09 setembro 2004

M. Night Shyamalan defininitivamente armou uma arapuca para si mesmo quando se trancou no princípio de que seus filmes se resolveriam com um final surpreendente. Se desde “Sexto Sentido” tem sido assim e, neste, ele conseguiu um feito inteligente, com uma trama que se justificava mesmo à uma segunda e terceira análises, é extremamente perceptível como nos filmes seguintes ele foi perdendo a mão – como roteirista, nunca como diretor, já que é fantástico neste quesito – e nos ofertando tramas previsíveis e, na maioria das vezes, sem qualquer possibilidade de verossimilhança.

A coisa flui para o mesmo caminho neste seu “A Vila”. Mais uma vez temos a prova de quão bom diretor ele é: seus planos são realmente fascinantes, os silêncios empregados com grande astúcia em um gênero de filme que se caracteriza por gritos e trilhas sonoras ensurdecedoras e a direção dos atores é outro grande ponto primor. O grande problema, mesmo é, conforme o filme vai chegando perto do final – e, aqui, nem é preciso que este chegue em definitivo: a “supresa” já nos é revelada, frustrando-nos pateticamente, pelo meio do filme – e os furos do roteiro vão aparecendo em uma quantidade, esta sim, realmente supreendente. É lógico que para fãs ardorosos, se pode inventar mil e uma justificativas para cada uma destas falhas que são evidenciadas ao longo da história; o grande problema, no entanto, é constatar, livre de emoções, a quantidade de furos que somente estão ali para justificar a história: são princípios não trabalhados com o devido respeito pelo espectador, balela inacreditável demais mesmo para aquela “ingênua” aldeia do século XIX em que, a princípio, pensamos que a trama se passa.

A sinopse da história: a história envolve um pequeno vilarejo cercado por uma imensa floresta. Segundo contam os líderes da comunidade, criaturas aterrorizantes (que são tratadas por “Aquelas de Quem Não Falamos”) habitam o bosque em torno deste vilarejo e só não atacam os humanos em função de um acordo estabelecido há muitos anos: eles não incomodam – e isto implica em não ultrapassar um limite territorial antes do bosque, e as criaturas não chegam até a vila, desde que sejam alimentadas com grandes pedaços de carnes que são atirados para as criaturas de tempos em tempos. Outro dos princípios dos habitantes do vilarejo é não ostentar a “cor ruim” de nenhuma maneira: o vermelho, mesmo em singelas florezinhas pelo gramado, não é permitido na aldeia. Princípio este que, em nenhum momento é explicado, e temos que crer se tratar somente de um ardil dos moradores para encher o que descobrimos depois ser uma lenda, de maior densidade dramática. A partir de um determinado momento, no entanto, certo dia a trégua é rompida e as criaturas parecem determinadas a atacar seus vizinhos – e, depois que um certo personagem é gravemente ferido, outro é obrigado a entrar na floresta a fim de buscar auxílio externo.

Shyamalan tem uma facilidade inconteste para manter a tensão durante grande tempo do filme: enquanto vamos nos aprofundamos no medo – que sentimos em cada uma das interpretações sensíveis dos atores – daquela população, congratulamo-nos com o diretor pelos longos planos, pelo temor e respeito crescente de todos, pela organização de tal sociedade, pela vida simples e harmoniosa demonstrada no dia a dia deles. O elenco desta produção também é muito bem escolhido: Joaquin Phoenix, Bryce Dallas Howard, Adrien Brody, William Hurt, Sigourney Weaver. O que vamos sentir, no entanto – entre outros sentimentos de mesma ordem – conforme continuamos a assistir, é quão inaproveitada foi a sempre linda e ótima Sigourney Weaver. Juntamente com William Hurt, encenam uma atração mútua que nunca chega a lugar nenhum (e que começa através da sensível constatação do filho de Sigourney, que a alerta do sentimento de Hurt demonstrado através do não-toque: com medo de entregar o que sentem, as pessoas que amam em segredo não tocam o objeto de seu amor), e a personagem de Sigourney nem tem qualquer outra função dramática na trama além de ser mãe do personagem de Joaquin Phoenix. Já Phoenix é um caso a parte: é complicado definir se tem uma interpretação contida, ou se ele só consegue atuar da mesma maneira com que atuou também em “Sinais”, seu personagem é muito semelhante, da mesma timidez. É provável, no entanto, que eu esteja de má vontade com ele. O que não tem muita importância, por que, com uma reviravolta notável, logo descobrimos que o grande protagonista se trata da estreante Bryce Dallas Howard, no papel de uma cega que consegue “enxergar as auras das pessoas”. Bryce, é bom que se diga, manda muito bem do princípio ao fim. E, embora 99% dos atores sonhe em interpretar o seu grande personagem doente mental, e assegure fazer isto com uma genialidade incrível, creio realmente que Adrien Brody faz tão perfeitamente o seu Noah por ter sido realmente merecedor do Oscar por “O Pianista”, ou seja, grande ator.

O que se contar a mais, estraga o prazer dos que ainda não viram. O que se destaca é a série de discussões de implicações psicológicas e de ordem moral que são possíveis suscitar através deste filme. As similaridades com o clima de pânico pós 11 de setembro são claras: o clima de medo frente ao “inimigo” instaurado na vila é o mesmo. A forma como o medo pode engessar atitudes que deveriam ser tomadas pelo bem de um grande número de pessoas é mensagem evidente. De mais a mais, vale ainda a atenção para as já tradicionais aparições de Shyamalan à la Hitchcock, desta vez em um sutil reflexo. Coisa de grande cineasta. Pena que os roteiros andem tão descuidados.