30 julho 2004

Não sei quem teria sido mais ingênuo: os produtores [acho que só os nacionais] que tentaram vender o filme como uma boba comédia romântica estreada por Jim Carrey e Kate Winslet, ou os que compraram esta idéia, indo comparecer em bolo no cinema achando que iriam assistir a uma boba comédia romântica estrelada por Jim Carrey e Kate Winslet. E ouvi dizer que teve gente saindo do cinema exatamente quando se deu conta deste último não proceder.

Este seria um bom momento para perguntar por quê, afinal, Jim Carrey ainda "perde tempo" fazendo comédias quando é um fantástico ator dramático? Mas, como esta pergunta seria tão envolvida do preconceito de quem considera a comédia um gênero menor, que nem cogito em fazê-la, e reconhecer somente a versatilidade deste ator - um grande ator de comédias e um grande ator dramático, coisa que eu já tinha comprovado desde O Show de Truman e Cine Majestic. Não obstante, no entanto, todas estas considerações que podem ser feitas acerca do trabalho dos atores do filme - ei, alguém quer fazer uma análise fílmica da carreira de Kate "Titanic" Winslet? Acho que não... - já parto do princípio de que eu fui assistir a Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças por ser um fã de Charlie Kaufman. E ele definitivamente não decepciona a quem procura por filmes diversificados dentro de uma grande quantidade dos que estão em cartaz normalmente no circuito comercial. E, aos poucos, mesmo se tornando o queridinho do mainstream - e entrando para aquelas ridículas listas que decidem quem são os mais "poderosos" dentro do cinema -, cortejado pelas mais diferentes celebridades a fim de fazer um filme com ele; enfim, Charlie Kaufman é um hype, e até agora não cedeu à formula fácil e continua escrevendo filmes para quem está a fim de algo mais do que a mera contemplação novelística.

E o melhor é que desde o argumento de seus filmes o cara já é genial. A forma é um caso à parte. Mas já partir da criação da história de uma empresa que possibilita apagar memórias consideradas dolorosas por qualquer pessoa que se disponha a pagar o seu preço, é algo realmente genial (destaque para a velhinha querendo se livrar das lembranças de seu cachorrinho...). Já, se considerarmos a forma não convencional com que a história é contada, a montagem alucinada, os grandes achados de detalhes que se interrelacionam é um trabalho danado.

Charlie Kaufman poderia ser simplesmente um virtuose com todo o seu domínio técnico de roteiro, esbanjar esnobismo na criação de situações em que comprovasse o quão habilidoso é. O importante é que vai além disto. Utiliza estes elementos como verdadeiras ferramentas para contar histórias envolventes e cuja reflexão acaba resultando em aprofundados estudo d'alma. Desde Quero Ser John Malkovich, naquela louca busca por uma identidade que fosse mais interessante que a sua própria, Kaufman tem provado que o que lhe interessa, realmente, são as pessoas e suas ambições e medos e fraquezas, sentimentos inerentes à todos.

E neste filme não é diferente. Os esforços de Joel (Carrey) para manter viva a lembrança de Clementine (Winslet)  são o grande atrativo de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. A corrida enlouquecida por sua própria mente, tentando esconder Clementine em algum recôndito canto não mapeado pela empresa Lacuna, quando já se encontra arrependido de ter solicitado o serviço de apagamento dela de sua memória - depois que descobriu que ela solicitou tal serviço primeiro - é genial. Faz lembrar a seqüência de Quero Ser John Malkovich, é lógico, mas vai além. Guardar as lembranças de um relacionamento mal sucedido, ainda que nem todas possam ser tão agradáveis, já que a vida real não é um filme perfeito, é o que Joel acaba descobrindo ser mais rico do que simplesmente não ter nem noção de que alguém tão maravilhoso como Clementine algum dia apareceu em sua vida.