06 outubro 2004

O último do Zaragalli

Até onde eu me lembro, a perspectiva sobre o lançamento do último do Zaragalli foi, como sempre, cercada de toda a expectativa tão típica que sempre cercou um lançamento do Zaragalli – resultado dos incessantes apelos que a mídia, amante do que fosse que Zaragalli estivesse despejando no mercado, se apressava em veicular de todas as maneiras. O próprio Zaragalli não se esforçava em mostrar-se tímido, modesto, ou o que quer que fosse que pudesse emprestar uma aura de intelectualidade reservada a mais um dos seus lançamentos. Ele fazia o tipo participante, sempre disposto a uma fotografia junto a um de seus contemporâneos, a um drinque de última hora em uma coletiva organizada às pressas no lobby de algum grande hotel da cidade. Zaragalli era assim, e respeitávamos aquele jeito dele. Na verdade, somente alguns de nós aprendeu a acostumar-se verdadeiramente com este seu novo método mais propício às necessidades do mercado. Se nem todos sabíamos nos adaptar ao mercado – e se você conhecesse Zaragalli na época em que nós o conhecemos, é provável que estranhasse a súbita mudança de comportamento de Zaragalli, tanto do ponto de vista artístico quanto logo depois, quando com mais uma de suas obras já concluída, ele se mostrava como o mais disposto do mundo para lançá-la com todo o estardalhaço possível. Era previsível, no entanto, que, conforme a ascensão de Zaragalli se mostrasse mais e mais contundente a todos nós que acompanhávamos desde o princípio a enorme cena que se formava ao seu redor, começasse a ficar cada vez mais claro que eram os reais seguidores de suas propostas, quem compactuava com as suas idéias ou quais aqueles que somente até o momento haviam se aproveitado de sua sombra promocional para tentar crescer sem, contudo, deter metade das qualidades que Zaragalli sempre demonstrou ter em cada uma de suas realizações.

Eu, que acompanhei desde os seus passos iniciais, com a distância crítica de um colega de atividade, – apesar de portadora de afeto, que, como amigo de Zaragalli não deixaria de ter – poderia ser uma das testemunhas mais isentas sobre todo o seu método de criação. Chegar naquele momento, às vésperas de mais um lançamento que estava para se fazer, com toda a pompa a que Zaragalli ultimamente tinha direito, de acordo com os mimos possibilitados por seus patrocinadores e parceiros em seus projetos, trazia-me à tona o ritmo enlouquecedor que tomava conta de seus dias quando sua obra estava prestes a se tornar táctil, apresentável a todos aqueles sedentos por apreciá-la, com gana mais e mais voraz. Por que as obras de Zaragalli, a bem da verdade, possuíam estas duas capacidades tão intrínsecas quanto díspares: ao mesmo tempo em que provocava engulhos em uma parcela dos que o acompanhavam (e, convenhamos, sempre houve um prazer mórbido naqueles que chegam a acompanhar com tanta obsessão os que são frutos de seu ódio, pelo simples prazer de poder odiá-lo mais e mais, conforme mais uma de suas obras é lançada), naqueles que o rechaçavam de toda forma, inclusive através de organizações que se uniam para tentar apontar defeitos em cada elemento pertencente às suas criações, havia aqueles, lógico, fiéis seguidores de todas as etapas que envolviam a sua arte. Zaragalli, sempre solícito, atendia de braços abertos a estes últimos, não se portava como um ídolo longínquo; seguidas vezes podíamos encontrar Zaragalli participando de animadas mesas nos mais baratos botequins, somente por que algum de seus admiradores o encontrara de passagem, e Zaragalli não resistira ao pedido para que se sentasse e dividisse com eles algum acepipe ou uma rodada de cerveja. Era este o tipo tão peculiar de Zaragalli: considerado um gênio por tantos, aclamado por críticos até então tão sedentos de um realizador do porte de Zaragalli, e, ao mesmo tempo, tão simples e modesto em suas ações, tão próximo de seu público.

