30 setembro 2004

Santa Teresa

Lá em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus as velhas carolas mandam rezar missas e oferecem intenções aos santos casamenteiros para que as suas filhas encontrem um pretendente que não somente se aproveite de suas condições de moças solteiras (e muito tempo desconhecedoras dos prazeres da carne), mas que queira contrair um matrimônio sério, respeitoso e bonito conforme as normas do Senhor e de acordo com todos os predicados necessários a uma bela cerimônia que seja notícia na cidade inteira e faça as vizinhas que ainda têm filhas solteironas na idade do perigo se roerem de inveja por que não arranjaram tão bons genros. As velhas que têm filhas solteironas na idade do perigo e não são carolas, lá em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, costumam consultar-se com certa freqüência com dona Ataíde, que promete atrair um bom partido para as suas filhas em menos de trinta dias, mas que exige uma não-desprezível quantia em dinheiro para que o trabalho com as entidades casamenteiras resulte em sucesso absoluto e, quando este não resulta, insulta as velhas por não estarem com a sensibilidade aberta ao contato mais pleno com o mundo espiritual.

Em tempo, Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus não é santa casamenteira.

Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus é terra de poucas portas e muitas bocas, por isso, para fazer safadeza na cidade de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus é preciso muita esperteza e magnífica capacidade de enganar o alheio com desculpas as mais dignas de crédito. O ponto positivo, é que em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus são tantos, mas tantos os moradores dados a uma safadeza que, portanto, para o bem-estar geral da população, que inevitavelmente se abalaria e viveria dias intermináveis de atrito com as muitas bocas dispostas a propagar as safadezas muitas ao conhecimento público, achou-se por bem se instituir uma regra não declarada de só vir a público as safadezas daqueles moradores genuinamente tidos no conceito geral como safados e sem possibilidade de recuperação. Desta maneira, em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, as conversinhas que se estendem na porta da quitanda do Seu Jonas e que têm, normalmente como protagonistas dona Sirleide, comadre Constância e tia Marília – esta última, sócio-fundadora do Grupo Mantenedor do Decoro e dos Bons Costumes de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus – invariavelmente fazem referência a Mestre Jofre, Donatinho Gonzaga, Diana, esposa do farmacêutico Moura e Talitta Mey. Como estes, e somente estes, são os tidos por consenso geral como os únicos passíveis de conversas a respeito das informações que se colherem de todos os lados a respeito de detalhes de suas vidas, fica oportuna e terminantemente proibido fazer referência e, principalmente, a delegado Fabiano (que por acaso vem a ser esposo de dona Sirleide), a compadre Tenório (com vinte e sete anos de relação conjugal com comadre Constância) e não, também, a beato Osório – não menos coincidentemente, parceiro matrimonial de tia Marília. Com base em regras tão, a nosso ver, injustas, é fato certo que grande parte da população daquela pequena, porém honrosa em acertos verbais, cidade de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, não toma parte das peculiares e não menos safadas tramas envolvendo, justamente, delegado Fabiano, compadre Tenório e beato Osório. Se soubessem destas, entrariam em conta certa de quão recôndita e irônica é a cidade em seus rumos, já que acaba cruzando com bastante freqüência as vidas dos supracitados e consensualmente respeitados moradores com a vida daqueles tidos por todos como safados e perniciosamente imorais.

