22 dezembro 2004

As nuances mais opacas


Eu tenho material suficiente para duas, três semanas. Eu, assim como Pablo, tenho sujeira para um mês. Eu tenho um espírito encardido para o qual não há esponja alguma que possa limpar. Pablo tem hipocrisia em seus olhos para sorrir com singeleza por mais quatro semanas inteiras, no mínimo. Eu também, tal qual ele. E assim, tenho desculpas colecionáveis que são fáceis de acreditar, tenho talento para embelezar momentos, para encher de romantismo os mais modestos reencontros. Tenho horários convenientes para abandonar a casa e uma história boa para contar. Mas não é bom acreditar em mim: assim como Pablo, sou um mentiroso e tudo me forma uma fachada – tudo é tão sujo em mim como é sujo em Pablo. Pablo observa os namorados refletidos nas paradas de ônibus, namorados que se beijam, que parecem amar-se definitivamente, que não hesitam em se entregar aos beijos enquanto uma platéia por trás do ônibus parado os invade com olhos gigantes e gulosos. Pablo também os engole e se pensa merecedor de momentos como aquele, embora sujo. Eu também, mesmo encardido, anseio tais performances apaixonadas, ósculos realmente repletos de desejo – e então eu poderei estar limpo durante todo o tempo.

Mas eu ainda não estou limpo. Assim como Pablo eu peno, consciente do ato e torno a fazê-lo. E prenuncio a gravidade, adivinho a importância do passo mal dado e caminho, torto, para a imundície. E me regozijo na sordidez, condiciono-me ao prazer vil e encontro na efemeridade aqueles instantes ínfimos que me garantem o riso arreganhado, o suor grosso e o gozo fraco, patético. E sei por antecipação dos engulhos de arrependimento, sei da dificuldade dos passos para o caminho de casa, sei dos olhares que mesmo desconhecidos me culpam, descobrem-me a falsidade, condenam-me, zombeteiros. São todos os cobradores de ônibus, todas as meninas que sentam nos bancos dos velhos, todos os suburbanos de camisetas regatas: todos eles me olham com desprezo, me desvendam as falhas de instantes atrás. As velhas com bolsas, as velhas que não conseguem lugar e se espremem contra mim também me amaldiçoam. Lêem meus pensamentos e querem gritar para o motorista que eu devo descer. As velhas fazem com que eu me vire para a janela e me atormente com o meu reflexo no vidro, por que eu não consigo – bem como Pablo eu não consigo ver os transeuntes caminhando lá fora.

Pablo toma-me pelo braço e me diz que há ducha forte para nos retirar o ranço. Diz que antes de estarmos definitivamente limpos devemos nos sujar à grande para valer a pena o tempo que levaremos para nos limpar. Para que a proporção seja tamanha e significativa, para que o riso seja mais branco e os olhos mais brilhantes, para que o odor se dissipe por completo e para que a carniça se afaste de nossas entranhas é preciso antes uma imersão mais completa na lama. Pablo me diz que isto é preciso – para uma alma mais limpa, é o que me diz Pablo. Eu me enegreço, assim como Pablo, e depois digo que meu espírito é fraco, que as tentações são grandes e que minha resistência é nula. Que sou admirável por não saber resistir. Pablo me faz pensar assim.

É por que eu sei, assim como Pablo, que logo estarei pronto. Logo, o antro me será asqueroso, a zona me será insuficiente e assustadores me serão os caminhos onde eu não veja com clareza. E então eu sei que haverá um instante no qual, se eu resistir por um momento, resistirei para todo o sempre. E este será o tempo em que tudo se tornará mais claro. É por que eu sei disso, assim como Pablo.

Se durante todo este tempo, daqui para diante, eu sentir-me não apodrecido, não envolto em pesada e já ressequida lama, se eu conseguir olhá-la com olhos que não sejam mentirosos, se não mais disser frases com o olhar voltado em outra direção; se eu não sentir-me compelido a confissões, a rasgares de almas para crenças nas quais não creio, se eu não sentir uma culpa infinita e um peso desesperado em cima dos meus ombros – é por que a sujeira terá começado a dissipar-se. E, Pablo, assim como eu, começará a sentir-se outro, após longo tempo, depois de passadas as quedas e os retornos para os erros, eu poderei começar a sentir-me limpo.

E eu verei cair a sujeira de uma vida inteira. E Pablo poderá olhar nos olhos uma noiva virgem que o espera em casa – ainda que haja putas que queiram lhe servir por quinze dinheiros nas noites de domingo.

Publicado originalmente no Simplicíssimo.