01 julho 2004

Possibilidades

Se em todos os dias de sua vida Joana continuasse cedendo aos seus rompantes enlouquecidos, provavelmente estaríamos hoje, ambos, completamente carcomidos por reminiscências que não fecham jamais, daquela noite em que eu fiz aquilo e da outra noite em que Joana fez aquela outra coisa. Os sentimentos que nos envolveriam seriam de tão sórdida pequenez, que trocarmos olhares que não estivessem impregnados de ódio e outros sentimentos menos nobres, seria um desafio diário a cuja complexidade dedicaríamos todo o resto de nossos dias.

Se em algum destes dias em que Joana, por um motivo qualquer ao qual não ouso fazer alusão até mesmo por não compreender com toda a intensidade a sua motivação, se sentiu incrivelmente tentada a ter um rompante enlouquecido (coisa baixa, envolvendo preferencialmente gritos histéricos na janela do nosso apartamento de fundos, - fazendo do duto de ventilação um elemento de reverberação sonora mais do que desejável em tal situação - arranhões nas partes de minha pele que mais estivessem a seu alcance e rasgos em minhas roupas para que ela pudesse alcançar todas as outras partes, mais sensíveis e comumente não expostas ao olhar público), não tivesse se detido por parcos instantes e analisado a imbecilidade da sua situação emocional, provavelmente não estaríamos aqui, hoje, reunidos a comentar, risonhos, tais momentos, como se lembranças doces de alguma viagem à Suíça, fossem.

Neste momento, é mais do que certo, há uma gama de possibilidades que se abrem para o estado em que eu poderia me encontrar, se Joana não encontrasse o bom senso e passasse a regrar as suas ações por pequenos instantes de reflexão antes de possíveis rompantes enlouquecidos.

Na mais extrema das possibilidades, eu me vejo à saída de algum destes bancos eletrônicos, a mendigar trocados, junto com uma mulher e uma criança muito nova e muito ranhenta, compondo o cenário deprimente que possibilitaria que eu, com as parcas moedas conseguidas, tivesse justificativa para gastá-las em garrafas de alguma cachaça muito vagabunda, que acelerariam ainda mais uma cirrose, consumindo-me em questão de meses e acabando com um suplício que algumas raras moedas diárias fingiam adiar. Considerando, no entanto, que tal possibilidade se mostra por demais extrema, e que, sem falsas modéstias, creio que ainda na pior das bancarrotas, imbuído de alguma de minhas poucas, porém sinceras habilidades, eu seria capaz de engendrar algum serviço mais nobre do que este primeiro e que prolongaria a minha existência de maneira simples, porém honrosa. Por isto, levando em conta todas as conseqüências que o fato de Joana continuar cedendo aos seus rompantes enlouquecidos poderiam acarretar, eu não vou muito mais adiante em considerar que, em alguma noite em que um destes seus rompantes tivessem me enervado de tal maneira que eu tenha sido tomado por uma insanidade ainda mais contumaz, e atingido-a violentamente com algum objeto pesado o bastante para causar uma lesão de ordem mortal em sua cabeça (descontando que a possibilidade de feri-la repetidas vezes com algum objeto pontiagudo, ainda que comumente relacionado a crimes passionais, me parece que necessita de tal habilidade e precisão, que não considero esta com uma das alternativas mais viáveis para um crime cometido sob o calor de forte alteração) e, com isto, tenha sido encaminhando para um destes fabulosos institutos de correção, eu tenha conseguido sair de lá, com a ajuda de um advogado do estado competente o bastante para arranjar-me uma liberdade condicional por bom comportamento.

Sem considerar, já por antecipação, possíveis traumas emocionais que a prisão teria me trazido, mas dando especial ênfase que tais possíveis traumas não teriam sido ampliados pelas minhas habilidosas formas de escapar de ser currado na prisão, eu chego a conclusão que, depois disto, é bem provável que eu teria conseguido um emprego em uma destas pequenas cooperativas de reciclagem de lixo, e que, após alguns meses de bom trabalho, com meu razoável bom nível de quociente intelectual, eu já estaria galgando níveis mais elevados na pequena hierarquia trabalhista que se estabeleceria em tal cooperativa. Dando o espaço para o adendo de que meus atributos físicos não são por demais desprezíveis, e que mesmo em tal situação, me seria possível despertar olhares um pouco mais interessados de alguma colega de trabalho, estou disposto a crer que dentro de outros poucos meses, eu estaria efetivamente envolvido com esta colega. Com certeza, dentro da mesma brevidade, estaria dividindo o espaço ínfimo de um barraco com ela e mais uma filha pequena do primeiro casamento, o que acarretar-me-ia, dentro em pouco, uma série de pequenas despesas que a vida solitária até então não me exigiria. Como novo principal provedor do lar, seria o responsável pela séria de compras, manutenções, reparos, gastos com alimentação, saúde, lazer, e todos estes pequenos itens que fazem parte dos elementos constituintes de uma família, por mais rota que ela seja.

