15 dezembro 2004

Passagem

Certo é que por vezes as coisas parecem entrar por um sistema assimétrico qualquer que nos escapa à ordem que gostamos de dar – e pode ser tão sutil, nem nos damos conta de quantas alternativas nos são dadas e enveredamos por uma delas qualquer. Se com Ana as coisas não se davam da maneira como gostaria, também é verdade que não chegavam a ser desagradáveis. Por mais de uma vez quis que tudo fosse tão fácil, parecesse tão inesperado e surpreendentemente bom como sempre parece que é bom quando se olha uma relação de fora. O que lhe sobrava, no entanto, era a sensação pesada de que não fazia a coisa direito, que Ana não se lhe dava por que ele não dissera a palavra adequada, seu toque não foi suave como deveria ou esquecera de um agrado qualquer que poria Ana tão louca como esperava que loucas fossem todas elas. Não que Ana não gostasse de se dar a ele: dava-se. No entanto, com uma freqüência menor do que a que gostaria, com estipulações tão entremeadas de ais e assim todas as condições acabavam pondo-o um tanto irritadiço. Se havia o noivado também, como a impor um tabu que achava que o noivado, justamente, sepultaria, havia também toda a necessidade de parecer tão casta o tempo inteiro, e se forem se amar a toda hora não parecerá novidade quando vierem os enxovais, e as tias presentearem sempre com enxovais tão bonitos, e tanta renda, e tudo tão branco e para Renato já não é mais preciso tantos enxovais. Para Renato bastaria Ana dar-se mais a toda hora, não envolver-se em muxoxos em frente à casa e perturbar-se sempre com a mãe perto da janela e negar-lhe tanto os beijos que já nem tinha.

Certo é que todo o processo é demorado, mas Renato preparara-se para aquilo, suportara as novelas, as conversas que não lhe dizem bem a que vem, os cochichos como se houvesse coisa muito importante a se falar e a necessidade de se dar extrema importância para aquilo o que já nem importa tanto assim. Mas certo também foram as saídas no final de tarde, e como as ambrosias parecem estender-se quando se planeja um destino já tão ansiado. Mas logo foram os cinemas, as mãos e arrepios a elevar-lhe os poros na altura do pescoço – um compasso tão desejado quanto meticuloso, os beijos demoram-se mais, atreve-se a colocar mãos onde na claridade não deveriam estar e a aguardar com elas naquele lugar macio, procurar a profundeza dos seus decotes e achar-lhe os bicos, os bicos dos seios, tão cheios, tão quentes. Um caminho como que não arranjado os põe à porta de um hotel qualquer, um canto que lhes dê tempo para o amor e que tudo possa parecer tão natural como natural não é; não com os medos de Ana, as aflições de Ana, o desejo mas a quase negação de Ana. Se Renato não lhe põe segura, se não lhe garante que tudo está sob controle, para Ana não parece estar tudo sob controle em território tão hostil, em quarto tão iluminado, com lençóis que parecem sempre tão sujos, tão amarelados. Mas se Renato garante estar sob controle, quem é Ana para dizer que não, se Renato sabe os caminhos por onde se deve ir, se sua mão parece tão suave quando se conduz para os meios de Ana.

E a Ana não cabe perguntar, é óbvio, não tem cabimento, os gestos de Renato são arrebatados, os caminhos como se ele tivesse um mapa para decidir o toque, achar-lhe o ponto em que se põe tão relaxada – como suas pernas se abrem com tanta facilidade com Renato lhe tocando com tanta docilidade! Há as pressões que não gosta, a força que denota que Renato, ora, é claro que Renato... Não cabe perguntar, Renato é instruído, não é Ana sua primeira... Não esperava que fosse também. Não alimentava tamanhos romantismos, somente que Renato fizesse direito, lhe pegasse com carinho, lhe fosse paciente, não a ferisse, não a pegasse com tamanha sofreguidão. Não entendia a necessidade de Renato de se por tão violento, de vir com práticas que não lhe agradavam. A insistência em enfiar-lhe a língua, a camisola tão nova e já longe do corpo: o que entendia por preliminares julgava demorar mais, estender-se como um carinho sem fim. Em Renato, agora, a impaciência, o desejo que fizesse coisas que não queria, não lhe agradavam, aquele quarto também já não lhe agradava, tudo tão claro, malditas cortinas que não lhes garante nenhuma privacidade. Lógico que não esperava aquilo, ao menos o breu, que tudo fosse mais aconchegante, e não lhe parecesse tão apressado, Renato tão apressado, pegando-a daquele jeito, querendo arrumar-lhe as coxas de um jeito que não entendia, não sabia como fazer, e não havia como ficar à vontade como lhe pedia, sussurrando-lhe coisas no ouvido como se pudesse excitá-la, queria que tudo se acabasse de uma vez, e teria Renato novamente como o conhecia, e teriam então os cinemas, e somente os passeios e sorvetes, e todos veriam que eram noivos e se amavam, mas para Renato aquilo tinha tanta importância, e se lhe era assim, concordava, queria ser de Renato é certo, mas que a primeira vez se mostrasse tão demorada e se sentisse tão constrangida, e Renato parecia tão fatigado, insistindo e insistindo e por fim, ah, quem lhe disse que doía tanto assim, Renato feliz conseguira rompê-la, investindo mais e mais em cima de Ana, se não tivesse tão quente e não suassem tanto e Renato não chega nunca ao fim e tudo o que poderia fazer era esperar, aguardar somente, não iludir-se que seria a coisa mais linda do mundo por que não seria, já não estava sendo, não poderia sê-lo.

Publicado originalmente no Simplicíssimo.