29 junho 2004

Eu sou sócio de uma destas pequenas locadoras de bairro que, ainda que seja a maior e mais bem guarnecida do meu bairro, sofre com a aquisição de bons títulos em DVD. Não é uma E o Vídeo Levou da vida. Longe disso. Não chega nem a possuir um acervo em DVD que conte com clássicos. Se bem que, de vez em quando, se consiga pescar coisas interessantes por lá. Os blockbusters, os últimos lançamentos, no entanto, estão todos lá. Em tempo, é uma locadora deveras suburbana. Como eu moro na Restinga, ela vem daquela tradição que rege as locadoras de bairros com moradores com menor poder aquisitivo. Em época de advento das fitas VHS, a predileção sempre foi para os filmes de ação, com estrelas do porte de Rutger Hauer e Charles Bronson e dublados. Quase como oferecer um espetáculo de sessão da tarde para tiozinhos barrigudos que gostam de assistir a um Steven Seagal depois do churrasco de domingo.

Ainda que morosamente, esta tradição foi se desfazendo ao mesmo tempo em que as locadoras foram se abastecendo de títulos mais respeitáveis e o DVD pintou por aí, com todas as facilidades conhecidas. E, em uma noite de domingo, tentando catar alguma pérola dos rescaldos de sábado à noite [dia em que todo o mundo vai pegar filme no final da tarde, com devolução na segunda e deixando as "podreiras" nas prateleiras no domingo], achei que já era tempo de assistir à Cine Majestic [The Majestic, 2001] e ver se era possível reforçar ainda mais a minha opinião sobre o fato de Jim Carrey ser um ótimo ator depois que assisti à O Show de Truman. É certo que é um preconceito imbecil não ter chegado à tal conclusão simplesmente pelo fato de Carrey, até o momento destes dois filmes, não ter feito nada além de comédias escrachadas. As mesmas já davam a dimensão de atuação que Carrey era capaz. Era preciso mais, no entanto. Se sabia tanto fazer rir, com um talento histriônico inegável, gostaria de saber sobre sua capacidade de emocionar, de convencer em um papel em que suas caretas e trejeitos físicos extremos não fossem utilizados necessariamente como principal estratégia de atuação. Conseguiu isto com O Show de Truman e mais ainda com Cine Majestic.

Bom assistir a um filme com sorriso nos lábios. Se encantar com as atuações, por mais que devesse ser banal, para mim é terreno cada vez mais raro. O problema é que tenho visto cinema com um olhar cada vez mais técnico, desprovido de emoção, preocupado com os encadeamentos de roteiros principalmente. E este filme, além de uma trama interessantíssima, consegue emocionar tanto com a atuação de Jim Carrey, quanto - e principalmente - do ator que interpreta o seu "pai", Martin Landau, um mestre na sua arte, em definitivo. A direção é de Frank Darabont, realizador de À Espera de Um Milagre e Um Sonho de Liberdade.

Na década de 50, Peter Appleton (Jim Carrey) é um jovem e ambicioso roteirista de cinema que se torna, por engano, alvo do macarthismo. Acusado de seguir a doutrina comunista, ele perde seu emprego e acaba sofrendo um acidente em que seu carro cai em um rio. Sem memória e levado pela correnteza para perto de uma pequena cidade do interior da Califórnia, ele acaba sendo confundido com Luke Trimble, o filho do dono da sala de cinema local (Landau), que desapareceu em meio a 2ª Guerra Mundial. Após assumir a identidade de Trimble, ele então redescobre a magia do cinema ao iniciar a reforma da sala e prepará-la para sua reestréia.

O mais interessante de se ver é o quanto Jim está desprovido de qualquer trejeito que o pudesse relacionar aos seus cômicos personagens anteriores. Segundo palavras, à época, do próprio Martin Landau: Caso este filme fosse rodado em 1951, o personagem de Jim seria interpretado por James Stewart. Ele tem todas as características de um personagem de Stewart. Há uma incrível complexidade e ele não tem trejeito algum. Não há um momento sequer de artificialidade no roteiro. Ele é puro, e Jim se prepara todos os dias de uma maneira maravilhosa. A garantia de Landau: Muitas pessoas vão ficar surpresas. É um prazer vê-lo interpretando um ser humano de verdade, um personagem realmente complexo. Tem sido um grande desafio para Jim. Percebo porque ele quis participar deste filme.

Hoje, ao longe, comentando este lançamento de 2002 [aqui no Brasil], é pena que tenha tido tão baixa receptividade. Atrelado somente à sua imagem de ator cômico, é difícil que algum filme de Jim Carrey em que atue de maneira séria possa romper os preconceitos de espectadores médios.