23 julho 2004

 Até que "Jogo de Sedução" começasse realmente a deslanchar, eu estava praticamente convicto de que o único motivo que justificaria a minha permanência no cinema até o final da projeção, fosse a [por mim] desconhecida e maravilhosa surpresa que era ter consciência da existência de uma atriz espanhola chamada Natalia Verbeke. Os motivos, fora os que podem ser facilmente adivinhados pela foto ao lado, se devem também ao fato de ele ser uma ótima atriz. É fato, no entanto, que de maneira genérica, o atrativo maior do filme é o ator sensação do momento Gael García Bernal, despontando tanto pelo filme de Walter Salles "Diários de Motocicleta"  quanto pelo ainda nem visto por aqui e já muito comentado "La Mala Educación", de Pedro Almodóvar.  Para mim, que não  havia assistido ainda a nenhum filme dele, uma coisa é certa: são verdadeiros e merecidos todos os elogios que têm recebido; afinal, até o momento em que eu pensava que Jogo de Sedução se tratasse de somente mais uma destas comédias românticas bobas se aproveitando do hype de alguém do elenco, o personagem de Gael, Kit, já convencia imensamente no papel de um sedutor meio sensível e tímido. A verdade, no entanto, é que seria uma tremenda injustiça para a já citada Natalia, mas também com outro ator, James D'Arcy  [que estará no filme "Exorcist: The Beginning"], se o crédito fosse dado somente a Gael.
 
É certo que ele é o motivo para atrair centenas de meninas adolescentes ao cinema a fim de assistir a mais uma comediazinha romântica com o ator da hora. O lance é que, tal qual eu, estas meninas serão surpreendidas por um filme que, ao final, é bastante diferente do que se esperava. Certo é que um dos motivos para o engano é o título que foi dado para ele aqui no Brasil. Em seu nome original, "Dot the i" (ao pé da letra "colocar pingo no i"), é referência a algo que, em certa altura, Carmen [personagem de Natalia], fala a Kit "beijar é colocar o pingo no i da palavra amor". A frase é dita em francês e ao traduzi-la para o inglês, os dois logo vêem que ela perde o sentido. Logo, o título em inglês [desta produção americana, não obstante a presença de Gael e Natalia, com direção do também roteirista estreante Matthew Parkhill] tem um contexto que foi definitivamente destruído por seu título aqui no Brasil. "Jogo de Sedução" é tão prosaico que poderia atrair pelo mesmo motivo que o nome "Atração Fatal" atrairia. Ah, e a propósito, "Atração Fatal" [Attraction Fatale] é o título que o filme recebeu na França. Consolemo-nos, pois.

Ok, a trama: Carmen [Natalia Verbeke] conhece Kit [Gael García Bernal] na sua despedida de solteira em um restaurante francês em Londres. O garçom diz que na França a tradição manda que a noiva escolha uma pessoa para um último beijo. O que deveria ser um símbolo de adeus à vida de solteira acaba se tornando o mote inicial do filme e um grande problema para Carmen, pois se apaixona por Kit estando prestes a se casar. Voltando para a casa de seu noivo, Barnaby [James D'Arcy], ela tem a impressão de que está sendo seguida e o principal suspeito é o ex-namorado que ela deixou para trás em Madri, sua terra natal.

Parece que, temos, portanto, todos os ingredientes para um romance em que moça se apaixona por quem não devia e dá início a um triângulo amoroso de incertezas e alguma dose de mistério. No entanto, é quando nos dispomos a ir além das aparências é que as coisas começam a ser desmascaradas. O grande jogo que se forma daí por diante começa a dar um tom completamente diferente ao filme. Se no início nada temos demais além das risadinhas de um Kit que se diz apaixonado por Carmen e não lhe propõe um porto seguro, enquanto esta se debate em arrependimentos e amarguras por estar traindo seu noivo, questionando-se se fará a coisa certo em casar com ele, ao longo da trama as coisas vão se desenrolando com tal intensidade e diferenciação, que a trilha sonora não é o único elemento a ser utilizado para denunciar esta estranheza. O diretor usa muito o recurso de video digital, também. Não gratuitamente, como se verá logo a seguir. Desde o personagem de Gael, que já aparece registrando o tempo todo com uma pequena câmera a moça toda vez que a vê, até inserções de imagens que se vêem que são claramente feitas por um personagem que espreita, o motivo se explica mais adiante. Da mesma maneira que, o que parecia ser somente uma quantidade enormes de furos na história, começa a ser preenchido de tal maneira que, ao final de "Jogos de Sedução" tudo estará magistralmente amarrado e surpreendendo ao público.
 
É de se esperar que atores em começo de carreira, mesmo após grandes sucessos, com reconhecimento de pública e crítica, comecem a cair nas armadilhas de sua profissão e se deixem levar por produções cujo apelo financeiro é o único atrativo para si. No entanto, é bom saber que, ao menos nesta produção, Gael não deu um passo neste sentido. Se seu personagem parecia inicialmente um tanto quanto sem atrativo extremo para protagonista da história, é como uma cebola sendo descascada que ele vai mostrando as nuances do mesmo e quão fundo ele pode estar mergulhado em uma trama em que nada é o que parece.