07 maio 2004

Universo Particular

Uma gola rulê muito, muito alta. Algum vento no cabelo – porque vento no cabelo sempre compõe as cenas mais dramaticamente belas. Se olhares para o lado, tu verás outras xícaras de café fumegantes, mas como não desvias o olhar das páginas de Cortázar, sabes, enquanto esperas o teu café, que o outono chegou pelo vento que faz mexer as folhas.

Alguns dias atrás e o cenário não seria tão dramaticamente modificado. Faltaria o frio (ainda que não tão frio quanto as noites invernais que te fazer recolher-te para dentro das cafeterias da rua da República, mas um frio que te agrada às orelhas já) e todo o resto ao teu redor se completaria diferente. A demora para teu café chegar não pareceria tão demasiada e tu não te debaterias entre o gosto pelo vento gelando no teu rosto e o possível aconchego das mesas do lado de dentro.

Quando teu café chega, tu interrompes então a leitura para sorver com gosto a espuma branca que se concentra na borda. Neste instante então, tu te entregas à visualização da tua volta e te sentes compactuado com todos os outros que bebericam suas bebidas quentes em goles compassados. Do teu lado, será possível encontrar um rosto conhecido e nada muito além de um meneio de cabeça como cumprimento será necessário para interromper as divagações do teu universo particular. Tu te concentras nele, vê como aumentados em lupa os pequenos tronquinhos de madeira rolados junto à sarjeta pelo vento; do outro lado da rua te surpreendes com a inverossimilhança da moça tão inacreditavelmente bela que parece ter sido contratada para segurar a saia levantada pelas rajadas de vento que se pronunciam mais ousados.

No entanto, como ela te enxerga e, embaraçada te dirige um franco sorriso entre faces rubras, tu tens certeza do real instante.

Ainda que coisas assim só aconteçam em tardes de outono frias como esta.