27 outubro 2004

A morte como obra-prima

As regras não são muito complicadas, embora estejam se tornando tão banais que é mais fácil que você logo crie as suas próprias para que não o acusem de ser repetitivo, maniqueísta ou qualquer um destes adjetivos não muito elogiosos que poderiam ofender sua recente entrada no já competitivo mundo das grandes produções cinematográficas.

Funciona mais ou menos assim: se você utiliza fotografia granulada, imagens distorcidas, efeitos os mais diversos com a finalidade de parecer descolado em sua incursão dramática que pretenda justificar a sede de vingança de um profissional irado e mais do que meramente cumpridor dos seus deveres, tudo o que poderia se chamar de violência gratuita, doses exageradas de sangue e trucidações as mais diversas, cairá por terra quando você tiver uma destas grandes justificativas artísticas a apresentar. A violência se fará de contornos tão visualmente inovadores que será como um grande clipe musical, uma apoteose visual, uma sensibilidade de imagens que deverá passar incólume a ofensas baixas.

A sua história não precisa ser muito complicada: digamos que você tenha como personagem principal um ex-assassino profissional (de cujo passado você deverá falar o menos possível, mas dando pistas claras de quanto o mesmo o abalou moralmente, tornando-o um sujeito perturbado, infeliz e levando-o a crises existenciais freqüentes, com rompantes de ódio e, não obstante, uma dedicação toda especial ao exercício de enxugamento de garrafas de Jack Daniel’s logo pela manhã) que aceita como emprego ser o guarda-costas de uma linda menininha loira em uma cidade Mexicana com uma média de quatro seqüestros diários. É bom que se deixe bem claro que apesar de sua história se passar em uma cidade mexicana, os seus personagens principais e que importam realmente para a trama (do lado “bom”, digamos assim) não são mexicanos! É, isto mesmo: o guarda-costas, o protagonista de sua história, é americano. A menininha doce e loira é, lógico, americana. A mãe da menininha é uma linda e doce loira americana. Mas o pai, o rico dono da mansão onde as duas moram e onde o guarda-costas abrigar-se-á em um quartinho na parte dos fundos da casa, não é americano! Sim, ele é mexicano. Envolvido em um negócio qualquer que lhe garanta muito dinheiro, doravante denominado “empresário”, com uma vida visivelmente tranqüila e confortável, mas constantemente cercada pelo medo de que alguém seqüestre sua doce filhinha e acabe com a paz reinante. Pois este “empresário” deve andar freqüentemente com o seu advogado, um sujeito estranho e escorregadio com um aspecto nada confiável e que deve ser representado, preferencialmente, por algum ator que tenha feito bastante sucesso nos anos oitenta mas que hoje se contente com papéis secundários em grandes produções.

E agora um dos detalhes mais importantes: todos os mexicanos são imbecis!

Sim, são imbecis, serviçais, trambiqueiros, corruptos, marginais, sujos e safados. Resumindo, a escória da humanidade! Oquei, você será acusado de maniqueísta, mas os dois lados da moeda serão apresentados com tanta clareza, você não terá um daqueles thrillers pretensamente inteligentes em que se exigirá muito pensamento da platéia, não haverá nenhum tipo de obscuridade na trama que não garanta que se saiba quem é quem no lado negro da força. As coisas se tornam simples dramaticamente falando. Deixe que sua complexidade reinante e galopante se manifesta somente na suja fotografia, nos efeitos atordoantes que os tremeliques de câmera, as saturações de luz, os tremores, as repetições de imagens lhe garantirão. Quem precisa mais do que isto? Estamos na geração MTV! Vídeo clipes e imagens atordoantes são o que garantem a boa recepção de sua obra! Se o seu personagem está bêbado, faça com que as imagens do próprio de sobreponham uma a uma como se o próprio cinegrafista estivesse bêbado! Se há ódio envolvido, encha a cena de luz amarelada e dê vazão a uma sonoridade angustiante também. Isto ajudará a irritar a platéia e por conseguinte, perceber a irritação do personagem.

