27 setembro 2004

Neste domingo, assisti à exibição do documentário “Cortázar”, de Tristán Bauer, no Cine Santander Cultural. Realizado em 1994, o curta busca, através tanto de depoimentos do próprio Julio Cortázar (recolhidas de diversas entrevistas do autor falecido em 1984) quanto de interpretações visuais de alguns trechos de seus contos, captar o seu universo. E o apelo para longos momentos que se curvam especialmente sobre as suas inquietações políticas é inevitável, neste filme que não se limita a tentar estabelecer uma análise de sua obra como ficcionista, mas mostra um Cortázar extremamente engajado e preocupado com as crises e discrepâncias sociais da América Latina. O que temos é um autor cruzando o que deveria ser uma fronteira entre a literatura e a crítica social, imprimindo em sua obra suas impressões e indignações sobre a Revolução Cubana, o golpe militar argentino, a Nicarágua. E desmitificando o princípio de que o chamado “boom” literário que impulsionou o fortalecimento de uma literatura que abarcava, além dele próprio, Gabriel García Márquez, Fuentes, Vargas Llosa, Borges, entre outros, foi uma estratégia promocional das editoras. Pelo contrário, conta o próprio Cortázar: somente depois que estes autores, através de publicações repletas de dificuldades, algumas patrocinadas por eles próprios, se mostraram um surpreendente sucesso de vendas (ocasionando, desta maneira e sozinhos, o tão chamado “boom”), foi que as grandes editoras da época ficaram atentas e aproveitaram o momento que se formava.

Claro que não há como fugir de dados a respeito de sua vida, curiosidades para fãs do autor. Mas, apesar da narrativa cronológica do filme, ainda que entremeadas de algumas poesias visuais, longas canções de tangos – algumas com letras do próprio Cortázar – o diretor permitiu-se brincar com alguns princípios que sempre permearam a obra de Cortázar, a questão do duplo, principalmente. Faltaram os gatos, no entanto.

Logo depois da sessão, foi realizado um debate com Norberto Perkoski, doutor em Letras, professor da UniCruz e autor de artigos sobre a produção literária de Cortázar, em especial sobre a temática do duplo. Nada de extremamente especial foi levantado, nenhuma grande revelação de um somente mediano, a meu ver, conhecedor da obra de Cortázar. Suas considerações se detiveram, em sua maioria, sobre o fantástico jogo que é proposto em “Rayuela” (O Jogo da Amarelinha), com suas idas e vindas – as possibilidades de leituras – e as soluções formais propostas pelo autor: como no episódio em Oliveira comenta depreciativamente a leitura que Marga está fazendo, quando encontra um livro que ela teria lido no seu apartamento. Nas linhas pares, lê-se a história em questão lida por Marga, nas linhas ímpares, os comentários de Oliveira. Isto, entre outras soluções, como a língua inventada para descrever um enlace amoroso, estranha, mas perceptível em sua forma, derivada em sua maioria de palavras existentes, além de, por sua sonoridade, plenamente inteligíveis em suas intenções. Aliás, neste filme, ficou clara uma busca de Cortázar pela sonoridade de sua escrita. Apesar de já ter sido objeto de análise acerca do tempo musical que acompanha tão gravemente alguns de seus escritos, através de um método de Cortázar, que consistia em gravar sua própria leitura de seus contos, vê-se a sua preocupação com a oralidade de sua obra. E a marca, profundamente sensível em sua obra, que a vivência em Paris lhe proporcionou, ainda que isto não tenha, de maneira nenhuma, afetado a sua alma latino-americana. Como ele mesmo diz, em Paris sentia-se completo, mas não insensível ao momento grave por que passava a América Latina.