02 dezembro 2004

Elipses

Nesta semana que passou li dois romances que, coincidentemente, têm na narrativa circular o ponto em comum. São duas obras em que os narradores apostam nos fatos que lhe vêm a memória, ainda que não com absoluta precisão, como é comum nas lembranças que afloram em detalhes desordenados e acabam resultando na criação de um tela de cenas do passado não passível de total confiança. Por isso as narrativas se tornam circulares, elípticas. Sem qualquer pudor em contar as memórias de um passado não muito claro, os narradores acabam retornando muitas vezes à narrativa de um mesmo fato para tentar jogar mais luz sobre ele. Este é, aliás, o exercício ao qual os narradores se propõem: voltar sua memória quantas vezes forem necessárias às lembranças não-precisas a fim de extrair o máximo possível de detalhes destituído de emoções, de vislumbres irregulares que as primeiras análises lhes tinham oferecidos. Assim funciona em “Dois Irmãos”, de Miltom Hatoum, bem como em “Música Anterior”, de Michel Laub.

Em “Dois Irmãos”, Hatoum nos apresenta os dramas já tradicionais da casa que se desfaz. Da mesma maneira que Machado de Assis em “Esaú e Jacó” – que, aliás, Milton Hatoum em oficina ministrada em Parati a qual fui seu aluno, confessou ter utilizado-o como “romance base” –, o autor centra seu drama na história de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, descendentes de imigrantes libaneses, desde a infância irreconciliáveis, cujo ódio aumenta conforme os irmãos crescem em idade e se distanciam em ideais. Conforme o narrador faz uso de sua memória para contar as relações dos dois com a mãe, o pai e a irmã, novas luzes vão sendo lançadas sobre a narrativa, descobrindo-se lances que, ou não foram analisados em profundidade primeiramente, ou se mostravam modificados pelo viés emocional com que vinham carregados – ou por descrição de terceiros ou por uma observação comprometida do próprio narrador.

O romance cobre um período que vai da década de 20 até os anos 60, em uma Manaus que vai se modernizando, progredindo social e tecnologicamente, ao passo em que a família vai se desintegrando, caminhando vagarosa e indelevelmente para uma decadência moral que não encontra caminho de retorno, tal qual é impossível estancar o progresso que toma conta da cidade amazonense. Tal jogo de contradições se mostra uma boa maneira de contar o drama que toma conta das vidas dos gêmeos, mais Rânia, sua irmã, e os pais, Halim e Zana.

O narrador, muito próximo a família, narra todo o drama familiar buscando, na realidade, a identidade de seu pai entre os homens da casa. Por isso a sua narrativa em verdade se mostra como uma busca, um exercício de reconstituição do passado que não será possível sem uma observação criteriosa e de julgamento daquela família cujas características parecem sob encomenda para uma vida repleta de percalços no sofrimento e na angústia. Assim, o narrador nos apresenta sem hesitar, ainda que os personagens existam para nós sob o viés comprometido do seu olhar amargurado, os protagonistas de tal drama familiar: Halim, um pai omisso desde o princípio, apaixonado pela mulher Zana, de quem não queria filhos para viver em plenitude uma paixão que o atormenta e lhe faz odiar o filho Omar, o gêmeo mimado doentiamente pela mãe e entregue somente aos folguedos, a uma vida desmesurada de prazer e irresponsabilidades, e que se mostra cada vez mais capaz de atrocidades e crises ilimitadas de ciúmes e egoísmo para com o irmão Yaqub, introvertido e passivo, relegado pela mãe por não ter nascido tão “fraco e necessitado de tantos cuidados” quanto seu irmão, mas que se mostra o único a alçar vôos tão altos quanto o progresso que se instala em Manaus, mas que, para Yaqub mostra o caminho ao se ver livre da família e rumar para São Paulo, tentando se livrar das amarras de ódio que o prendem a Omar. Tentando atar estes nós, fingindo não ver o quanto são irreconciliáveis, está a filha caçula, Rânia, cuja relação amorosa com os irmãos se apresenta em um crescendo de estranheza que nos aponta o incesto, antes da total reclusão e negação a quaisquer pretendentes, vendo somente os irmãos, juntos, como partes separadas de um “homem ideal”. Desta maneira, Rânia se equipara a personagem Flora Batista de “Esaú e Jacó”. No entanto aqui, Rânia não é o objeto de disputa amorosa dos dois irmãos, como Flora é no livro de Machado. É só que, da mesma maneira que Flora, Rânia por vezes parece delirar que os gêmeos se fundam em uma única pessoa, como se um sem o outro não faça sentido.

