13 outubro 2004

Lições para ouvir Marvin Gaye

Ela me disse “Sexual healing”, mas me disse com alguma pretensão que escondia, na realidade, sua vontade de parecer tão descolada, diferente de qualquer garota comum que na certa me diria o nome de alguma música de Alanis Morissette e reviraria os olhinhos somente por causa da emoção que a lembrança lhe traria. Quando ela me disse “Sexual healing”, então, eu vi que o negócio dela era sexo somente, e que estávamos, portanto, nos entendo tão bem. E isso me pareceu sempre mais importante. Mais do que todos os joguinhos propostos, todas as dificuldades naturalmente impostas, todo o desejo dissimulado.

Até que estivéssemos em seu apartamento, ainda passamos por “Let’s Get it on” e uma meia dúzia de Kenny Gee que em qualquer outra situação eu refugaria educadamente. Como o programador musical da festa parecia, entretanto, querer nos embriagar de apelos sexuais, dançar ao som do sax meloso não me pareceu a pior das experiências. No embate entre não se mostrar a mais fácil das mulheres e me oferecer uma resistência, que, afinal de contas, não acabasse fazendo com que o mais animado dos homens se desmotivasse, ela escolheu um meio termo bastante apropriado, e duas músicas em que, com os braços levantados como que em êxtase profundo, eu consegui notar que o seu entusiasmo pelo sexo poderia ser igual ou até maior do que o meu (elas dançam assim, como se o mundo fosse acabar umas cinco músicas depois: os braços levantados, o copo em um das mãos, os olhos invariavelmente fechados e o corpo em lânguidos e lentos movimentos, não importando muito o ritmo da música, mas nunca em contraponto melódico a ela – e não importa, a mais desajeitada das mulheres seguindo estes passos básicos, estas poucas lições de como parecer atraente e esta já será outra mulher sob o olhar do mais exigente dos homens. Mas o momento deve ser único: a música, ouvida e sentida como se fosse “a música” de sua vida, a canção que mais arrepios lhe traz, aquela capaz de domar todos os seus sentimentos amorosos, sexuais e soterrados sob o cotidiano. E aquele momento é único. Se a noite tiver quente, ela estiver somente com uma fina regata de malha e os braços levantados não oferecerem qualquer impedimento à visão, somente aquilo, a visão pura, simples e inesquecível de um belo par de braços em ritmo lânguido e sensual como se o mundo fosse acabar, e a lição terá findado: são poucas as lições quando tudo o que se almeja é curtir intensamente Marvin Gaye).

Ela disse Na minha casa. Eu não perguntei Por que não na minha. Imaginei que ela pudesse ter toda a coleção de Marvin Gaye para continuarmos a festa em um ambiente muito mais íntimo e, afinal de contas, para que contradizê-la se ela no comando estava se mostrando tão perspicaz? Meia dúzia de esquinas depois, o caminho de sua casa bem mais curto do que seria para a minha, ela em estado alcoólico de quase semiconsciência. Pensei que transar com ela naquele estado poderia render-me a acusação de estupro. Isto se ela lembrasse no dia seguinte que havíamos transado. Consegui carregá-la até o seu apartamento subindo três lances de escada como se houvéssemos acabado de nos casar. E derrubá-la em sua cama, despi-la para que dormisse tão confortavelmente e oferecer-lhe um balde para os inevitáveis vômitos não foram certamente a realização de um projeto de uma noite de sexo desenfreado e descompromissado.

No dia seguinte, depois de acertar com facilidade a pergunta sobre quem, afinal era eu e fazê-la crer que dançava a música mais sensual do mundo como se este fosse acabar, acabou por agradecer por não ter me aproveitado dela naquele estado em que parecia pedir para que me aproveitasse dela e me preparando um café para compensar o meu final de noite fracassado. Entre tentar convencer-me de que era a primeira vez que isto lhe acontecia, acabou por gaguejar uma porção de vezes e vendo que eu não parecia acreditar, acabou por concordar em me mostrar sua coleção do Marvin Gaye e me responder que sim, “Sexual Healing” é a música da sua vida.


Publicado originalmente no Simplicíssimo