22 setembro 2004

E depois, se era somente um café, não havia motivo para que se encontrassem tão sem graça, os dois, como se estivessem cometendo algum crime, olhando a todos em volta como se fossem presença assustadora ou o simples rapaz que se aproxima perguntando se quer comprar rosas lhe parecesse um inimigo, um espião. Talvez você soubesse que não era somente um café – tanta coisa em jogo, os dois ali, com o aspecto mais natural que poderiam compor, mas somente pensar a respeito já indicava que alguma coisa não estava certa. Quanto mais você pensava sobre a calma dela, mais se assombrava com o seu nervosismo, e quando pensava sobre o seu estado de nervos (e isto é coisa que você tem desde a infância, esta mania de atucanar-se com tremores na maioria das vezes imaginários), mais nervoso parecia que você ficava. E uma vez assim, eram as coceiras, a testa suando, a pele já naturalmente gordurosa então luzidia e a falta do que falar. Se o café já frio, a espuma se desfazendo no vidro, você indeciso entre pedir mais um e olhar para ela ou mexer com a colher de madeira o resíduo não mais marrom escuro e não se lembrava mais de ter bebido tão amargo algum dia.

“E então...”, sempre e então, porque é preciso se ter por onde começar, ou ao menos justificar o porquê. A pergunta mais certa talvez fosse “Por que...”, mas como elas adoram começar com então, então, você procura o motivo, o seu motivo. Não mais que qualquer palavra, o que servisse para parecer mais natural, tudo tão natural mesmo quando não era.

Mas não é só você. Ela disfarça melhor. Somente isto. Elas sempre disfarçam melhor. Nasceram com a naturalidade, a dissimulação tão segura. Mas fite os olhos dela somente dois ou três segundos, sem titubear. Ela vai mudar a direção. Sorrir encantada com o menino com os balões de gás ou o bebê com o laço rosa. E não lhe parecerá mais tão segura. Saberá da vontade de estar ali também, mas manterá o questionamento que não se esvai nem mesmo quando o garçom traz outras duas xícaras de café. Talvez amargo lhe desça melhor já que o açúcar não faz diferença. A sensação de limpeza, o quente descendo garganta abaixo e já poderá ensaiar um caminho qualquer para saber por onde começar.

E depois, tudo, desde o princípio. Será melhor se por aí.