Lá em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, é provável que se criasse uma revolução geral (ou no mínimo grande tumulto e falação em festejos de muita concentração popular, como as quermesses do padre Ariosto e a Festa da Caçada da Mulita no bailão do Dioclécio), se a população viesse a se dar conta de que, enquanto as Três Caninanhas, como são chamadas à boca-pequena dona Sirleide, comadre Constância e tia Marília, demoram-se por horas na quitanda do Seu Jonas a tagarelar sobre a vida dos alheios, é exatamente nestas horas, que seus maridos sabem ser sagradas para as respectivas esposas, que delegado Fabiano se encontra em consórcios carnais prevaricativos e adúlteros justamente na cama de Diana, esposa do farmacêutico Moura, pobre homem acometido pela moléstia da impotência do cumprimento de suas funções maritais, costumeiramente fazedor de vista grossa das atividades extra-conjugais da mulher fogosa, intempestiva e insaciável que Deus achou por bem colocar em sua vida. Tudo isto se a população viesse a tomar tento das questões não resolvidas envolvendo justamente aquelas que se julgam as guardiãs dos bons costumes e mantenedoras da ordem da pequena, porém particular cidade de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus. Por que se viesse a isto, os populares moradores, naturais ou não deste município atravancado no norte do mais ao leste dos estados, viriam a saber, também, que por mais que Donatinho Gonzaga venha a ser durante tardes intermináveis personagem preferido das Três Caninanhas em estupefatos e horrorizados comentários que envolvem a ojeriza à pederastia enrustida de tão delicado munícipe, os mesmos comentários não existiriam se não houvesse como desconhecido antagonista de tão indecorosas histórias com Donatinho Gonzaga justamente compadre Tenório, secretamente dado ao amancebamento com rapazes sem muito pêlo no peito, exatamente como Donatinho, a quem, entremeando ósculos apaixonados em tardes quentes na cabana junto ao Rio das Três Quebradeiras, costuma chamar carinhosamente de Galego.

Mas é assim a vida em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus: os boatos vêm se infiltrando vagarosa, mas insistentemente, oferecendo conclusões aos mais atentos cidadãos que costumam observar mais detidamente a porta do “Luxúria’s”, auto-proclamado “night club” de propriedade da afamada Talitta Mey, mas, cá para nós, um muito catinguento de um puteiro que já viu dias melhores – em que, por exemplo, as atrações musicais iam além dos shows de dublagens do travesti Tâmela em seus rebolados ao som de Nikka Costa e Bonnie Tyler, enfiado em vestidos puídos recobertos de lantejoulas e as “acompanhantes”, mocinhas acostumadas a chamar Talitta de “mainha”, não se resumiam a meia dúzia de bugras com o rosto bexiguento se requebrando sonolentamente ao som de “Total Eclipse of The Heart”. Ainda assim, e provavelmente por que Talitta Mey continuava a gastar seus minguados rendimentos em produtos importados direto da capital, mantendo-se, desta maneira, como uma espécie de acompanhante-especial-com-preço-mais-alto-somente-para-os-figurões-da-cidade, que observadores moradores de defronte do “Luxúria’s” percebiam com tanta freqüência as constantes visitas nada catequizadoras de beato Osório justamente rumo à escadinha que conduz direto ao quarto de Talitta, saindo de lá com mais gomalina do que quando entrou.

Aos jovens freqüentadores do “Luxúria’s”, inclusive beato Osório, que mesmo enveredando-se (a seu ver) secretamente até o quartinho de Talitta Mey consegue comprazer-se pela rede interna de vídeo, resta o divertimento ainda oferecido pelos educativos filmes tão solicitamente oferecidos por Mestre Jofre para encher de imaginação os clientes que insistem que as pobres bugras realizem performances tão entusiasmantes quanto às oxigenadas e peitudas atrizes das produções com que Mestre Jofre ainda abastece a sessão “xxx” da única videolocadora da cidade.

Ah, esta prosaica cidadezinha de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus! É provável que por se conservar na ingênua ignorância que somente aos puros é reservada é que continua mantendo os seus dias ainda repletos de tão entusiasmante felicidade como quando nos torneios oficiais de bocha, nas encenações da Paixão de Cristo e nos promocionais churrascos de mulita promovidos pela Matriz para angariar fundos para a reforma da imagem de Santa Teresa, rachada justamente no meio da face, trocando a tradicional expressão em seu rosto, que parecia dizer a todos “bem aventurados sejam os filhos de Deus”, por uma mais próxima de “ai, meu Deus, o que será de nós?”.


Publicado originalmente no Simplicíssimo.