17 agosto 2004

Depois dos minutos iniciais, em que assistir a Monster se resume a se encantar/fascinar/estranhar com a maquiagem da maravilhosa Charlize Theron, todo o resto do tempo pode ser utilizado para se dar conta de quão justificado foi o seu prêmio de melhor atriz no Oscar. E que ótimo filme foi feito, não somente por causa da própria Charlize, mas também em grande parte - e, para mim, sempre é um prazer ver filmes com ela - pela presença de Christina Ricci.

O grande problema de vermos filmes que são baseados em fatos reais com personagens assasinos e/ou psicopatas, é a probabilidade de nos encantarmos ou acharmos justificáveis as suas atitudes, senão por fatores morais, explicações ralas que os filmes tentam nos empurrar, ao menos pelo próprio fascínio que a interpretação de um ator competente é capaz de despertar. E, mesmo Charlize tendo engordado quatorze quilos para fazer este filme, estar realmente repugnante com sua maquiagem para se assemelhar a serial killer (que realmente existiu) Aileen Wuornos, - que matou sete homens em 1989, sendo executada em 2002 - até por todo o estardalhaço que se dá nestas horas à pesada caracterização da atriz, nunca nos esquecemos, infelizmente, de que temos, ali, Charlize Theron, interpretando muito bem Aileen Wuornos. Daí o motivo, então, se entrarmos em juízos de moral, de querermos compreender as motivações desta assassina em seus atos.

Atos que, com certeza, em suas conseqüências, não espantariam o mais tarimbado psicólogo: Aileen Wuornos é uma prostituta cuja infância é marcada por abuso sexual (inclusive de seu pai) e de uma vida de utilização como objeto. No entanto, é depois de ser agredida violentamente por um cliente que vem à tona todo o seu ódio então reprimido e que começa a explodir em uma série de atos semelhantes.

Nem mesmo o envolvimento com a única pessoa que lhe trata bem, e com a qual tem um caso, Selby, a jovem lésbica personagem de Christina Ricci, faz com ela deixe de trilhar seu caminho de mortes. Aliás, é por este envolvimento, na realidade o ponto central do filme, que Aileen se justifica, utlizando-se de seus assassinatos tanto como um fato de auxílio financeiro, ao roubar suas vítimas e seus carros, e como a sua sensação de cumprimento da justiça. E, no momento em que Selby faz vista grossa para estes atos, inclusive como menina mimada, incentivando-os de certa maneira, para manter sua vida de conforto, é que Aileen dá continuidade a eles, eximindo-se inclusive de culpa, por achar todos desprezíveis e merecedores da morte.

É uma situação de ajuda mútua de duas pessoas extremamente carentes, anti-sociais, que, de uma maneira ou de outra, exigem-se condições para ficar juntar. Enquanto a carência de Aileen é suprida com o carinho de Selby, esta praticamente exige ser mantida em seu conforto e tratada como uma mulherzinha.

Certo é, que no entanto, pelo roteiro, quase toda a motivação de Aileen a continuar a sua saga de morte é devido à sua relação com Selby. É como se a justificativa - não obstante seus próprios problemas pessoais decorrentes da infância de abuso, de sua vida traumatizante como prostituta, etc - fosse continuar oferecendo comodidade a Selby, e, uma vez que esta, verdadeiramente, não se opõe a seus atos (somente quando eles começam a repercutir e envolvê-la), Aileen continua, inclusive achando-se como justiceira, declarando sua própria bondade: "Eu sou uma boa pessoa!".

Desta maneira, e pelo que se sabe da vida de Aileen, é omitido seu casamento, o fato de ter espancado seu marido e sido presa por isto e o próprio fato de seu pai ser um pedófilo (durante o filme, ela se refere a um amigo do seu pai que a abusava). Toda a trama gira em torno da relação entre as duas mulheres, solução simplista e comercial, mas que não tira o brilho deste grande filme.