É notável que até este seu aspecto poderia servir de mote para aqueles que gostavam de acusar Zaragalli de demagogo, falso amigo do proletariado, amante mentiroso dos pobres. Volta e meia teciam considerações nem um pouco amistosas sobre o caráter excludente de suas obras, sobre a falta de representatividade dos marginais em suas realizações. Do quanto Zaragalli era, na verdade, um sádico, um aproveitador da ilusão daqueles que gostavam de sentir-se, nem que fosse por um momento apenas, o mais próximo possível de uma estrela da elite. Chegaram a chamá-lo, certa feita, de vampiro! Que sua fonte criadora era sugada da retumbante alegria que, não obstante tantos dissabores, sempre continuava presente no coração dos menos favorecidos.

Tantas acusações! E eu, mesmo ciente de toda a verdade a respeito dele, tinha que me manter quieto, cumpridor de meu princípio de discrição. Se o acusavam em minha frente, e muitas vezes isto me doía, forçava-me a um silêncio pontiagudo. Eu tinha, conforme o próprio Zaragalli havia me incumbido, de guardar segredo sobre a sua vida. Espantava-me, a bem da verdade, este teto de vidro tão resistente com que Zaragalli se mantinha durante toda a sua carreira. Recebia tantas pedradas de um lado, tantas acusações vãs, tanto ódio gratuito, tanto crítico querendo se autopromover a inventar as mais sórdidas teorias a respeito de um passado não-sabido de Zaragalli; ao mesmo tempo, penso que o que continuava a manter Zaragalli no topo de sua categoria de realização, era o carinho que recebia, não obstante, daqueles que sempre foram seus fiéis apreciadores, seus verdadeiros e não vis admiradores, aqueles capazes de encontrar em suas obras toda a significância que Zaragalli fazia tanta questão e sentia-se tão feliz quando encontravam.

Como definir um verdadeiro gênio? Como separar do meio de uma horda de fraudes intelectualóides aquele que não pretende engambelar o público com meia dúzia de idéias prontas, com meandros enganosos, com meias-voltas confusas e soluções forçadas? Pessoas assim eu encontrava aos borbotões nos meios em que, junto com Zaragalli, acostumei-me a participar. Criadores que se divertiam ao empregar soluções tão complexas que a própria crítica não se atrevia a contestá-los com medo de ser tachada de ignorante, não percebedora. Se optavam por análise sobre um viés depreciativo, estas fraudes travestidas encarregavam-se de dizer, através de suas assessorias de imprensa, que o crítico era um néscio, um desconhecedor do princípio básico de composição de sua arte, que não servia nem mesmo para servir cafezinho, que dirá tecer críticas argumentativas sobre sua obra! E os críticos, pobres, acabavam caindo no ostracismo, assustados com sua própria falta de visão, deportados a comentários em colunas sociais e outras trivialidades.

É fácil concluir que este era outro dos motivos por que festejavam tanto Zaragalli. Custa-me muito lembrar de quando Zaragalli conseguiu ser violento com um crítico que fosse! Sempre optou pela mediação, por aceitar – não com passividade, comiseração ou demagogia, mas como opção, mesmo – as outras possibilidades analíticas sobre a sua obra. Afinal, compreendia as nuances diversas de percepção que podem envolver um olhar sobre o que realizava com tanto prazer e dedicação. E, uma vez as críticas não sendo gratuitas, rançosas, ainda que distantes de uma verdade com a qual concordasse, Zaragalli se recolhia em um mutismo simpático e continuava a sorrir e a manter-se agradável com todos.

Desta maneira, como não nos encher de expectativas às vésperas do lançamento do último de Zaragalli? Da mesma maneira que o que o podia aguardar era uma cadeira voando em sua direção de algum de seus detratores, sabíamos aquilo o que, com certeza não iria faltar: uma multidão que parece não ter mais fim de ansiosos fãs, verdadeiramente cheios de vontades de, em abraços, beijos e afagos, resumir toda a felicidade que somente a obra de Zaragalli era capaz de lhes proporcionar.