16 novembro 2004

Jogo de Espelhos


Ainda que eu ache um tanto exagerado descrever “Má Educação” como um filme noir (já que algumas características deste gênero, apesar de existirem – até através das homenagens feitas em cartazes de clássicos que aparecem durante o filme – só começam a se inserir no filme pela metade), esta é uma obra em que Pedro Almodóvar definitivamente contrariou a forma como vinha filmando até então e construindo sua carreira tão admirada. Indo de encontro ao gênero das comédias malucas e sem se render ao melodrama de filmes que mesmo sendo obras-primas como “Fale com Ela”, reconhecidamente eram, Almodóvar criou uma obra mais seca e, até por isso, tão densa no seu modo de ajuste de contas com a Igreja, num processo de auto-reconhecimento da própria infância do diretor.

É provável que esta quase impossibilidade de classificação do filme, que gerou tamanho estranhamento e fria receptividade, seja a culpada por tão pouca inflamação da mídia em torno dele. Fora, é lógico, que lidar com um tema sempre tão delicado quanto a questão de padres pedófilos e a conseqüência de uma infância vivida no ambiente opressor da educação religiosa sempre equivale a brincar com vespeiro – que, mesmo cada vez mais inofensivo, até por questões tradicionais inibem as declarações mais calorosas quando o que está em jogo é a crítica à Igreja e suas realidades dissimuladas.

Almodóvar é um caso raro de superação autoral. É possível perceber com clareza de detalhes o quanto sua obra veio amadurecendo ao longo dos anos. E o quanto, mesmo lidando com seu então estilo de comédia amalucada, tudo o que sempre pareceu estar em primeiro lugar na narrativa do diretor é a história, a trajetória de uma vida humana que se está contando, o quanto nada disto nunca foi abandonado em detrimento de formas de linguagens ou narrativas mais complexas. Você sente a vida pulsando imensamente nas obras do diretor. É óbvio que minha impressão neste sentido se reforça mais por se tratar de um diretor latino-americano e, desde sempre, minhas impressões sobre o cinema latino e o cinema europeu é que são referências em tramas mais intimistas, no trabalho da obra como conseqüência de esforço dramático e não como acompanhamento para delírio visual-tecnológico. E, em Almodóvar, mesmo quando sua sofisticação narrativa foi alcançando níveis mais intrincados, tudo sempre foi em contribuição a uma história bem contada, a um apego ao drama humano, características facilmente perceptíveis em filmes como “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Fale com Ela” (2002).

E esta sofisticação narrativa, juntamente à crueza sexual de seus primeiros filmes, foram dois dos ingredientes que Almodóvar mais acentuadamente utilizou para chegar ao resultado final neste “Má Educação”. Contrário às especulações de sensacionalismo de que o filme foi acusado antes mesmo da estréia, por que diziam ser um libelo contra a Igreja e por apontar o escândalo que seria colocar o galã do momento Gael García Bernal no papel de um travesti, o que se vê nesta película é uma obra melancólica e em nenhum momento vingativa. Não se nota qualquer tom panfletário que poderia ter um ajuste de contas de um diretor que se diz marcado pelo mesmo abuso de que foi vítima o personagem Ignacio, papel de Bernal, em sua infância. Aliás, sobre o papel de Bernal é bom que se diga já de saída: apesar de uma das personas do personagem (que se dividem em três) ser um travesti – o que rendeu comparações ao personagem de Rodrigo Santoro em “Carandiru” – é óbvio que, por ser o ótimo ator que é, em nenhum momento tal caracterização serviu para corromper a carreira do ator. Pelo contrário: o que se tem é uma interpretação primorosa, de extrema sensibilidade e de muita coragem do ator, também, por que, indo ao encontro da crueza sexual dos filmes anteriores de Almódovar, Bernal na pele de seu personagem teve que se expor um bocado em cenas de homossexualismo.

A história poderia ser contada de maneira extremamente simples: Na Espanha dos anos 60, Ignacio e Enrique, alunos de uma escola católica, se apaixonam, descobrem juntos o amor e o cinema, mas são separados pelo padre Manolo, que abusa sexualmente do primeiro. Quando, vinte anos depois, um homem que se diz Ignacio (Gael García Bernal) procura o então cineasta Enrique (Fele Martinez), propõe-lhe a realização de um filme baseado na história que escreveu contando a infância dos dois. Conta-lhe que virou ator amador, depois de ser travesti, pedindo um emprego ao diretor. Ignacio pede a Enrique para interpretar a si mesmo como travesti e logo em seguida iniciam um caso, sendo interrompidos já em meio às filmagens pelo padre Manolo, que surge para contar detalhes de uma história que não teria acontecido da mesma maneira como Ignacio contou a Enrique. O que seria pura metalinguagem nas mãos de um diretor menos habilidoso, se transforma em um complicado jogo de espelhos, tão sombrio e que neste momento, quando a trama se torna mais nebulosa, merece a denominação de noir.

O que temos ao final de “Má Educação” é uma metáfora sobre o desejo que teima em se realizar e do qual só se livra após sua consumação. A paixão pode ser um sentimento por demais temido e embaçado através da hipocrisia das instituições. Por isso, mesmo sendo algoz, o padre do filme também se torna vítima pela obsessão que lhe acompanha. É um filme em que Pedro Almodóvar se mostra extremamente maduro, propondo uma intrincada trama que se confunde entre realidade e imaginação, passado e presente, e o quanto o tempo, o desejo e todos os sentimentos frustrados podem gerar resultados por demais complexos na vida das pessoas envolvidas.