13 dezembro 2004

Felicidade então

- Velho... – Me chamou como se alguma coisa de ternura tivesse ao dizer o que disse. No entanto, não me enganava ao dissimular por trás de cada sílaba meigamente pensada todo o ódio que, na realidade tinha por mim. Chamava-me para perguntar, provavelmente, alguma das futilidades de sempre, que poderiam transitar entre o “tu viste o que saiu no jornal, hoje?”, até o “o que é que tu queres comer hoje, no jantar?”. Sempre perguntas, indagações de assuntos que, na realidade, não tinham uma dose de pessoalidade maior do que a vontade de trazer fatos tão corriqueiros como que numa ânsia sôfrega de nos aproximar por trivialidades. Convenções, não mais do que isto. Enganava-se se pensava que eu não via por trás daquelas grossas lentes o tremor das pálpebras enrugadas que se quedavam contrárias à naturalidade que procurava dar a cada ato. Eu me fazia bem de louco; ela que se ferrasse se achava que eu não sabia que, por trás de cada “Velho...”, - sibilado na dose exata para parecer natural e carinhoso ao mesmo tempo – havia, na realidade, um “Velho de merda!”, resultado de tanto ódio guardado como aquelas suas compotas antigas no alto do armário da despensa, sempre à espera de uma visita ilustre que, em mais de vinte e cinco anos nunca aparecera.

- Fala, velha... – O melhor era simplesmente me comportar como sempre. Não era chegada a hora, ainda, mas ela viria, eu tinha cada vez mais certeza. Por enquanto, com a naturalidade de sempre, corresponder aos seus vazios comportamentais e me juntar a ela como se cúmplice fôssemos contra um terceiro que nos atazanasse. O terceiro, na verdade, era o único elemento a nos unir. O ódio, que cada vez mais caminhava pesadamente por sobre aquelas velhas tábuas de madeira do assoalho, era, entre nós, um ente querido que se deixava ficar sem muita solenidade a perambular por entre os móveis que a velha já não mais limpava. A velha não tinha mais tempo de limpar por que na certa tramava alguma coisa que lhe impedia de dar tratos à higiene que, antes, tanto prezava. Antigamente tinha mais facilidade para dissimular, também, era verdade. Limpava tudo, arrumava a casa, até cuidava dos nossos filhos e conseguia nutrir aquele ódio por mim com mais habilidade do que nos dias de hoje. Se antes havia até mesmo o sexo dissimulado para tentar impor um amor onde este não existia, agora, ficava-lhe muito mais difícil, com poucos artifícios, criar vínculos que não lhe revelassem a tamanha amargura e rancor que alimentava por mim. Por isso tinha que recorrer a estratagemas tão ridículos: apegar-se a palavras, apelidinhos que se criaram depois de velhos os dois, e gestinhos tão minimalistas quanto a meiguice que procurava colocar em cada ato dirigido a mim. Queria fazer-me crer que, de fato se agradava ao ouvir minha opinião a respeito de que merda fosse que ela estivesse se referindo que tinha saído no jornal. Rá!, é lugar-comum extremo se comportar como a esposa submissa que espera que o marido expresse sua opinião para que ela possa tecer a sua em cima desta. Enganava-me tanto quanto nas todas vezes em que me perguntava o que queria, afinal, para o jantar, logo mais à noite. Dá-me o que queres de uma vez! Veneno, chumbinho, merda, o que for. Se for para ser ao menos mais honesta, é melhor do que agüentar os pratos bem decorados depositados nas toalhas com seus crochês de tantos anos.

A porra é manter a atenção desperta, elevar uma sobrancelha para indicar que estou prestando atenção ao seu chamado, bem como à próxima coisa que será dita. Baixar os óculos também faz parte do ritual engendrado a cada dia, há muito tempo – mas eu sou mais esperto do que ela. Se ela tem o plano dela, eu tenho o meu e ela vai se surpreender mais dia, menos dia, achando que eu sou um idiota à mercê de seu amargor, cultivado com o mesmo cuidado desprendido para com as florzinhas idiotas que adornam a janela grande em frente à pia.

Ela não fala, gosta de fazer suspense, de voltar a se concentrar no que faz – mais um crochê imbecil no outro lado da sala, sempre junto do fogo, esta velha encarangada de merda, sempre friorenta com aquele cachorro de bosta junto dos pés. Ela faz jeitinho de quem tem um importante enunciado, e, ao final, acaba soltando qualquer indagação que eu ponho por fim com um “É...” ou um “Pode ser”. Pode ser o que tu quiseres, não me importa nada, só desfazer tua dissimulação, me armar dos fatos palpáveis para que todos possam ver quem tu és e o que é que sempre quiseste, afinal. Não tenho pressa, sou mais paciente do que tu, sempre fui. Faço as coisas mais meticulosamente possíveis e vou te pegar de jeito.

- Eu tava pensando... – Em me matar, provavelmente, não é velha desgraçada? Com requintes de crueldade, é certo. Com a modorra com que vem me entupindo de carne de porco, com prazo de validade sei lá qual, recheado não sei eu por qual especiaria envenenante, para minha lenta e inevitável ida desta para o inferno. Ao menos não tem pressa. Minha companhia não se mostra, desta forma, tão insuportável ao que parece. Permitir-me a felicidade de ainda degustar de tuas comidas – bem sei eu que repletas de algum formicida, raticida, ou sei lá que veneno for: insípidos, no entanto. A certeza de estar ingerindo um ingrediente adicional nesta sua comida, que ao cabo de algum tempo me fará sufocar e me debater pateticamente pelo chão da sala, – enquanto ela, com risadas, bem visualizo eu, vai aguardar até que minhas ridículas convulsões encomendem minha alma pro diabo, deixando-a na tranqüilidade que tanto prezará – ah, esta certeza eu tenho, absolutamente. Vê-la com o olhar, solícita, a somente me olhar e deter-se exclusivamente em saladas e mingaus enquanto eu me empanturro das gorduras que para mim cozinha, é mais do que a prova de que não quer aproximar-se do risco de também vir a ingerir um grão de arroz sequer que possa estar envenenado. Velha safada...

- No quê, minha velha? – Eu sacudo o jornal, mudando-o de página, cruzo e descruzo as pernas e continuo a fingir prestar atenção nas notícias sobre previdência social com tamanha seriedade, que tal dissimulação chega a surpreender até mesmo a mim, na minha até então não conhecida hipocrisia. Ela, mais habilitada do que eu neste terreno, (tenho observado há tempos) põe a mão na cintura quando se vira para mim, continuando a mexer a comida na panela mantendo a mesma tranqüilidade no olhar e nos gestos. Não fosse, no entanto, a certeza que eu tenho de já mais conhecer ninguém e, hoje, saber da impossibilidade total de se chegar a conhecer alguém a fundo, mesmo após quarenta anos de casamento, e ainda me espantaria com tamanha falsidade a que fomos reduzidos.