A outra personagem é Domingas, a empregada da casa, menina índia que não pôde fazer escolhas e cresce naquele cenário agregando-se a família, sem outro destino que não envolver-se por eles.

Quando o romance de Hatoum se faz tão cheio de dramas, de desavenças, de carnalidade, tal qual o narrador nos demonstra, é no não-dito que parece repousar a verdade, as razões que fizeram a família caminhar para tal degradação; é no não-dito que se apega o narrador a fim de centrar-se na casa, uma vez tão corroído por dúvida e por amargura, para encontrar-se ele mesmo, confiando somente em sua memória para buscar a verdade onde ela não parece querer ser encontrada.

Da mesma maneira que o romance de Hatoum, “Música Anterior”, de Michel Laub se concentra mais sobre o não-dito, sobre aquilo o que as lacunas insinuam para contar a sua história. Da mesma forma, o narrador tem consciência da falibilidade da memória, por isso são muitas as voltas, são recorrentes os regressos às cenas que a memória alude com certa dificuldade e as quais é preciso debruçar-se para conseguir algum resultado favorável. Assim, o romance de Laub é todo com um exercício narrativo em que não se tem uma história linear pronta, infalível; desconfia-se do que é dito uma primeira vez, olha-se com atenção uma segunda retomada do narrador, repara-se nas vírgulas, nos tempos verbais hesitantes, nos titubeios. Tudo faz parte do jogo não apresentado, na dificuldade do narrador-protagonista em contar sobre a descoberta da sua esterilidade, do fim de planos tão certos deste narrador que é juiz, junto com a mulher, uma advogada, dos dois que imaginavam um futuro que se mostrava tão seguro, tão concreto. Talvez tanto quanto o do irmão mais moço, um endocrinologista, casado com uma mulher baixinha (secretamente chamada pelo juiz-narrador de Dona Pequeninha), com um sobrinho que, se pelo gosto do pai também deveria se tornar médico escolhe tornar-se odontologista.

A história de Laub é elíptica. Vai e vem para nos contar da infância, do irmão que nasce quando a mãe morre, do levar o irmão ao puteiro, da curiosidade com o que aconteceu lá. E é clara para nos contar que o juiz condenou o personagem Luciano – que passou a infância sendo assombrado por um homem a quem chama O Louro – por estupro de uma criança em uma festa de aniversário, e demora, mas nos conta, da escassez de provas comprobatórias, da dúvida, de uma infância perturbada de Luciano, de problemas pessoais que podem ter comprometido o veredicto do juiz.

Na trama de Laub, silêncios, brechas e acelerações são vitais para criar camadas adicionais à leitura – que não querem nos confundir, no entanto, pois o narrador nos faz cúmplices na sua dificuldade de organizar as memórias, em dar significado à elas. O que somos é acompanhantes de seus volteios, de sua busca de importância nos silêncios e nos instantes – que pareciam – menos importantes. Por isso as vírgulas em demasia, os detalhes das dificuldades para chegar a juiz na capital, depois de passar por muitas cidades do interior. Aquilo o que parece menos necessário vem em uma fôlego só: “Saí e passei novamente na recepção. Tinha deixado a carteira de identidade para que a recepcionista preenchesse uma ficha e ganhasse tempo. Meu plano de saúde cobre exames, todo mês eu pago o carnê, antes eu ia até o banco e fazia isso, agora uso o computador, imprimo o recibo em casa, junto-o a uma pasta onde guardo documentos importantes”. É preciso falar a respeito, mas não estender-se em demasia sobre estes detalhes. Quem sabe eles acabam revelando os passos que acabaram conduzindo o protagonista até a comarca da capital? De criança que não tinha mais o pai para contar a história, que começou a alterar os finais conforme lhe parecia mais conveniente, talvez para chegar à figura do homem que julga – na obra de Laub são todos movimentos que psicologicamente influenciam na formação do narrador, dando-lhe a vida hesitante, não-pronta, trazendo-o a um mundo muito humano nos seus relacionamentos e frustrações.