20 agosto 2004

O vazio e, oh!, o choque.

Você já ouviu falar deste filme, com certeza. “Ken Park” é a mais nova realização do criador de polêmicas Larry Clark. Aqui, é provável que o realizador de “Kids” e “Bully” tenha se saciado e encerrado sua produção serial de filminhos de adolescentes perdidos, desajustados e promíscuos com sua trinca cinematográfica. De “Kids” pode-se dizer que foi um marco ao mostrar de maneira tão explícita o cotidiano de adolescentes sem perspectivas, que fazem sexo deliberada e perigosamente, usam entorpecentes como quem bebe coca-cola, não têm senso de responsabilidade social, tratam suas famílias como lixo e não perdem tempo pensando no futuro. “Bully” parte do mesmo pressuposto: temos adolescentes sem perspectivas, que fazem sexo deliberadamente, usam entorpecentes como quem bebe coca-cola, não têm senso de responsabilidade social, tratam suas famílias como lixo e não perdem tempo pesando no futuro. O único ponto mais interessante levantando por este último, foi ter tocado na questão do chamado “bullying” palavra inglesa que significa ameaça ou intimidação e, embora seja ainda pouco conhecida, refere-se a uma prática freqüente nas escolas. Brincadeiras freqüentes e constrangedoras, humilhações e até mesmo agressões: tudo isso caracteriza o “bullying”. Pode ser o jovem ridicularizado por ter um defeito físico ou a menina estudiosa chamada de CDF (“cu de ferro”). Não há quem não tenha conhecido pelo menos um caso desses. Neste filme, esta humilhação é levada ao extremo pelo personagem-título, a partir de uma história real, adaptada por Clark. Em 1993, uns gurizões da Califórnia realmente mataram um conhecido deles, porque o cara era um valentão e perturbava a galera. O grande problema é que Clark tinha tudo nas mãos para contar uma boa história, mas ao abusar do pressuposto moralista (sim, por que ele, mesmo ao mostrar tudo tão explicitamente, é, na verdade, um moralista, “denunciando” uma “realidade” para chocar), tudo o que se tem são cenas tão tendenciosas que se chega às raias da ingenuidade. Seu princípio de “papai, vou te dar a real: tua filha é uma vagabunda e teu filho um drogado de merda”, como se ele fosse o dono do conhecimento que os outros ignoram, é extremamente patético. Coloca-se como o centro denunciador de um sistema do qual ele teria extrema consciência por sua “sensibilidade artística”. Patético.

Em “Ken Park” voltamos à exata mesma carga. Histórias fragmentadas, fraquíssima linearidade e coesão entre as histórias. Senão, vejamos – eis a sinopse com o qual o filme é vendido: “A rotina de quatro adolescentes da cidade de Visalia, Califórnia. Shawn (James Bullard) é um skatista que transa com a namorada e com a mãe de sua namorada. Tate (James Ransone) gosta de se masturbar várias vezes seguidas e tem um cachorro de três pernas. Ele é criado pelos avós, que não respeitam a sua privacidade, o deixando furioso. Claude (Stephen Jasso) é agredido seguidamente pelo seu violento pai, um alcoólatra que o acusa de homossexualismo, e é consolado pela sua apática mãe grávida. Peaches (Tiffany Limos) anseia por liberdade, mas tem de cuidar de seu religioso pai, um cristão fundamentalista, que a espanca após vê-la transando. Embora conversem o tempo todo, cada um dos personagens não sabe dos problemas enfrentados pelos outros.”

“Ken Park” é um filme tão absolutamente sem sentido, que a questão aqui nem é perguntar o porquê das situações apresentadas. Oquei, talvez as coisas não tenha um porquê, e acontecem por que tem que acontecer e ponto final. Mas é tão visível por parte do diretor a força empenhada para causar estranheza e, oh!, chocar aos que ele deve chamar de puritanos, que tudo, absolutamente tudo soa muito ridículo, e somente não chega a doentio por ser tudo tão dramaticamente ensaiado, metodicamente orquestrado com o intuito de uma transgressão pueril e infantilóide. O nível da coisa é tão baixo – e dá pena do diretor... – que até um cachorro de três pernas, sem nenhuma importância para a trama, o diretor se deu ao trabalho de arranjar, (e até mesmo tornar isto parte da sinopse!: “(...) e tem um cachorro de três pernas.”) e quero duvidar ser um truque digital.

