03 setembro 2004

Verdades perturbadoras


O oscilar atordoante entre passado e futuro, a forma como as várias fases do tempo se intercalam, se devoram e nutrem-se reciprocamente. O vai-vém que garante vida, continuidade, mas, ao mesmo tempo, pode gerar o horror não desejado, o futuro antevisto através da terrível maldição da escrita.

“Pensamentos são reais. Palavras são reais. Tudo que é humano é real, e às vezes sabemos coisas antes que aconteçam, mesmo sem ter consciência disso. Vivemos no presente, mas o futuro está dentro de nós a todo momento. Talvez isso seja escrever. Não registrar eventos do passado, mas fazer as coisas acontecerem no futuro.”

O autor da afirmação acima é John Trause. Escritor cuja renomada obra foi abordada pelo bibliógrafo americano James Gillespie e, que, tal é a profusão de resultados associada a seu nome em uma rápida busca pela Internet, poderia facilmente existir. E, na realidade, quem disse que não existe?

Por ser uma personagem do mais recente romance de Paul Auster, “Noite do Oráculo”, isto não se transforma em garantia absoluta da não-existência de Trause. Se o mesmo, ainda, diz que palavras são reais e escrever é fazer as coisas acontecerem no futuro, seria mais um ponto provável para se acrescentar à sua possível existência. No momento, no entanto, em que nos damos conta de se tratar de um anagrama do próprio Auster, é que, por instantes, deixamos de estar perdidos na fantasia realidade-ficção proposta por Paul Auster, e podemos estar mais certos de qual lado do chão (em cima? em baixo?) estamos realmente pisando.

E, uma vez certos da realidade que temos então, mais seguros estamos para adentrar nesta fusão proposta por Auster. E nela encontrarmos Sidney Orr, escritor que sobreviveu a um violento trauma ocorrido após uma queda e que se recupera de uma demorada estada no hospital que o deixou entre a vida e a morte. Quando encontra na papelaria de um estranho comerciante chinês um caderno azul, de origem portuguesa, que exerce incrível atração sobre Orr, este retoma sua atividade literária fervorosamente. E ao escrever, refaz a história de Flitcraft, de “O Falcão Maltês” de Dashiel Hammet. Este personagem de Hammet, homem comum, norte-americano, que, um belo dia, ao escapar ileso do acidente de um andaime que, desabando, quase o atinge a cabeça, crê que escapou da morte para recomeçar sua vida novamente. Sem se importar com maiores providencias, decide que não pode mais viver como antes e muda-se de cidade para iniciar uma vida nova.

Como exercício proposto por seu amigo John Trause, Orr cria Nick Bowen, o seu Flitcraft. Um editor de livros com a mesma vida sem preocupações, a não ser por um crescente tédio pela monotonia de um emprego sem surpresas e um casamento sem maiores fascínios. Quando escapa de um acidente semelhante ao do personagem de Hammet, Bowen toma o primeiro avião para o primeiro destino previsto e ruma para Kansas City, começar sua vida do nada, sem se importar em avisar ninguém. Tudo o que leva consigo são os originais de um livro escrito por Sylvia Maxwell, romancista famosa na década de vinte, chamado “Noite do Oráculo” e entregue a ele por sua neta, Rosa Leightman. Auster se encarrega, então, de incluir também a narrativa deste “Noite do Oráculo”, lido com fervor por Bowen, para tornar ainda mais labiríntica a sua prosa. E quando esta é revelada, também o é o fascínio das questões do tempo e identidade sobre obra de Paul Auster. “Noite do Oráculo”, de Sylvia, não de Auster, narra a história de Lemuel Flagg, um tenente britânico que, durante a Primeira Guerra Mundial, ficou cego com a explosão de um morteiro. Ele foi salvo por dois órfãos franceses, que dele cuidaram até que pudesse voltar para casa. A sua cegueira lhe ofertou o dom da profecia. Quando é jogado no chão, vez por outra, tomado por terríveis transes, Flagg antevê fatos e previsões que, realmente, preferiria não saber.

O presente e o futuro são questões continuamente presentes na obra de Auster. Questionamentos que giram sobre a função do escritor. E qual será? Revisitar episódios do passado ou, de alguma forma, prever, com os seus escritos, acontecimentos futuros? Embora não seja uma indagação das mais originais, os personagens de Auster se tomam por elas, tornando confusos e perturbadores os seus dias quando envolvidos por tais possibilidades. Afinal, poderão as palavras escritas no fascinante caderno azul por Sidney Orr estar influenciando na realidade dos que o envolvem? Que mistério, afinal, ligará o famoso escritor e amigo John Trause a Grace, à amada mulher de Orr, já que a conhece a tanto tempo e por vezes parece nutrir por ela um amor mais do que paternal? Ou serão os quase delírios de Orr os responsáveis por confusões que o afastam da realidade e lhe esboçam novas perspectivas, becos sem saídas tão impassíveis quanto ele mesmo cria, ao colocar seu personagem Bowen, em dado momento, trancado em um quarto fechado?

“Noite do Oráculo” é como um daqueles presentes que vêm dentro de uma caixa, dentro de outra caixa, dentro de mais uma caixa. São narrativas que se entrelaçam a todo momento, idas e vindas que geram mais do que atordoantes coincidências, citações e referências autoriais quase incessantes. Como se não bastasse estas já oferecidas, Auster ainda coloca Sidney Orr a rabiscar um roteiro adaptando “A Máquina do Tempo” de H. G. Wells. Com tantas tramas, fica um pouco difícil crer na afirmação de Paul Auster de que “Noite do Oráculo” não passa de uma história de amor, a de Sidney Orr por sua mulher, Grace. Apesar de esta existir, também é óbvio que se encontra à mercê desta influência que os escritos parecem gerar sobre a vida real. O livro de Auster não chega a ser uma armadilha, com sua leitura fácil e agradável. Mas propõe intrincadas experiências de cruzamentos e coincidências, flutuações sobre irregularidades e vácuos, chãos não absolutamente seguros. Desta maneira, Paul Auster nos propõe uma tensão que não se encontra absolutamente sobre os fatos narrados, mas da maneira que estes o são, no fluxo entre uma narrativa e outra, nas relações estabelecidas entre produtos aparentemente díspares. Assim, ações mais corriqueiras e a que estamos comumente acostumados, como os pulos entre diversas atividades, o folhear da página do jornal e o capítulo da novela, a história ficcional e a informação do noticiário – estes objetos e fatos por vezes se transformam em prováveis irmãos, gêmeos em suas linearidades, assustadores na sua semelhança e correlação. É o mundo contemporâneo e suas coincidências por vezes aterrorizantes.

Estes aspectos nos trazem a intenção clara das palavras de Auster: “Livros são como sonhos, não sabemos exatamento de onde ele vêm”. Se assim, mais do que fundamentos intelectuais para apaziguar nossa gana de conhecimento ou referência erudita, o que temos são tramas atordoantes, a entrada consciente em “verdades” perturbadoras. E tudo é apenas história. Ou não.

Publicado originalmente no Simplicíssimo.