24 maio 2004

Um dos filmes que mais me impressionaram nos últimos tempos, definitivamente. O Anjo Exterminador (El Ángel Exterminador, 1962). Já ouvira falar do fato de ser uma freqüente de Luis Buñuel a crítica à burguesia. Esta obra é, então, definitivamente como um fechamento desta crítica que teria se iniciado com obras anteriores.

"A moral burguesa é, para mim, uma imoralidade contra a qual há de se lutar; esta moral que se baseia em nossas instituições sociais mais injustas como o são a religião, a pátria, a família e a cultura, em suma, o que se denomina os pilares da sociedade."

A epígrafe acima, de Luis Buñuel pode resumir os preceitos deste cineasta. O Anjo Exterminador é uma obra que critica de maneira simples porém com uma eficácia impressionante a podridão dos costumes dos burgueses. Sua tirania, a soberba, o egoísmo. Tudo é tratado com tal simplicidade, mas de maneira que se mostra tão genial que é supreendente. Toda a narrativa é adornada por um realismo fantástico, uma sensação surpreendente que ajuda de tal maneira a construção da trama que, uma vez sem a utilização de arroubos técnicos, ficamos embasbacados com a impressão que consegue causar.

É uma obra visivelmente unilateral. Não há meios termos nem economia em atitudades para demonstrar o que o cineasta quer: que a burguesia é vil, sórdida, cruel e desumana. Cada segundo do filme é feito para gritar tais verdades. O seu comportamente com os empregados, a maneira como se referem a pessoas de menor nível social e financeiro que os seus, a hipocrisia, a vaidade, o adultério. Seus sentimentos e pensamentos são baixos, sua verdade é fútil, suas prioridades são voltadas somente para satisfazer seus desejos egoístas. Buñuel execra cada um destes princípios e colabora para deixá-los todos muito claros ao espectador.

A maneira como revela isto é magistral. Seria prosaica se não fosse genial. A metáfora de imobilismo é o mais sublime. Em um grande jantar, os convivas são tomados de uma crise total de passividade, uma elevação de um grau de aceitação de suas vidas e suas realidades que se torna visível - literalmente - para nós, aonde tal grau de torpor os leva. Acabam, desta maneira, entrincheirados em meio a figuras celestiais, pessoas nem sempre conhecidas, pouca comida e uma animosidade que vai tomando conta do comportamento dos mais desesperados. Quando se aproximam da passagem para outro ambiente da residência, as pessoas sempre acabam encontrando uma desculpa para evitar a continuação do movimento e, caso insistam, ficam prostradas, as forças esgotadas, impedindo os membros de se mexerem.

A população externa também não consegue penetrar na casa - como para não se contaminar com a sordidez daqueles ricos esnobes. Desta maneira, a casa é colocada em quarentena, dando oportunidade para o aparecimento de diversos aproveitadores, políticos e autoridades.

Acabam tomados pelo desespero, reduzidos à atitudes da escória por eles tão odiada, sendo submetidos à privação alimentar, pressão psicológica, e levados à insanidade pelo absurdo de estar vivendo tal situação. De tal maneira que vai crescendo a fragilidade dos personagens, principalmente quando, acabam querendo buscar culpados pela situação, como se isso fosse diminur o horror daquela situação.

O diretor emprega vários recursos visuais para fazer referências à outras "prisões" que, tal qual o falso encanto da soberba e da riqueza, seriam as causadoras do aprisionamento daquelas pessoas. Existem cordeiros que passeiam por dentro da casa [que acabam sendo devorados], bem como imagens sacras que fazem parte dos ornamentos. Alarmes religiosos são disparados o tempo inteiro: desde o começo, há os cantos gregorianos, sinos badalando e imagens da porta de uma catedral. São críticas ao costume de apelar a Cristo nas situações difíceis, entre outras.

A técnica de misturar elementos da alucinação dos convidados, também é outra característica a gerar maior efeito perturbador no filme. Um emaranhado que tanto se concentra em estabelecer um visual onírico, uma não-separação constante entre o real e o imaginário.