05 agosto 2004

OU O FRACASSO

Uma frase dita por Jonathan Franzen me chamou especialmente a atenção: “Acho que toda vida humana se desenrola no contexto do fracasso definitivo, a mortalidade. Para mim o fracasso é mais engraçado que o sucesso. Se não estou rindo sei que não estou fazendo o livro certo.”

Jonathan Franzen, a propósito, é o autor de “As correções”, livro que só tive a sorte de ler agora. No entanto, como nada acontece por acaso, tenho a certeza de que a hora é imensamente propícia. Por quê? Porque o livro trata exatamente do mesmo tema do romance que estou escrevendo para concorrer àquela já citada bolsa da Vivo: conflitos em família. Algumas das diferenças básicas, é que a minha família não é a típica família norte-americana de Franzen e o meu patriarca não está com Mal de Parkinson. É lógico que uma série de diferenças poderão ser enumeradas, mas o que está em debate, ao menos no momento, não é o meu livro, mas sim este tema tão explorado e que parece exercer um fascínio incrível sobre os escritores: o fracasso. Franzen não é o primeiro e eu não serei o último a dissecar tal temática. É bem provável, inclusive, que o principal nome citado quando nos referimos a tal assunto, seja Philip Roth. Este, no entanto, pelos poucos livros que li, parece costumar centrar tal tema especialmente em cima da questão do judaísmo, por vezes utilizando-o como metáfora para a condição de fracassados que parece assolar grande parte dos estadunidenses. “O Complexo de Portnoy” é um bom exemplo disso. Em coluna anterior aqui mesmo no Simplicíssimo tentei dissecar um pouco de seu conteúdo, mostrando o quanto o autor utiliza-se de recursos cômicos para fazer uma crítica a esta nação que parece definir-se somente entre os winners e os losers – o que acaba tornando ainda mais agridoce a sua crítica ao fracassado de meia idade.

O recurso cômico, aliás, também é muito utilizado por Jonathan Franzen neste seu “As Correções”. Franzen por vezes é hilário, descrevendo em terceira pessoa os seus personagens e esmiuçando os seus pensamentos e palavras, procurando retirar mais do que a vaga noção que poderiam exprimir. Uma mãe fazendo perguntas para a namorada do filho, por exemplo, esconde intenções implícitas facilmente perceptíveis ao filho mais atento: “Você mora na cidade?, perguntou Enid. (Não está coabitando com o meu filho, ou está?) E também trabalha na cidade? (Têm um emprego assalariado? Não é de alguma família estranha, esnobe e endinheirada do Leste?) Cresceu aqui mesmo? (Ou vem de algum estado do outro lado, onde as pessoas têm um coração generoso, os pés no chão e muito pouca possibilidade de serem judias?) Ah, e a sua família ainda mora em Ohio? (Será que os seus pais por acaso deram este passo dúbio e moderno de se divorciarem?) Tem irmãos e irmãs? (É filha única mimada ou será católica, com milhões de irmãos?). Tendo aprovado Julia neste exame inicial, Enid voltou sua atenção para o apartamento.”

No título “As Correções”, a tentativa implícita de cada um dos personagens de corrigir os seus pequenos ou grandes erros. Suas vidas tomadas por tentativas frustradas, por decisões errôneas, por caminhos tortuosos. Dizem que é difícil se identificar e simpatizar com seus personagens. Talvez. Chip, por exemplo, é o filho do meio da família em questão no livro, os Lambert. Mora em Nova Iorque, e é um roteirista frustrado e imaturo, que se debate para saber se é realmente apropriado (ou se não é por demais machista!) a quantidade da palavra “seios” que aparece no seu roteiro recém enviado para uma produtora. Na real, até que um envolvimento com uma aluna faça sua então carreira de professor universitário ruir, dá aulas. Em pouco tempo, estará metido na Lituânia em um esquema de fraude e se aproveitando das recentes transformações econômicas capitalistas que fazem com que o país seja praticamente revendido a banqueiros. A família Lambert é composta ainda pelos patriarcas Alfred e Enid – que vivem às turras, num cotidiano modorrento e irritadiço que é composto por críticas mútuas, falta de paciência de Enid em relação ao seu marido, a doença cada vez em maior grau de Alfred, e decisões e opiniões fúteis de sua mulher em relação aos filhos e à decoração da casa –, o filho mais velho Gary – a princípio, um banqueiro bem sucedido morando na Filadélfia (ao contrário dos seus pais, moradores de uma cidade do Meio-Oeste chamada Saint Jude, em estado nunca definido) com sua esposa Caroline e seus três meninos. No fundo, um paranóico com fortes e cada vez maiores crises depressivas, levando seu casamento à um estado terminal -, e, por fim, temos Denise, a filha mais nova, uma chef de cozinha com seus vinte e três anos que, no auge de sua beleza, tem um casamento com um chef – “judeu demais”, na opinião de sua mãe – arruinado, antes de ver a sua própria carreira ser destruída por sua tumultuada vida sexual. Todos personagens com problemas demais, talvez com uma capacidade acima do normal – como Chip e Denise – de tomarem decisões muito erradas em suas vidas quase o tempo inteiro. Ainda assim, não caricaturas. Não formas plásticas demais. De uma maneira ou de outra, todos tentam algum artifício, por mais perene que seja, para colocar como que panos quentes, esparadrapos para tentar consertar suas vidas, meros simulacros de felicidade.

O tema do fracasso deve ser tão fascinante por que é um destino do qual, na realidade, fugimos. Talvez seja o caminho natural. Ou seria pessimista demais dizer que as exceções são os que consegue destaque – e que é, por acaso, o sucesso. Que, para Jonathan Franzen, por exemplo, é formado de momentos esporádicos. Um exagero de sua parte, temos de convir. Quando lançou este seu “As Correções”, era um escritor com relativo reconhecimento por seus já destacados romances anteriores, mas nenhum blockbuster desta grandiosidade. Tinha publicado “The twenty-seventh city”, “Strong Motion”, por exemplo. Quando lançou “The Corrections”, foi agregado a um Clube do Livro mantido pela famosíssima apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, que costumava oferecer um jantar a seus autores pertencentes a este grupo. Quando Franzen negou tal deferimento, conquistou não somente o ódio de Oprah, mas, além de algumas manifestações enfurecidas sobre o insistente jeito “blasé” de alguns escritores (para não dizer esnobes!), conquistou também uma vendagem absurda de seu livro, que somente nos Estados Unidos já passou de um milhão de exemplares. Diz que se achava “diferente demais” dos outros títulos pertencentes a tal clube, e não “conseguia entender” como fora parar nele. Humildade? Fuga do sucesso? Ou estratégia de marketing? Como tudo é passível de discussão hoje em dia, não podemos dizer que simplesmente Franzen estava querendo continuar a viver no seu “fracasso” entocando-se desta maneira.

Apesar do que o mesmo diz:“Toda minha vida foi um grande fracasso pontuado por momentos esparsos de sucesso”, parece que, uma vez incluso no rol dos considerados vinte melhores jovens romancistas americanos, já é tempo de Jonathan Franzen se dar conta de quanto sucesso faz.


Publicado originalmente no Simplicíssimo.