01 junho 2004


A perspectiva do sutil abandono


Entre os passantes à sua volta, o mesmo vento que se resumia a brincar com seus cabelos e espalhar sua brisa suave por entre as árvores do campus, só o enchia de mais agonia. Não o encantava – ainda que somente não àquela tarde – toda a herança poética a que tardes sem sol, com vento suave a espalhar sua brisa por entre as árvores pudessem lhe remeter. Só o perseguia a persistente e incômoda agonia, o sentimento de não estar presente, quase uma sensação de intruso em meio a uma felicidade alheia que, se não se pronunciava por demonstrações mais alaridas de risadas e galhofas (ao longe, mesmo assim, conseguia identificar os sons de quase cinematográfica festividade: traquinagens que deviam envolver puxões nos cabelos e outras próprias de jovens na flor da demonstração dos instintos sexuais), ainda assim lhe vinha aos jorros até os ouvidos.

Não se comportava como o mais rabugento dos velhos, não chegava a resmungos e cara feia para todos que lhe cruzavam o caminho e pareciam trazer estampado em seus rostos um sorriso imperturbável e sereno. Na verdade, o espantava era a sustentação de tais sorrisos. Parecia-lhe que a felicidade alheia era um sentimento contínuo, não os efêmeros instantes a que estava acostumado, os poucos momentos de risos a que se permitia em raros momentos de alegria extremada. Queria fazer contas das últimas vezes em que se sentiu realmente tomado de toda esta felicidade. Já se ia tempos em que não se dedicava a estas brincadeiras mais infantis; ainda que - mesmo neste momento em que o quase azedume se tornava parte persistente de seus dias - lhe parecesse complicado trazer à zona mais viva da memória o encanto daqueles dias em que puxar o cabelo das meninas e bulir com suas mochilas e penduricalhos diversos constituía a mais excitante das brincadeiras, quando conseguia fazê-lo, o encanto destes tempos não se esvaía. Certo é que não chegava à intensidade de fazer-lhe esboçar o mesmo sorriso bobo que se formava no rosto do ruivo sardento que cruzava ao seu lado, mas a verdade é que a sensação de euforia simples, do prazer corporal com uma pessoa do sexo oposto, naquela idade tão tenra onde cada pequena brincadeira se assemelhava aos mais fascinante dos jogos sexuais que teria na idade adulta, ainda assim lhe era vívida.

É bem provável que somente a lembrança destes tempos fosse a mola impulsora que o fazia sentir-se, senão agradavelmente ligado a estes jovens que gritavam ao longe, nas brincadeiras de criança, ao menos com um pouco mais de ânimo para atravessar o campus sem achar que cada vento que lhe remexia o cabelo – e brincava por entre as árvores – fosse algum enviado de quem-quer-que-fosse para atazanar-lhe ainda mais o dia.

Na verdade, a agonia era mais próxima a sentimentos depressivos do que seria a birra de um velho indignado com a felicidade alheia. Esta, somente lhe incomodava por remeter-lhe a lembrança de saber não sê-lo. Feliz. E se a felicidade era uma predestinação universal, pensar ser um dos poucos entes no mundo a não possuí-la, era o que o envolvia em ainda mais tristeza do que irritação. Irritava-o a falta de jeito: em algum ponto entre sua criação e colocação solene no mundo, esqueceram-se de lhe embutir um manual de instruções. Todos os seus atos pareciam deveras errados, por mais que se esforçasse por fazer o contrário. Todas as suas palavras pareciam soar sempre da maneira mais inconveniente possível. E seus sentimentos quase nunca iam ao encontro dos sentimentos das pessoas a que tentava atingir. A sensação de solidão era, portanto, uma constante. O não-pertencimento provavelmente fosse a expressão que mais vivamente pudesse definir seu estado de espírito naquele e em todos os outros momentos que se pudesse lembrar. E até onde se lembrava, sempre fora assim.

O paliativo de longos passeios em campus repletos de outonais folhas a cobrir seus gramados, a probabilidade de deparar-se com carrinhos de bebês rosados e rechonchudos e a facilidade com que deparar-se-ia com pessoas – e, pior, casais – a destilar sua felicidade constante, apesar de doloroso, era a estratégia que lhe ocorria então. Ao menos desintoxicava-se do quarto escuro, das mesmas músicas insistentes e da sensação de paredes fechando-se ao seu redor. Como o telefone já não tocava, tanto lhe fazia não ouvir ninguém lhe falando diretamente na solidão do quarto ou no luzidio amarelão do dia que enfrentava para não chegar a nenhum lugar.

Na melhor das hipóteses, alguém o chamaria por engano por um nome que não seria o seu.