30 julho 2004

O grande problema de Efeito Borboleta [The Butterfly Effect, EUA, 2004] é ser pretensioso demais. “Não o fosse”, dirá o atento leitor, “nada aconteceria!”. Concordarei parcialmente para justificar que, realmente, se não tivesse por parte dos roteiristas e diretores Eric Bress e J.Mackye Gruber (realizadores do ótimo Premonição 2) uma pretensão de ser algo além da vala comum, passaria incólume pelos cinemas como mais um projetinho de Ashton Kutcher que não dá muito certo. Com o diferencial de se tratar do primeiro papel dramático da carreia do citado ator. E, talvez aí resida um dos maiores problemas do filme: Ashton Kutcher não consegue emprestar a carga dramática necessária para o pesado papel. É por demais canastra, distrai o espectador com certos tiques que remetem às suas comédias (e, para mim, lembrar de A Filha do Chefe é praticamente insuportável) e não parece à vontade, sem que ele próprio consiga se levar a sério. Nota-se seu esforço, mas não é o bastante. A pretensão em querer que ele segure o filme é demais - talvez o fato de ele ser produtor executivo do filme tenha pesado realmente em sua escolha.  Agora – e contraditoriamente – é esta mesma pretensão que também o salva. Os realizadores são ambiciosos e o argumento utilizado é bastante interessante.

Depois de passar a infância e a adolescência tendo crises que ocasionam perdas constantes de sua memória, o jovem Evan (Kutcher) descobre, por acaso, que a leitura de seus antigos diários, que utilizava como exercício de fortalecimento da memória, pode levá-lo para diversos momentos cruciais do seu passado, permitindo que ele altere certas situações que, no presente, resultaram em graves repercussões para várias pessoas. O problema é que cada vez que ele volta, e opta por seguir um caminho diferente e evitar que determinada pessoa tenha um futuro terrível, ele acaba alterando uma realidade de então e proporcionando más conseqüências para outro personagem.

Pode-se dizer que, basicamente, os momentos que ele retorna para alterar são três: na infância, uma tarde sob a proteção do pai da namoradinha em que este insiste na realização de um filme com sua própria filha, Kayleigh (Amy Smart) e Evan, sugere-se práticas pedófilas que alteraram a vida dela; outra, quando da explosão de uma bomba, cujas conseqüências são por duas vezes desastrosas e a terceira, uma surra que levou de um ex-amigo, o irmão de Kayleigh.

Como a cada vez que Evan retorna ao passado, algo é consertado e outro ponto destruído, ele se utiliza de seus diários como uma máquina do tempo para ir e vir a todo momento: o que pode parecer enfadonho para quem não comprar a idéia desde o começo do filme (que tem o mérito de uma introdução “normal” em que acompanhamos cronologicamente o desenrolar destes fatos na infância de Evan e seus amigos), e que, em sua essência, aponta para uma certa superficialidade no roteiro, já que ele sabe exatamente em qual ponto deve voltar para consertar o presente.

São tantos os pontos que dão errado que, em dado momento, quando retorna para evitar a explosão da dinamite que ele e seus então amiguinhos colocaram em uma caixa do correio, que mataria uma mulher e seu filhinho, ele acaba ficando mutilado e, ao acordar em um presente em tudo está perfeito, a não ser pelo fato de ele não ter os dois braços e estar paralítico, os roteiristas resolveram criar uma terrível doença em sua mãe – de razão muito rasamente explicada – somente para que o fato de Evan voltar ao passado não parecesse um recurso egoísta para “consertar” sua própria deficiência, ainda que, mais uma vez, isto alterasse negativamente o futuro de outro personagem.

O que é ruim é que o próprio mote original do filme, o princípio que permite que Evan volte ao passado, ou seja, a leitura de seus diários, é desrespeitado ao final – quando poderia ser apresentada realmente a realidade do personagem: um internado que sofre de alucinações. Mas não, recorre-se a uma estratégia muito tosca a fim de arranjar outra forma de Evan voltar ao passado e alterar beneficamente as coisas. Mesmo que isto não signifique – romanticamente falando – um final feliz.