13 maio 2004

O frio remete a um princípio de introversão extraordinário. E não o frio enregelante do inverno aqui nos pampas. Este frio meia-boca, esta introdução às chuvas de granizo, à neve na serra, ao vapor quente nas manhãs que ainda não chegaram mas se encontram no seu estágio inicial. O outono é o perfeito estágio antecipatório do inverno. A chamada meia-estação. Tardes de calor e noites em que bate "aquele ventinho". Mas a introversão, os fatos que nos levam à necessidade de introversão, já se encontram todos aí. Fim da sensação de "living la vida loca" do verão, até o ato de se vestir requer um maior pensar do que a mera colocação da primeira camiseta ao alcance da mão. No entanto, mais alarmante que isto é a clareza de pensamento que nos acomete nesta estação. Cada gesto, cada palavra, parece ampliada, tudo parece mais nítido. A mesma sensação que remete aos limites de pureza de uma fita K-7 para um CD, parece se dar entre o verão e o outono. Não mais os dias quentes e por vezes irritantes, o suor e os hormônios alterados à grande, também reforçados pelos indefectíveis e inevitáveis hits de verão que chegam aos nossos ouvidos indiferentes à nossa vontade.

É certo que cada estação tem os seus modismos, facilmente adaptáveis às características destes. Manter-se à margem das imposições midiáticas é um exercício cada vez mais complicado. No entanto, longe dos apelos sensuais a que nos remetem as propagandas de cerveja, tão abundantes no verão [os comerciais, por que as cervejas continuam em alta durante todo o ano, com suas edições especiais, principalmente. Bock e suas adjacentes], os sentidos nos parecem mais ampliados agora.

Na estação mais propícia para os cafés, para os passeios no final da tarde, é que todos os nossos atos e gestos definitivamente nos envolvem em uma dimensão maior e mais nítida. Nem o embotamento do verão nem a modorra friorenta que nos envolverá no inverno. A estação ideal para os atos que requerem maior racionalidade, para os romances e, definitivamente, para os cafés.