Mas voltemos à nossa trama: o tal guarda-costas será durão o bastante (nas cenas iniciais, lógico) para tentar não se deixar seduzir pelo jeito tão meigo da menininha loira que quererá fazer amizade com ele. Será ríspido quando ela falar coisas bonitinhas dentro do carro no caminho para a escola querendo a sua atenção. E dirá que é pago para cuidar de sua segurança, não ser seu amigo. Em verdade, nos momentos iniciais isto gerará uma certa antipatia pelo protagonista, o que não é algo muito bom de acontecer. No entanto, não se preocupe: nas cenas seguintes ele (e o espectador também não, tenho certeza!) não conseguirá resistir ao doce encanto de tão linda garotinha e começará a ter o sentido de sua vida desperto pelas brincadeiras com a loirinha e pela garra com que a ajudará em algum esporte que a pequena pratique, mas para o qual não tem tanta habilidade... Hum, pode ser natação! Digamos que ela tenha dificuldade de ouvir o estampido do revólver na hora de saltar e sempre faça isto com certo atraso, embora seja ágil o bastante na piscina. Algumas cenas mostrando o nosso protagonista envolvido em ajudar a menininha a resolver o seu pequeno problema e sendo saudado entusiasticamente e amorosamente pela menina que está ajudando e será o bastante para que vejamos o quanto sua relação se estreitou e quanto amor é possível nascer entre um serviçal e sua patroazinha. Desde que os dois sejam americanos, é lógico. A cozinheira (mexicana) e o jardineiro (mexicano) deixe-os batendo palmas em volta da piscina para criar um clima de alegria e integração entre as nações. Coisa que não existirá além disso, pois a cozinheira continuará a ser somente a cozinheira e o jardineiro, somente o jardineiro.

Não esqueçamos de criar um personagem amigo do protagonista, que terá sido colega de trabalho do mesmo nos tempos difíceis e o único que terá conhecimento o bastante de quanto ambos sofreram, no que se meteram e único com quem o protagonista poderá contar nos momentos complicados que virão. E eles virão. Sim, este amigo (americano) também terá ido morar no México e será, inclusive, aquele que conseguirá o emprego para o protagonista.

Com tais princípios inicialmente apresentados, então, já podemos partir para o que o nosso filme se propõe: a doce menina, não obstante os cuidados deste guarda-costas que estava se tornando já o seu grande amigo (coloque cenas ternas, mais convencionais em que a menininha oferecerá flores para o seu herói, dirá coisas meigas e oferecerá presentinhos para ele: precisamos destes flashes de felicidade para que o espectador se torne realmente cúmplice do companheirismo e se sinta indignado com todo o mal que virá para tão doce criatura), sofrerá aquela que é considerada uma das hediondas e violentas ações criminais: será seqüestrada por marginais maus como pica-paus e cujo sotaque (mexicano) será tão carregado de ódio que não haverá espectador que se assombre com qualquer violência que os mesmos possam sofrer como retaliação por seu mau comportamento.

Na cena de seqüestro, o grande ápice do filme, é necessário muito cuidado: nosso protagonista será apresentado como um grande profissional, habilidoso para cumprir todo o cerimonial necessário para proteger a vida da doce menininha – tiros, gritos de dor ao ser acertado por disparos, rolamentos pelo chão e tudo o que garanta uma cena realmente impactante! Detalhe que nosso protagonista quase antecipará o que irá acontecer: deverá estar atento para carros que se aproximam, carros policiais suspeitos (já que no México todos são corruptos) que trancam a rua e outro carro com tipos suspeitos (eles têm cara de mexicanos!) que circula de maneira suspeita pela volta. Depois de uma troca de tiros emocionantes em que nosso protagonista conseguirá matar quatro(!) dos meliantes, de gritos de horror da menininha apavorada com tanta violência a sua volta, tudo terá sido em vão e nada impedirá que o nosso protagonista seja alvejado à quase morte e que a menina seja levada para um cativeiro sinistro, sujo e mexicano!

Ah, e agora, então, temos todo o objetivo do filme traçado: é lógico que mesmo o nosso protagonista tendo sido alvejado tão perigosamente, se recuperará com rapidez impressionante em um clínica para cachorros(!) graças à ajuda do seu amigo, que ainda lhe dará toda a força moral e amparo necessário para ir adiante com aquilo o que nosso protagonista acha mais certo: engendrar uma violenta e sanguinolenta vingança!!