Desde o princípio, todos os personagens são apresentados em seus ambientes familiares já com claros sinais de desagregação. Existe uma tensão constante querendo anunciar que as coisas não estão boas por ali, que uma hora algo vai acontecer. Algumas vezes, no entanto, há falhas graves no roteiro que não antevê certos princípios. Isto se vê no caso do personagem Claude que, apesar de em todo o resto do filme, ser mostrado como em constante atrito com seu pai, que chega a quebrar o seu skate, na primeira cena é apresentado ajudando-o a praticar halterofilismo, pacatamente. Até, claro – e partindo do nada, a não ser de uma implicância gratuita – começar a ser humilhado por ele. Na maioria das vezes, no entanto, só o que se tem é a impassividade ou a queda para atitudes injustificáveis e bobas. Tomando por exemplo a história do rapaz que vive com os seus avós, Tate. Mora numa casa confortável, é cercado de carinhos e recursos e avós que não são velhinhos inúteis: jogam o seu tênis, se divertem, são fisicamente ativos. No entanto, basta o rapaz estar “concentrado” em seu quarto criando nomes irônicos para fotos de crianças esquálidas, desnutridas como esqueletos e sua avó entrar lhe trazendo lanche, para ele ofendê-la de cadela, puta, entre outros nomes carinhosos. E ao avô se refere como mentiroso e trapaceiro por apresentar em um jogo de palavras cruzadas uma palavra que ele (Tate) desconhece. Enquanto isto, ele demonstra todo o seu masoquismo se masturbando (de verdade, em close do diretor novamente...) enquanto aperta o pescoço com um laço pendurado na maçaneta da porta.

O caso de Shawn é outro risível. Ele simplesmente é um skatista pirralho, feio, sem nenhum atrativo que transa com a maravilhosa mãe de sua namorada. E, nestas horas, temos Clark mais uma vez nos “chocando” com cenas como de Shawn fazendo sexo oral em sua sogra, ela manipulando (e, oh, close!) seu pênis por dentro da cueca. Depois, um almoço – de Ação de Graças? – reúne os membros da família – inclusive o seu sogro – e fim. Não há confronto. Tudo vem do nada e caminha para o nada. Como um apanhado de cenas perdidas, aleatórias.

Já Peaches, é a filha de um fundamentalista cristão que, na ausência do pai comete perversidades sexuais com seu namoradinho até serem descobertos – e espancados – por ele.

E Claude, outro skatista humilhado pelo pai que lhe acusa de homossexualismo, um alcoólatra que ao final, bêbado, tenta cair literalmente de boca sobre o pênis do próprio filho. É constrangedor para o mais liberal dos espectadores. O nível de exposição dos atores chega a dar dó. Eles desfilam com o pênis balançando para criar uma “naturalidade” infantil. As histórias são como uma coletânea, um apanhado ao acaso. Não há, como diz na sinopse, o “Embora conversem o tempo todo, cada um dos personagens não sabe dos problemas enfrentados pelos outros.” Eles não conversam o tempo todo. Eles não se encontram, a não ser três deles, na parte final do filme, quando todos os personagens já foram apresentados em quadros isolados, antecipados pelos nomes deles em uma tela preta, e o que se tem é um encontro inexplicável , em uma orgia sexual, entre os personagens Shawn, Claude e Peaches, de realidades diferentes e que, em nenhum momento do filme pareciam – ou houve pista de – se conhecer.

Pessoas minimamente inteligentes sabem quando estão sendo enganadas. Pessoas com a mais baixa noção estética conhecem um diretor e seus ardis e embustes para provocação. Pessoas com extrema tolerância já começam a perder a paciência com a pretensão para o artê. O vazio nada mais é do que o vazio.

Ah, e o quê, ou quem, afinal de contas é Ken Park? Ele é apresentado como um personagem (outro skatista...) que teria simplesmente dado um tiro na cabeça e gravado em vídeo. Pois é.

Tudo é decepcionante quando não tem outra justificativa além da pretensão do choque. Quando nada diz a que vem. Quando que se mostra são somente histórias soltas, personagens desfocados. Não há nem o convite ao pensamento, a reflexões do tipo: “Oh, mas será que os adolescentes são estes pobres seres sem perspectivas que têm uma ereção após cometer um crime?” Para quê aproximar tanto a câmera de um pênis no momento da ejaculação? Somente para vender o produto é claro. Porque são somente estas as “qualidades” do filme que o público irá divulgar... Poderíamos ser poupados desse tipo de “arte”. Manipular ações e reações de forma tão ensaiada não chega nem a ser um exercício cinematográfico de interesse, mesmo que revestido de muito sexo explícito para chamar a atenção do público. E eu creio que haverá um momento em que a público algum interessará tentativas tão pueris e pobres de “pintar um quadro” realista dos adolescentes e sua falta total de interesses. Haverá um momento total de boicotes a filmes que, ao subirem os créditos, nos tragam tamanha sensação de vazio, que tenhamos que nos questionar: então, realmente, terminou?

Publicado originalmente no Simplicíssimo.