19 outubro 2004

Depois

Madrugada, algum lugar.

Estou escrevendo o texto ou somente continuo puxando o novelo de mil pontas que, em verdade, não me levará a lugar algum? É melhor que o faço antes do conhaque, do contrário, somado à já natural nebulosidade com que comumente escrevo, terei ainda a volatilidade traiçoeira a açoitar-me as vistas e os sentidos e a fazer-me crer que tudo o que vem é claro é coerente. E este é o pior dos enganos. Se já me confunde os sentidos não saber onde começo e quando começo isto, pior é a incerteza de não saber se, afinal, você me ajuda mais do que confunde. A ponta do começo da tarde de ontem tinha Eliana, como é bastante usual. De amarelo, como gosto e como poucas vezes digo que gosto. É problema e tempo perdido não te elogiar o bastante, Eliana. Tempo perdido por que o elogio me vem à boca e não abri-la para que as frases saiam assim, naturais, correspondendo à sua vontade, é como selar um instante do nosso tempo em maldita coisa não-dita. Podia te dizer assim, como tu estás linda, que tão bonita tu ficas de amarelo, e neste instante, é óbvio, você só me beijaria a boca – não sabe reagir a elogios de outra maneira, e é modo teu, somente teu, não afetação – e riria, me beijando com dentes. E tomaríamos o café e diríamos coisas quaisquer sobre o cotidiano comentando como o garçom se demora com a conta. Nossas próprias piadas, nossas frases entrecortadas, nossos olhares que se complementam. Bem verdade que, por vezes, parece mais fácil tecer críticas do que os elogios nos momentos em que estes deveriam ser feitos. Dizer-te que a foto não ficou bonita, mais uma vez. Tu não sorris, te pões casmurra, tão séria e mais uma vez as olheiras te saltam no rosto tão branco, e não foi por que não dormiste o bastante ontem à noite. Ainda mais ontem à noite, Eliana. Ontem à noite não fizemos o amor. Adormecestes com o rosto no meu braço, outra vez. E notou como o meu braço anda rijo? Levantei um daqueles pesos pequenos que teu irmão comprou e mais o vício solitário que, nem percebemos, é exercício para a musculatura também. Mas eu não devia ter te dito que não ia querer guardar este teu retrato em minha carteira. Ficar esperando o próximo, por que sei que no próximo sairás tão bonita! À não capacidade de elogio é melhor o silêncio.

Seria elogio te dizer que prefiro você, sempre você, a todas as imaginárias outras, que, ao certo fariam tão melhor? Que não se poriam tão quieta, que tratariam de participar mais, propondo outras coisas loucas? Que, ainda na tua timidez, prefiro tua quietude, e saber quando tu gozaste, por que gemeste do teu jeito? E sabes que gosto do teu jeito?

Novelo de mil pontas... À noite é sempre tão melhor, quando tudo o que foi dito no dia pode ser contemplado com a distância como em um filme, o distanciamento que me permite ver as bobagens que fiz, tudo tão bom enquanto sei que posso abrir o conhaque e servir somente uma dose, não embaralhar os sentidos.

Ao final dos telefonemas, sempre um eu te amo tão mecânico quanto verdadeiro, e como a mecânica, o automatismo dos nossos dias podem ser encher de tamanha verdade? Se não vem, eu sinto falta, penso que falta algo, somente o tchau, beijo. E sabemos que estamos de mal, que estamos brigados, que não vou passar o dia bem.

Depois, sabemos o que vem, e o que vem é sempre melhor. Você bem que podia me ajudar para que eu não confundisse tanto as coisas, hein, Eliana? Sei, sei que tu dás risada, me comporto como velho às vezes, tenho manias de velho, estas coisas e este casaco vermelho sempre para escrever, mesmo quando não está frio. Melhor que seja depois o conhaque. Por enquanto, concatenar algumas idéias, nem sei se estou escrevendo o conto, Eliana. Talvez puxando somente algumas pontas do novelo. Levando-te para concertos de bandas que não gostas, pagando caro para ouvir cópias ruins de bandas que nem podemos dançar, Eliana. Depois poderemos dizer que estivemos lá, e abraçar os integrantes e achar que foi tudo bom, uau. Mas poderíamos ter ficado em casa e dormido somente. E poderíamos ter visto um filme, o filme que tu quiseste olhar no cinema outro dia e dormir com a televisão ligada e acordar excitados no meio da noite e fazer amor. E poderíamos ter feito tanta coisa, eu sei Eliana. E eu poderia me espantar em saber que tu ainda estás comigo, ainda depois de tantas contas e eu saber que fiquei em débito, eternamente em débito contigo. E saber que meu crédito é um sorriso teu, e a certeza de que o saldo voltou à minha conta e podemos começar tudo de novo, e mais um dia, e outro dia, ainda que tão pouco tempo agora tenhamos, nossos fins de semana já não mais nos pertencem. Somente estes poucos instantes roubados de outras horas, e bem que poderíamos nos casar para termos todo o tempo só nosso, então.

Depois o conhaque. Agora o conto, por que preciso saber se escrevo o conto ou puxo mais um dos fios do novelo, Eliana. É preciso escrever o conto. Depois. Agora, o conhaque. Depois o conto.