E quem sentirá pena e achará pouco heróico que nosso protagonista faça o tipo vingativo e brutal? Quando tiver a informação de que o resgate, que era assegurado em ser bem sucedido por policiais corruptos, deu errado e que a grande bagunça ocasionou a morte(!) da doce menininha, levantar-se-á da cama com um fator de auto-cura digna de um Wolverine e partirá para o acerto de contas!

Serão todos mexicanos a escória da humanidade! Malditos latinos, marginais sujos e desumanos que, por dinheiro, criam uma indústria do seqüestro do qual somente 20% das vítimas escapam ilesas. São quase animais, corruptos preocupados com o vil metal que não deverão nem ter a nossa complacência, não são dignos de pena. Não há como estar ao seu lado quando o nosso protagonista chegar em cada um deles para vingar no clássico olho por olho a audácia de ter tirado a vida de uma doce loirinha americana! Quando com uma bazuca explodir seus carros em pleno centro da cidade!

Não, não se preocupe com a recepção negativa! O nosso protagonista será representado por um grande ator e isto já equivalerá para a fundamentação de seus gestos. E depois, desde Cidade de Deus, Pulp Fiction e outros quetais, a violência embalada por edição ágil e modernosa já garantiu o seu grande sucesso pop! Ninguém pensará que não faria o mesmo quando o herói (estamos no pós-modernismo) cortar os dedos, um a um, de um dos envolvidos no seqüestro da doce loirinha americana. Quem se importará com o marginal, presidente da “Irmandade” responsável por toda a indústria de seqüestro, quando tiver um explosivo enfiado em seu ânus? Ah, e se toda esta vingança de um homem só for acompanhada por uma grande jornalista mexicana (indignada com os rumos de violência reinantes em seu país e destemida em denunciar tanta corrupção) quase in loco, e todos os atos do protagonista forem aplaudidos, está tudo bem: afinal, um país de terceiro mundo, onde toda a polícia é corrupta, onde não há lei e policiais roubam dinheiro de resgate, merece mesmo a intervenção de um herói americano para salvá-los da definitiva bancarrota! Não há como ser contrário a tal princípio tão básico.

O sucesso será mais garantido ainda se, ao final, tendo feito toda a justiça que era necessária, mesmo crendo que era apenas o comprimento de um dever, nosso herói tiver como presente a notícia de que (sim!) nossa princesinha americana doce e meiga ainda está viva, mas que para tê-la de volta, terá que oferecer a sua vida em troca (além do irmão do seqüestrador-mor que está em poder do nosso protagonista, é lógico). E quem disse que nosso herói hesitará em fazê-lo? Depois de trucidar com uma porção de malditos cucarachos, o que é a sua vida pela vida da doce e americana loirinha? Se mesmo o pai da menina, um maldito mexicano, mostrou-se envolvido em tão sórdida trama, como não oferecer sua própria vida pela vida da menininha?

Hmmm... Não esqueça de convidar algum ator brasileiro para fazer o papel de um dos seqüestradores cucarachos. Não é preciso muito texto para ele, apenas alguma coisa do tipo “Se tiver amor à sua vida, não publique aquelas fotos!” e já teremos um bom papel para um bom ator latino fazendo um maldito sujo latino.

E então, o ápice emocional! Depois de frases tão incríveis que deverão ser proferidas pelos atores do tipo “... é um profissional da morte! E esta será a sua obra-prima!”, de impactantes closes e trocas de lentes, de cores saturadas, de tremores de imagens, relaxemos sob o som de uma música muito calma qualquer, enquanto nosso herói se entrega aos marginais desprezíveis para que a menininha tenha, junto a sua mãe, sua felicidade de volta. E agora que todos os cucarachos corruptos e marginais estão acabados, não há como não aplaudir se, ao final da obra, o diretor colocar uma frase agradecendo ao maravilhoso México pela utilização de suas locações.

E se, depois disto tudo, compararem seu filme a “Chamas da Vingança”, diga que é tudo uma grande coincidência e que falem com os seus advogados.