14 dezembro 2004

As ancas da Jennifer

Eu poderia ser chamado assim, como vamos dizer, de um maldito colecionador de comédias românticas. Não, eu não faço estoques de dvd's de historietas água com áçucar. Não me dou a isto. O que me assola é uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo pelo que há de novo no cinema no gênero comédia romântica. Gênero vasto, digamos de passagem, e quase unicamente admirado por mulherzinhas. Eu sempre levo a minha mulherzinha junto, no entanto. E ela gosta, tanto quanto eu, de comédias românticas. Nós por vezes rimos juntos, e nos decepcionamos juntos com a falta de criatividade que assola as comédias românticas. Mas continuamos a assistir às comédias românticas. No entanto - e isto me alegra - não sou tão malditamente viciado que tope assistir à enorme demanda de comédias românticas nacionais que estão sendo produzidas pelos diretores de novela da Rede Globo quando querem fazer de conta que são diretores de cinema. Escapo destas desesperadamente. Embustes genuínos, recortes de capítulos de malhação com atores de novela das seis correndo pelo Rio de Janeiro com trilha sonora de biquini cavadão - destas eu fujo, definitivamente.

Mas eis que de vez em quando surge outra comediazinha romântica produzida por hollywood num cinema próximo. E lá estão eles (ainda que - por enquanto - não sejam a Meg Ryan nem a Ashley Judd...), os atores tarimbados neste estilo tão morno, tão açucarado e quase sempre tão previsível. Legítima sessão da tarde. É preciso que se esteja de alma leve, muito leve, para ver Richard Gere, o eterno galã de cabelo grisalho aprendendo a dançar na comédia romântica Dança Comigo? (Shall we dance, 2004), remake de um filme japonês homônimo, de 1996. O que ocorre é que uma boa desculpa contribui para os marmanjos conferirem esta película de mãos dadas com a companheira: a sempre boa (ainda que não boa atriz) Jennifer Lopez. Que, sejamos franco, se comporta muito decentemente neste filme. Simplesmente ligou o automático, então nem pode-se dizer que comprometeu com sua atuação. O que se vê não de hoje é o quanto a morena dança e o quanto suas curvas perfeitas são sempre um incentivo para assistir a um filme seu, mesmo com a presença de Ben Affleck (se bem que...).

Este, como os outros do gênero, é um filme de fácil resumo: advogado com vida perfeita, casamento bem arranjado e filhos maravilhosos, acaba, no entanto, sentindo o tédio da rotina diária que lhe encaminha de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Eis que, no trajeto de sua diária viagem de trem, observa uma bela moça - adivinha quem? - a mirar o nada, diária e tristemente da janela de uma escola de dança. O que faz com que o galã do cabelo cinza arranje um pretexto para poder requebrar nas habilidades da dança de salão, e descobrir, por conseqüência, o que a vida, afinal de conta, tem para lhe oferecer a mais.

Jennifer Lopez contida, Richard Gere economizando nos olharzinhos sedutores, temos então Susan Sarandon como a esposa perfeita do senhor advogado. O que ocorrerá? Richard Gere se deixará seduzir pelas ancas voluptuosas e pelas nádegas macias e saculejantes de Jennifer, esta musa do chá-chá-chá, ou voltará para o seu lar e redescobrirá nas doces mãos enrugadas de sua senhoura o amor que nunca acaba?

Ao contrário das loucas reviravoltas propostas em muitos títulos do gênero, Dança Comigo? procura uma linha mais razoável de romantismo para se situar. Faz de seu gênero um chamado para a análise(?) do renascimento emocional. Acompanhamos a transformação de Richard Gere de um homem deprimido e vazio num ser humano feliz, inspirado pelo ritmo da dança, pela alegria encontrada no requebrar das cadeiras.

O que é ponto falho - e eles adoram falhar neste ponto - são as figuras estereotipadas que eles sempre arranjam para os coadjuvantes que garantem o alívio cômico da película. Senão, vejamos: temos a loira rechonchuda que acha que é gostosa, o negro gordo e engraçado que saculeja freneticamente e o branco metido a conquistador que se revela um homossexual enrustido. Enfim, todos pessoas como as que nós conhecemos, que podem ser resumidas em dois ou três adjetivos...

De resto temos a homenagem às estrelas dos antigos musicais da Metro com Fred Astaire e Cyd Charisse, e a referência à música "Shall we dance", do clássico O Rei e Eu. De troco, Richard Gere se auto-parodiando de smoking e uma rosa vermelha para seduzir a mulher que realmente ama.