16 setembro 2004

Um ano de Paralelos: grande presença.

A 'matéria de capa' do Prosa & Verso do jornal O Globo de sábado passado

[de O GLOBO]
Paralelos, um ano
Site criado por escritores cariocas impulsiona literatura no Rio e no Brasil


Antes, a literatura no Rio andava mergulhada no marasmo. Outros estados, como Rio Grande do Sul e sobretudo São Paulo, despontavam na vanguarda da onda de renovação literária, a mais importante, diz o escritor Sérgio Sant¿Anna, que o Brasil vive desde os anos 70. Para mudar a cena a favor dos cariocas, um grupo de jovens da cidade - liderados por Augusto Sales e Jaime Gonçalves Filho - resolveu criar o site ¿Paralelos¿, que comemora um ano de sucesso na Primavera dos Livros, a feira cult dos pequenos e médios editores que abre para o público na próxima sexta-feira, dia 18, no Jockey Club da Gávea. Agora, uma renovada brisa literária parece tomar conta do Rio, em grande parte inspirada no www.paralelos.org.

O site não é exclusivo de autores do Rio - ao contrário, está buscando aprofundar o perfil de vitrine para a nova literatura, com correspondentes em diferentes regiões -, mas sua base carioca contribui para articular escritores que moram na cidade e antes criavam sozinhos, como Mara Coradello, ou não tinham encontrado espaço para mostrar seu talento, como Mariel Reis.

- Os anos 90 foram a década perdida para a nova literatura no Rio, tanto que nas duas coletâneas Geração 90, organizadas por Nelson de Oliveira (a primeira com o subtítulo "Manuscritos de computador" e a segunda, "Os transgressores") , havia poucos autores cariocas - diz Augusto Sales, que, antes de organizar o "Paralelos", editava o site de variedade cultural "Falaê!", no qual já constatara, a partir de pesquisas e muita conversa, o clima de apatia na cena carioca.

Hoje o horizonte já não é tão deserto, até porque, como diz o editor Jaime Gonçalves Filho, o pessoal encontrou coragem para "desentocar os textos".

- O importante é a produção ganhar as ruas. Nessa movimentação, surgiram outras iniciativas, de gente também disposta a se articular. Não são necessariamente "crias" do "Paralelos", mas as intenções são semelhantes, o vínculo é este - afirma Jaime.

Sem o espaço aberto nos últimos meses pelo "Paralelos", por exemplo, teria sido mais difícil para os escritores Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki organizar a coletânea "Prosa cariocas" (editora Casa da Palavra), que lançam semana que vem - quarta-feira na Livraria da Travessa, em Ipanema, e sábado na Primavera. Moutinho e Izhaki, que mantêm seus blogs individuais (assim como muitos dos que integram a comunidade "Paralelos"), participam de discussões no site e lá pinçaram muitos dos autores que escrevem sobre diferentes bairros do Rio, de Madureira à Gávea. Entre eles, o próprio Augusto Sales, Mara, Mariel, Vinícius Jatobá e Antonia Pellegrino, entre outros.

Nestes quase 12 meses - o "Paralelos" foi lançado na Primavera dos Livros de 2003, realizada em outubro - foram ao ar cerca de 470 textos, de 220 escritores, boa parte inédita em livro. Além disso, o site publica entrevistas e acompanha o ritmo das novidades editoriais. Eles prepararam um especial sobre literatura infantil, com textos inéditos, inspirados no 6 Salão do Livro para Crianças e Jovens, que começa quinta-feira no Museu de Arte Moderna (MAM).

- O "Paralelos" é uma referência, um laboratório on-line de experimentalismos. Ajuda muito a compreender o que está acontecendo na literatura jovem brasileira - diz o paulista Nelson Provazi, de 27 anos, que criou a editora Baleia, cujos dois livros já publicados são de autores que participam do site: Jorge Cardoso (brasileiro que mora na Suécia), autor de "Mal pela raiz", e João Filho (de Bom Jesus da Lapa, sertão da Bahia), autor de "Encarniçado".

Foi no "Paralelos" que Sérgio Sant'Anna, o vencedor do Jabuti deste ano na categoria contos por "O vôo da madrugada", entrou em contato com o texto de João Filho.

- O cara é genial. Tem absoluto domínio da linguagem. Estou lendo, impressionado, o livro dele - elogia Sant'Anna, que volta e meia visita o "Paralelos" e outros sites como "EraOdito", de Marcelino Freire, e "Zunái". - Para os escritores da minha idade, é importante renovar. Tem muita gente que esnoba, mas esta é a mais importante renovação da literatura brasileira desde os anos 70.

Por conta do potencial de prospecção de novidades, o ¿Paralelos¿ participou da seleção de autores que participaram da oficina de novos talentos da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a Veredas da Literatura, ministrada pelo escritor Milton Hatoum. A idéia surgiu a partir de uma entrevista que os editores fizeram com o jornalista Flávio Pinheiro, que organizava a programação cultural da Flip, realizada em julho. Depois do evento, até a Rede Globo entrou em contato com o "Paralelos" buscando a indicação de escritores interessados em participar de uma oficina de roteiro.

