10 novembro 2004

Finados


A mãe pedia que rezássemos pelo pai. Nós não sabíamos onde o pai tinha ido, mas rezávamos, a mãe pedia e nós rezávamos. Nos dias em que tínhamos que acompanhá-la até o cemitério era pior. Tínhamos que comprar juntos as flores, ajudá-la a limpar a sua sepultura, sempre tão cheia de inços e nos púnhamos graves, tão sérios como seria estranho ser para a idade que tínhamos. Os anos de falta do pai já tinham passado. Nos primeiros tempos doía tanto que chegávamos a passar mal. A Marina ficou dias sem ir ao colégio, chorava noite e dia, chorava tanto que eu achava que ela ia morrer também. Como eu era o único homem da família então, devia me manter mais duro, ao mesmo tentar parecer mais sério, mesmo que me doesse até os ossos fingir retidão na frente da mãe e da mana e de noite chorar como um condenado a falta do pai. O bom é que éramos pequenos o suficiente na época, se fosse hoje talvez fosse mais dolorido, se o pai desaparecesse assim, e a mãe chegasse e nos dissesse que ele tinha morrido. Como não víamos corpo, não choramos o defunto, ficava ainda mais difícil se dar conta que o pai tinha mesmo morrido. Para a mãe, eu não sei bem como foi toda a função de provar que o pai morreu, éramos tão pequenos e ela tão só, correndo de um lado para o outro, toda a burocracia e a papelada para mostrar que sim, seu marido tinha morrido, mesmo não tendo corpo para enterrar ela queria uma cerimônia religiosa, e padre, e toda a gente chorando em volta de um caixão que não tinha defunto dentro. Suas roupas, somente, acho que tinha umas roupas suas que a mãe colocou ali dentro, dizendo que eram parte do pai e que devíamos chorar também por que o pai tinha morrido e devíamos sentir a sua falta e agora eu era o homem da casa.

Depois, mesmo como toda a catequese e a crisma e comunhão e tudo aquilo o que a mãe fazia questão que fizéssemos, por que se apegava demais a Deus e dizia que era devota de Virgem Maria, nem Marina e nem eu fazíamos de coração. Não queríamos aborrecer a mãe, então não tinha cabimento que nos colocássemos como um destes moleques mimados que tinha no colégio que recebiam tudo de mão beijada e ainda reclamavam para a mãe se ela não lhes dava a marca do tênis que haviam pedido. Eu nem conhecia as marcas de tênis. Vestia o que a mãe podia comprar para mim, da mesma maneira Marina e, hoje, pensando bem, até me surpreendo que fôssemos tão boas crianças, éramos sim. Somente quando eu cresci um pouco mais e comecei a trabalhar e pude comprar as coisas pra casa e continuar a pagar o aluguel da sepultura que era cara pra danar lá no cemitério do centro é que pude também comprar uns agrados pra Marina, pobre de Marina, sempre com seus vestidinhos remendados que herdava da mãe, e umas coisas pra mim, e então comprei um destes tênis bonitos por que as moças no baile gostavam, mas nem importa, por que no final das contas também não olhavam pra mim por que diziam que eu era filho do finado que não tinha.

Finado que não tinha, por que não tinha o corpo, todos da cidade sabiam que enterramos o pai em espírito, que era como a mãe falava. Um enterro digno como bom cristão que era para ter um lugar no céu, e onde estivesse seu corpo, estaria na paz do Nosso Senhor. A mãe dizia paz do Nosso Senhor, e eu me lembro de Marina e eu repetindo ajoelhados ao seu lado, em suas orações compridas, especialmente no dia de Finados. Eu não sei lá por que inventaram um dia pros mortos, estes mortos que sempre é preciso acalmá-los, parece que sempre querem um agrado, que rezem por eles, senão se põem aborrecidos e acabam atazanando a paciência dos vivos aqui, mas se tem o dia dos Finados que seja, que façamos o que se tem que fazer, então, por que eu não discuto muito estas coisas de convenção que as pessoas inventam e se inventaram temos mais é que respeitar e cumprir. E que mal há de num dia só rezar por eles se eles ficam mais calmos assim?

Depois, não custava nada, mesmo estando já mais velho, ainda que não quisesse sair de casa e me juntar com Dora, por que a mãe já estava velhinha e queria ficar e cuidar dela antes que se fosse pra junto do pai. Podia ajudá-la a ir até o cemitério, limpar os inços com ela e deixar a sepultura do pai tão bonita, lustrar o vidro da foto dele já tão embaçada e trocar as flores com a mãe por que era o que ela mais gostava de fazer. E mesmo que eu já grande, agora sim que não acreditava mais nestas coisas da igreja e que as almas vão pra um lugar tão bom, eu acho que quando a gente morre já era e pronto, fazia o que a mãe queria por que ela ficava feliz, e se ela dizia que o pai tava nos olhando, tava num lugar melhor e ficava mais contente da gente limpar sua sepultura, eu fazia, o que é que eu não fazia para deixar a mãe feliz?

Quando a mãe já na beirinha da morte, juntou um monte de gente por que a mãe era boa e todo o mundo gostava dela ali em volta e mesmo que falassem pelas costas que era viúva do finado que não tinha. Mas as gentes são tudo assim, o povo fala mesmo e que se há de fazer, se depois quando precisam da mãe pedem ajuda e fazem de conta que não falaram nada? Como a mãe era tão boa, fazia que não escutava, por isso ela nem gritou com ninguém quando ficaram tudo a sua volta rezando por ela, nem o turco que lhe cobrava o olho por qualquer fazenda que ela precisasse pras suas costuras, até ele tava ali, rezando, sei lá de que religião são os turcos, e se eles acreditam em Deus, ou ele só estava ali para fazer fita. E nesta hora era todo mundo amigo, mas só eu e a Marina que segurávamos a mão da mãe como ela queria, por que era só isso que ela precisava para morrer em paz, ela disse, de nós dois, os seus filhos, e que bom seria se nosso pai estivesse lhe esperando para recebê-la e ficarem juntos para sempre. Por isso é que eu não sei, não sei por que ele depois foi embora, se ela estava falando do pai que ia recebê-la lá no céu ou se ela começou a delirar e fitar o homem que entrava lá em casa, que nem eu nem Marina conhecíamos, mas que a mãe começou a chamar pelo nome do nosso pai, e como a mãe já estava delirando, nem ligamos, nem nós nem o homem também, devia ser um amigo de longe, já velhinho como a mãe, embora todo o mundo tenha achado tão estranho, e eu também, é verdade, que ele se parecesse tanto comigo.