27 agosto 2004

O romance é um parto sem fim.

Diferente do processo de escrever o livro de contos, onde somente as coisas que mais se destacavam ao olhar, ao ouvido, à qualquer sentido mais atento; onde abstrações as mais diversas, sons, palavras pescadas, qualquer risada poderia render argumentos interessantes, e podiam ser posteriormente transformados nas histórias buriladas e inseridas, despretensiosamente, naquele que parecia um infindável livro de contos - e, quando termina, quando você sabe que a forma está completa, que não há mais nada a ser inserido, o sentimento é de suavidade, de alívio. Enfim.

O romance é um parto sem fim.
Observação de seus próprios gestuais, de pequenos detalhes. As pessoas e seus tiques. Tudo parece detalhe aproveitável para a grandiosidade do mundo que começa a se formar conforme o seu desejo. Este papo furado "quando eu escrevo, os personagens assumem o controle", é a posia mais barata e mentirosa que já ouvi. Se um escritor, afinal - já disse Mojo, e quem não concorda? - não tiver controle no mínimo sobre o que está escrevendo, alguma coisa está errada. Sentar e deixar fluir é conversinha engraçada para seminários, palestras de fim de semana, filmes com antigas e pesadas máquinas datilográficas.

Mas o romance vai se desenhando e conforme o seu plano estabelecido. As linhas iniciais, todo o seu projeto está lá. Mas e a complexidade? Ou a simplicidade narrativa? Os atritos pessoais, as idiossincrasias, as mentiras, os erros pessoais, a humanidade. Se um romance não estiver repleto de humanidade, para que servirá? Quando estas coisas começam a surgir, a se encaixar comperfeição, aí sim a coisa está sob controle. Mesmo que isto faça surgir a necessidade constante de anotações, nos lugares mais inóspitos, dentro de ônibus, em bares com amigos... - sabendo, no entanto, que a forma final, ah, esta somente na frente de um computador...


Quando me pego sendo prolixo com a caneta, acho estranho. Não sou Paul Auster. É no teclado, com a imodesta velocidade com que meus dedos são capazes de percorrer, cegamente, seu alfabeto, que tudo acontece com mais facilidade