O projeto, no entanto, não se restringe ao mundo virtual. Em novembro, vai ser lançada pela editora Agir uma revista-livro com contos de 17 autores que participam do "Paralelos".

- Livro e internet coexistem. A internet alterou tudo, porque distribui as informações de maneira muito rápida. Eliminam-se muitas etapas. Acho incrível que não se dê mais atenção a isso, principalmente sendo editor. Quando você procura fatalmente acha coisas bacanas na internet - diz o editor Paulo Roberto Pires, que está trabalhando na renovação da Agir, que pertence à gigante Ediouro, para constituir um catálogo unindo autores estreantes e consagrados.

Foi lendo os textos do blog de Cecília Giannetti, que integra o conselho editorial do "Paralelos", que Paulo Roberto achou que ela tinha potencial para escrever um bom livro, que também vai sair pela Agir. A escritora participa da coletânea "Prosas Cariocas" e está entre os 17 autores da revista-livro do "Paralelos". Muitos dos 17, aliás, estão nas duas publicações.

http://oglobo.globo.com/jornal/Suplementos/ProsaeVerso/145831181.asp


Literatura como uma forma de resistência

No clima "abaixo a timidez" que domina o "Paralelos", a escritora Mara Coradello criou o evento "Pipishow (sic) literário", no qual diversos escritores, encerrados em cabines cobertas de cetim negro, lêem seus textos simultaneamente. Os leitores-ouvintes, conta ela, podem "escolher entre um escritor ou ficar zapeando entre todos, recortando pedaços de textos ouvidos entre uma cabine e outra". Já foram realizadas duas edições e a próxima foi marcada para 16 de outubro, no sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana.

- O mais vívido neste primeiro ano da revista "Paralelos" é o sentido de que a literatura e a escrita podem ser mais do que atividade solitária - diz Mara, que também participa das duas coletâneas ("Prosas cariocas" e a da Agir) e é autora de "O colecionador de segundos", livro de contos da coleção Rocinante (7Letras).

A escritora é uma dedicada integrante do conselho editorial do site, que, além de Cecília Giannetti, inclui Crib Tanaka, João Paulo Cuenca, Jorge Rocha, Paloma Vidal, Sônia Oliveira Pinto e os editores Augusto Sales e Jaime G. Filho. Ambos dedicam pelo menos duas horas diárias ao site, no intervalo de tempo de seus empregos (Sales trabalha na área econômica e Jaime é jornalista).

- Claro que antes o blog já fazia o papel de facilitador da comunicação segmentada e imediata, mas a revista "Paralelos" faz tudo ter uma cara mais organizada, com seu design de primeira a cargo de Mariana Newlands, com editores abertos e, antes de tudo, curiosos - diz Mara.

Trabalho não falta no "Paralelos", já que é preciso ler tudo o que chega " nem todos os textos enviados vão ao ar " e manter-se em sintonia com as novidades. Algumas edições, diz Augusto Sales, tiveram muita repercussão, como a especial sobre a coleção Rocinante (mina de autores estreantes) e outra no qual se fez uma Blogteca, listando blogs que de alguma forma contribuem para o debate literário.

- Acho fundamental que a nova literatura faça algum tipo de barulho - afirma João Paulo Cuenca, que quando começou a colaborar com o "Paralelos", no ano passado, já tinha publicado seu primeiro livro, "Corpo presente", pela editora Planeta, mas mesmo assim quis participar. "Achei muito interessante a idéia da revista/site e, principalmente, a promoção de um espaço de convívio entre novos escritores de prosa do Rio.

Cuenca deve lançar seu segundo romance em 2005, desta vez pela Agir. A partir do "Paralelos", o escritor Mariel Reis, que mora em Santa Teresa, onde costuma promover rodas de leituras de contos, está começando organizar o que chama de "projeto filhote" do site, o "Prosa de 4 cantos", com escritores inéditos de quatro estados. Mariel, cujo texto é elogiadíssimo por seus colegas, além de participar do "Prosas cariocas", foi selecionado para a coletânea que sairá pela Agir.

- O melhor a ser dito sobre o "Paralelos" é que ele fez com que as nossas vidas de fato se cruzassem - diz Antonia Pellegrino (igualmente nas duas coletâneas).

Como diz a escritora Simone Paterman, de 25 anos, com o "Paralelos" ela teve uma prova de que "a literatura, hoje, em um mundo de narrativas dilaceradas, pode atuar como uma vigorosa forma de resistência".

- Graças ao "Paralelos" pude assumir então, com prazer, a responsabilidade de ser um dos artífices dessa mudança: a escrita passa a ser parte da minha ação no mundo, e não mais um mero exercício de criação - diz Simone, que viu sua vida se transformar no último ano.

http://oglobo.globo.com/jornal/Suplementos/ProsaeVerso/145831177.asp

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http://oglobo.globo.com/jornal/Suplementos/ProsaeVerso/145831172.asp