanceada e deixar a personagem de Diane também repleta de um charmezinho sedutor da terceira idade, o médico Julian Mercer [Keanu] se apaixona pela brilhante, inteligente, fantástica dramaturga Erica e cola no seu pé. É o mote que se precisava para que demore um pouco mais para o romance de Erica e Harry engrenar. Não por que ela não queira. Depois de uma noite de sexo entre os dois, ela está fascinada, irremediavelmente apaixonada e satisfeita, não tendo sentido tanto prazer há muito tempo. O que atrapalha é o natural distanciamento imposto por Harry, acostumado com sua vida de poligamia e perdido na tarefa de lidar com alguém "daquela idade".

Assim, entre algumas confusões, piadinhas sobre a terceira idade, nus frontais de Diane Keaton e bunda exposta de Nicholson, mãos enrugadas e golas olímpicas, peças chupadas dos diálogos da vida real e romance-que-nunca-engrena de Keanu Reeves com Diane, vai seguindo o filme até o desenrolar típico. "Sempre haverá Paris", neve, música romântica e outros clichês do gênero e Harry por fim se dá conta de que ela é a mulher da sua vida, vai ao seu encontro, a tira dos braços de Keanu e vivem felizes para sempre.