Mesmo crendo que os traumas emocionais supracitados não teriam se estabelecido em sua forma mais grave – se considerar como verdadeiros todos os caminhos sugeridos acima -, não seria uma situação de completa desonestidade pensar que, atenuados com esporádicos e relaxantes goles de uma boa cachaça, tais traumas se encontrariam em estado de quase completa inatividade. Levando-se em conta que o vício que estas freqüentes ingestões de cachaça tratariam de desenvolver, não é preciso ser um especialista em medicina ou nas propriedades químicas do álcool para ter certeza de que, dentro em breve eu estaria imerso no mais absoluto alcoolismo que nem a mais dedicada das mulheres e o mais eficiente dos serviços de ajuda aos alcoolistas seriam capazes de resolver. Caso eu considerasse como válida a primeira afirmativa, trataria, portanto, de atenuar as dolorosas lembranças de meus tempos de cárcere com generosas e cada vez mais freqüentes ingestões de todos os destilados que se fizessem próximos a mim. Quando não próximos, trataria de buscá-los onde pudesse e de patrocinar a sua compra com os parcos rendimentos que o trabalho na cooperativa de reciclagem de lixo me proporcionariam. É fato notório, porém que, dentro em breve, pobre e desfeito de qualquer ajuda de custo para manter o provento do lar que eu teria assumido, uma séria de discussões começariam a se desencadear entre eu e minha companheira. Como vítima destas cada vez mais violentas discussões, que tratariam de estender-se noite adentro e em proporções cada vez mais aterradoras, estaria a pequena filha de minha companheira.

Apesar das possibilidades por mim consideradas se dividirem em centenas, quiçá milhares de subdivisões, com seus agravantes, conseqüências e caminhos tortuosos diversos, não quero levar tal gama de chances aos píncaros da sordidez. Por isto, desde já, não quero chegar a crer na possibilidade que haveria de ser desperto em minha pessoa tão baixos instintos que pudessem levar-me a (uma vez, motivados pelas freqüentes brigas que meu alcoolismo e não-contribuição para o lar acarretariam, é bem verdade que qualquer tipo de contato sexual entre eu e minha companheira não mais se dariam. Como, quando menos se espera, revela-se no homem os mais podres sentimentos, é uma possibilidade, e, mesmo que fosse tremendamente desprezível sequer chegar a cogitá-la, cogitá-la-ei) praticar atos completamente ilícitos contra a menina que viria a ser minha enteada. São possibilidades, repito, que se abririam a mim, e, como tal, relegado aos mais baixos princípios morais por uma série de agravantes, entre eles o maldito vício em álcool, é bem provável que mergulhado nesta situação pudesse chegar ao extremo de emporcalhar-me na pedofilia. No entanto, como suponho que não posso ir adiante em cogitar ainda mais possibilidades vis e tortas a que toda a seqüência de fatos pudessem ter me levado, creio que ater-me neste ponto já está mais do que de bom tamanho.

E neste ponto também é bastante aprazível de lembrar que se em todos os dias de sua vida Joana continuasse cedendo aos seus rompantes enlouquecidos, provavelmente estaríamos hoje, ambos, completamente carcomidos por reminiscências que não fecham jamais, daquela noite em que eu fiz aquilo e da outra noite em que Joana fez aquela outra coisa. Os sentimentos que nos envolveriam seriam de tão sórdida pequenez, que trocarmos olhares que não estivessem impregnados de ódio e outros sentimentos menos nobres, seria um desafio diário a cuja complexidade dedicaríamos todo o resto de nossos dias.

Como Joana passou a controlar-se em seus rompantes enlouquecidos, ainda que a custa de medicamente por demais poderosos, ajuda médica, dedicação praticamente diária de minha pessoa e outros recursos mais, acabamos por conseguir viver felizes.

Ao menos até hoje.


Publicado originalmente na edição 80 do Simplicíssimo.